Don’t say anything, and your message will be perfectly understood» («Não diga nada, e a sua mensagem será perfeitamente compreendida») é uma frase da peça The Audience, de Peter Morgan, sobre as audiências semanais da Rainha Isabel II aos sucessivos primeiros-ministros britânicos, com quem reuniu pontualmente, todas as quartas-feiras, às 16h30, para discutir assuntos de Estado e onde era servido, naturalmente, um chá.
António José Seguro, o Presidente eleito, tem uma leitura dos poderes presidenciais que não fazem dele a Rainha de Inglaterra. Tal como disse no segundo dia da campanha oficial das presidenciais, em Loulé: «Tenho de ser reservado na resposta que poderei dar às declarações do primeiro-ministro, porque espero, dentro de dois meses, recebê-lo e trabalhar com ele em Belém». Acrescentando ainda: «E não será para tomar chá». Estávamos no início de janeiro, no dia 5, nessa altura ainda ocupava o quinto lugar nas sondagens.
Ainda assim, podemos escrever sem risco de injustiça que António José Seguro chegou a Belém dizendo muito pouca coisa, mas os portugueses perceberam o essencial da mensagem. Dito de outro modo, acreditaram que a moderação e a estabilidade prometidas pelo novo Presidente podem funcionar como dique de contenção dos ‘extremismos’.
Foi, provavelmente, a eleição presidencial menos ideológica de sempre, porque os portugueses votaram, essencialmente, no homem, na persona que Seguro construiu estrategicamente, sem ceder a tentações, mesmo quando tudo indicava que o caminho estava em risco.
‘Um entre nós’, l’homme normal ou the boy next door garantiram-lhe cerca de dois terços do eleitorado - uma votação histórica, recorde em termos relativos. Num tempo de lideranças vocais e histriónicas, de líderes carismáticos, Seguro apresentou-se com normalidade: generalidades e um discurso redondo. Não lhe conhecemos uma ideia própria estruturada sobre a Europa ou o mundo, quando ambos atravessam mudanças extraordinárias que condicionam o nosso futuro.
Um amigo do Presidente eleito confidenciou-nos que, dos dois, ele seria Nuno Álvares Pereira e Seguro D. João I - no sentido em que um é mais emocional e romântico e o outro, ainda que hesitante e prudente, mais racional e pragmático. Mas quem conhece a História sabe que D. João I foi Rei de Portugal e, nas palavras de Oliveira Marques, «talvez menos por mérito seu do que de um conjunto de circunstâncias favoráveis e pelo apoio de homens de coragem e de valor». Quando confrontados com a ideia de ‘sorte’, os mais próximos de Seguro repudiam-na e falam antes em coragem para avançar e perseverança para prosseguir uma estratégia delineada desde o princípio, deixando a ‘sorte’ como explicação para todos os que se enganaram quanto aos resultados de Seguro.
Eleito o Presidente, falta o resto
Por estes dias, muito se especula sobre as escolhas para Belém, sobre quem serão as mulheres e os homens do Presidente, em particular os chefes das Casas Civil e Militar. Falámos com várias pessoas próximas do Presidente eleito, que nos disseram que os convites terão começado apenas esta semana, embora Seguro tenha a equipa definida há meses. Pode haver surpresas, mesmo que, por agora, a atenção se concentre nos que o acompanharam na estrada, que o viram relacionar-se, um a um, com cada português, acreditando que aquele era o caminho para a vitória. Entre eles estiveram Paulo Lopes da Silva, diretor de campanha; Rita Saias, mandatária da Juventude, que ao longo da campanha se tornou cada vez mais relevante; e Luís Sobral, um contido assessor de comunicação, à medida de Seguro.
Mais à distância, um grupo informal que transbordava de alegria na noite eleitoral: António Galamba, Álvaro Beleza, Carlos Gaspar, Gustavo Cardoso, João Afonso, João Soares, João Ribeiro-Bidaoui, Jorge Marrão, Luís de Sousa, Óscar Gaspar, Pedro Dias, Ricardo Pires, Nuno Severiano Teixeira, entre muitos outros. Não é garantido, porém, que estes sejam os ‘homens do Presidente’. Haverá surpresas, dizem-nos - até porque para chefe da Casa Civil pode ser escolhida uma mulher, provavelmente uma diplomata de carreira.
António José Seguro tem amigos de vida e para a vida, mas as suas emoções são subterrâneas - apenas se distrai a olhar para a mulher, Margarida Maldonado Freitas, e para os filhos. Fará uma Presidência muito institucional, de ‘árbitro à inglesa’, que não atrapalha o jogo: discreta e confiante. Garantem-nos que de Belém não sairá opinião, mas decisão, e que Seguro é impenetrável no processo decisório: decide sozinho - racional, metódico e organizado.
Entre a equipa de conselheiros informais existe alguma acrimónia relativamente aos jornalistas, a quem nem sempre reconhecem um papel intermediador, num tempo dominado pela fúria do sound bite. Mas não será apenas por isso que ouviremos menos o novo Presidente: é que ele entende que não está no cargo para dar opiniões, mas para tomar decisões.
No discurso de vitória, no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, garantiu que, no que depender de si, o mandato do Governo de Luís Montenegro é para levar até ao fim, acrescentando que «abre-se um novo ciclo de três anos e meio sem eleições».
A afirmação foi considerada por muitos uma imprudência ou uma imoderação. Seguro não é ‘Rainha de Inglaterra’, tem poderes muito concretos - recorde-se que o seu antecessor dissolveu o Parlamento três vezes no segundo mandato -, mas não tem poder absoluto. O Parlamento tem vida própria, e André Ventura, líder do Chega, o maior partido da oposição, tem vida política ainda mais própria.
Numa altura em que o Governo de Luís Montenegro se prepara para vários cenários - entre eles a possibilidade de Ventura e o Chega chegarem ao poder, seja daqui a um ano ou a três - importa perceber como poderá o novo Presidente contribuir para garantir uma legislatura até ao fim.
Um dos amigos e conselheiros informais de Seguro com quem falámos contrariou a nossa interpretação, esclarecendo que o Presidente eleito deixou claro que o Parlamento é responsável por lhe trazer soluções, isto é, entrega ao Parlamento a responsabilidade de apresentar propostas que tornem a estabilidade possível, dito de outro modo, o mandato do Governo possível nos três anos que tem para governar até novas eleições.
As eleições presidenciais não podem ser transportadas para o país como se fossem legislativas. No limite, mostraram que o país, ao votar massivamente em Seguro, paradoxalmente, não quis pôr os ovos todos no mesmo cesto. A ideia de equilíbrio prevaleceu, com a extrema-direita a ficar aquém do que previa. André Ventura pode ter o ego ferido, mas não está derrotado - e tem pressa de chegar ao poder.
O novo Presidente recebeu também dos portugueses, de forma implícita, a tarefa de conter o líder do Chega. Muito provavelmente, não bastará afirmar que será o Presidente de «todos, todos, todos» os portugueses para que o milagre aconteça.