Nos últimos tempos tem ganho um protagonismo considerável nas redes sociais. É impossível hoje fazer política sem estar no Tik Tok, Instagram e Facebook?
Não é impossível, mas é um erro grave não ter uma estratégia de comunicação para essas plataformas. Potencialmente, não o fazer implica obter piores resultados. Quem desprezar essas plataformas nos dias de hoje coloca-se na mesma posição em que se colocaria alguém que decidisse não comunicar em televisão na década de 90 do século passado.
Cotrim Figueiredo deixou a liderança da IL e concorreu ao PE e à Presidências da República, tendo obtido muitos mais votos que o partido. O Rui agora está em todo o lado e as suas intervenções são muito comentadas. Não se consegue ter sucesso sendo líder da Iniciativa Liberal?
Os três presidentes da Iniciativa Liberal que foram a legislativas tiveram sucesso, O Carlos com a eleição do primeiro deputado, o João com a eleição do grupo parlamentar com oito deputados e eu próprio com a eleição de 9 deputados e a presença, pela primeira vez, em todos os parlamentos: regionais, europeu e nacional. Em três anos, ultrapassámos mesmo, e por muito, partidos mais antigos ou mais recentes como o PCP, o CDS, o BE, o PAN ou o Livre. Podemos não ter alcançado o crescimento de outros, mas também jamais teríamos o tipo de discurso político que esses adotaram. E podemos não ter alcançado o crescimento que eu próprio ambicionava, mas isso é uma questão de enorme exigência que colocamos a nós próprios, o que não deve converter uma trajetória de sucesso que outros invejariam numa perceção de percurso negativo. E devo dizer que seria uma enorme surpresa se não voltássemos a crescer com a Mariana.
As guerras internas do partido não terão contribuído para que a IL não tivesse tido mais votos nas Legislativas de 2025?
Contribuíram, seguramente. E o mesmo se aplica às eleições de 2024. Houve um claro prejuízo para o partido. E hoje parece-me evidente que esse ambiente de guerrilha foi instigado, por alguns deliberadamente e por outros no papel de idiotas úteis, com subserviência a interesses exteriores à Iniciativa Liberal. Basta olhar aos métodos que incluíram uma desfiliação apresentada em plena pré-campanha eleitoral com efeitos diferidos para depois das eleições e ao percurso posterior de protagonistas da alternativa como Carla Castro e Paulo Carmona para perceber quais os seus propósitos. Onde estão e quem apoiaram nos últimos tempos? Onde estaria a Iniciativa Liberal se tivesse caído nas suas mãos? Felizmente, fomos capazes de continuar a crescer e de preservar a autonomia estratégica da Iniciativa Liberal.
Deixou a liderança do partido por não ter conseguido a votação que idealizou. Acredita que a IL algum dia poderá ter 60 deputados?
A liderança exerce-se pelo exemplo. E eu quis dar uma mensagem clara ao partido de exigência e de desprendimento. Apesar do sucesso, o crescimentonão foi o suficiente para o nível de exigência que coloco a mim próprio e que a Iniciativa Liberal deve ter como referência. Crescer e ter sucesso não é suficiente. É preciso atingir os objetivos que nos colocamos e os objetivos devem ser sempre de enorme ambição. Adicionalmente, quis abrir uma oportunidade para uma renovação da direção do partido. A Iniciativa Liberal deve ser muitíssimo agradecida a determinados protagonistas, mas é importante também reconhecer que os perfis certos para um momento já não são os mais adequados noutras circunstâncias. É um legado que deixei e uma oportunidade que abri na Iniciativa Liberal. Confio que a nova liderança saberá manter esses níveis de exigência e aproveitar essa oportunidade. Se assim for, estaremos mais perto de alcançar o crescimento que ambicionamos. Não nos podemos colocar na posição de outros, como Rui Tavares, muito acarinhados por certa imprensa como sendo espíritos fulgurantes, mas que vão acumulando resultados medíocres ao longo dos anos.
Foi advogado, consultor jurídico e diretor de recursos humanos. Hoje é vereador e deputado da nação. O que lhe deu mais gozo fazer até hoje?
Tive sempre um enorme gozo em exercer todas essas funções. Talvez aquela em que menos me reveja, hoje em dia, seja a de advogado. Mas o fundamental é mesmo ter tido a oportunidade de fazer esse percurso e de continuar a desfrutar de uma enorme paz e tranquilidade sobre o que fiz e de ter muitíssimo gozo no que faço.
Foi uma das vozes que mais protestou contra a nomeação de Tiago Antunes para provedor de Justiça. Acha que o PS e o PSD tentaram branquear o ‘Socratismo’?
Não tenho nenhuma dúvida. Como tive oportunidade de escrever, só um PS sem vergonha e um PSD sem memória seriam capazes de apresentar um candidato para uma função desta natureza com o percurso de Tiago Antunes. Há muitíssima gente que olha para a audição que fiz, em que desmascarei esse percurso, com o sentimento de que se fez justiça. Mas o Chega esteve também para embarcar nesse despropósito. Basta ver a audição cordata conduzida pela sua deputada para perceber que, se não fosse a intervenção que fiz, estava preparada a viabilização de Tiago Antunes por PS, PSD e Chega.
O espetáculo que o PSD, Chega e PS estão a dar na história das nomeações para o Tribunal Constitucional não envergonha a Justiça portuguesa?
Envergonha sobretudo os políticos e, especialmente, o PS. Há uma hipocrisia de base em tentar defender-se que o Tribunal Constitucional não tem uma dimensão política. É evidente que tem. E o PS quis deixar que se instalasse a ideia de que estava movido pela defesa da democracia recusando a possibilidade de o Chega indicar um juiz. A verdade é que o único problema do PS era não ter a possibilidade de indicar o seu próprio juiz.
O que pensa da ‘intenção’ do líder parlamentar do PSD de tornar a declaração de rendimentos e de interesses dos políticos inacessível ao público?
A natureza pública da informação é essencial à credibilidade do sistema. No sentido de que é também importante não promover um ambiente de devassa pela devassa, parece-me adequado que se exija um motivo atendível para ter acesso a essa informação. A legislação atual é relativamente recente e foi objeto de variadíssimas revisões em pouco tempo. Parece-me inoportuno voltar a alterá-la. É preciso dar tempo, 2 a 3 anos, avaliar os resultados da sua aplicação e então aí fazer ajustamentos, sempre no respeito dos princípios que enunciei.
Não é preocupante que a presidente do Tribunal de Contas, Filipa Urbano Calvão, diga que o «Governo comete erros intencionais para denegrir o Tribunal de Contas»? Não acha perigoso que só os contratos a partir dos 10 milhões obriguem o TdC a dar um visto prévio?
Nós temos ainda memória recente da governação socialista que se especializou na manipulação dos dados e das perceções. Há sinais preocupantes de que esses tiques podem também estar a instalar-se na governação da AD e, obviamente, uma vez iniciado esse caminho, não há retorno. Coisa distinta é a discussão sobre o visto prévio. Reconheço os riscos da decisão, mas o país precisa de um choque de simplificação. Não há política sem risco e este é daqueles que vale a pena correr.
Concorda que os partidos deixem de ser obrigados a revelar os nomes dos ‘doadores’?
Não concordo, nem me parece que a lei atual leve a esse resultado. Em todo o caso, se for necessária clarificação legislativa, pois que se clarifique.
A AR aprovou a proibição do uso da burca nos espaços públicos. Qual a razão para ainda não ter sido promulgada?
Aprovou e sou favorável a essa decisão que tive oportunidade de defender no Parlamento. A burca é um sinal de submissão das mulheres incompatível com os valores da nossa comunidade e devemos sinalizar sem rodeios a nossa condenação, tal como fazemos com a violência doméstica ou sexual. Do que conheço do processo, não avançou depois de aprovada a legislação na generalidade porque o Chega, que apresentou a proposta, não assegurou a sua tramitação posterior
Qual a diferença entre alguém da extrema-esquerda e da extrema-direita? Há uns maus que são aceitáveis e outros que não?
Não há qualquer diferença. E os que partem de posições enviesadas nesta matéria, sinalizando os extremismos de um dos lados e omitindo os do outro, apenas se colocam, provavelmente sem se aperceberem, de um dos lados desses extremismos.
Quais as diferenças ideológicas entre Pablo Iglesias, Yaris Varoufakis, Rui Tavares ou Paulo Raimundo?
Representam nuances dentro de uma mesma visão do mundo. Paulo Raimundo mais próximo da linha estalinista, Iglesias do pós-marximo e do interseccionalismo, Rui Tavares de uma sonsice-leninista e Varoufakis de uma síntese folclórica dessas correntes com a diferença de que teve a oportunidade de exercer diretamente o poder na pasta das finanças com as trágicas consequências conhecidas pelos gregos. Mas, no essencial, é mais o que os une do que o que os separa. O tronco comum é o ressentimento contra o sucesso e o nivelamento por baixo, a defesa de uma sociedade de mínimos porque sempre orientada para o mínimo denominador comum.
E, já agora, entre Trump, Orbán, Meloni e Milei?
Os acontecimentos recentes cavaram clivagens que as cumplicidades de circunstância tinham disfarçado. Do ponto de vista político e económico, a abordagem de Milei distingue-se da de todos os outros. Milei posiciona-se claramente a favor da redução do poder do Estado na sociedade. Mas por conveniência, continua a apresentar-se com grande proximidade a Trump. Os restantes, de forma declarada ou não, usam o Estado para prosseguir os seus interesses, o que resulta num Estado com cada vez mais poder. Meloni percebeu que a proximidade a Trump era tóxica e tomou posição clara de distanciamento. Aqui foi a dimensão internacional, com óbvias consequências internas, que acabou por ditar as diferenças. Orban, num certo sentido, teve o seu golpe de misericórdia devido a essa mesma proximidade ao nível político, económico e da própria visão internacional que não só admitiu como promoveu.
Voltando às redes sociais. Os seus vídeos em Braga são o pior pesadelo do presidente da Câmara?
Esse é um bom exemplo de como as plataformas são importantes, mas a verdade é que o pior pesadelo do presidente da Câmara de Braga são a sua arrogância e o facto de prometer como nunca e de adiar como sempre. Os vídeos apenas expõem as suas insuficiências. Agora, admito que João Rodrigues não estivesse habituado a este nível de escrutínio. Vamos seguramente continuar a fazê-lo. Admito que seja desconfortável, mas, nesse caso, só tenho um conselho: habitue-se.