Disse que a política não é um campo de confronto permanente, mas, se não tivesse enfrentado os problemas indo contra a opinião de alguns camaradas de partido, acha que teria ganho a última eleição com mais de 40%?
Eu nasci neste concelho, sempre aqui vivi. Conheço-o como ninguém e sempre me pautei, enquanto vereador e presidente, por colocar os interesses da população à frente de qualquer tática partidária. A maioria absoluta é resultado de uma nova visão que introduzimos: queremos fazer parte da solução de todos os problemas que afetam a vida das pessoas. E isso viu-se na construção de novos centros de saúde, escolas, vias (como a saída da A1 para a Bobadela, que, não sendo da nossa competência, somos nós a fazer), do quartel da GNR de Bucelas.
Demitiu-se da Federação da Área Urbana de Lisboa do PS por críticas que sofreu dentro do partido. Olhando para trás, não acha que cedeu ao politicamente correto?
A minha primeira missão é como autarca de Loures. Demiti-me em consciência, para ter essa maior liberdade de atuação enquanto presidente da Câmara. O PS está a dar um sinal de que nós estávamos certos. E outros presidentes de câmara estão a fazer o que nós fizemos, que é demolir a construção ilegal de zonas abarracadas.
A sua política de não permitir que existam obrigações e direitos diferentes para os seus munícipes tem contribuído para alguns despejos de casas camarárias. Para onde têm ido viver essas pessoas ‘expulsas’?
Permita-me corrigir o pressuposto da pergunta: o Município de Loures não expulsa pessoas, nem emite ‘ordens de despejo’ no sentido que dá à expressão. Existe um regime jurídico do arrendamento apoiado e que tem de ser acionado quando se verifica um incumprimento contratual grave e reiterado. Loures cumpre escrupulosamente a lei e espera o mesmo dos seus munícipes: garantimos o cumprimento dos direitos, mas também dos deveres por parte de todos. Em 2021, quando cheguei à Câmara Municipal, 55% dos inquilinos eram devedores. Em janeiro deste ano, eram 11,8%. Esta redução expressiva reflete o excelente trabalho do Município.
Disse também que havia 600 barracas no concelho. O número tem baixado?
O município é intransigente no combate à construção ilegal. Desde as últimas eleições autárquicas já foram demolidas mais de 30 barracas e continuaremos a atuar sempre que surjam novas situações ilegais. Relativamente às cerca de 600 barracas identificadas, a resposta está enquadrada na Estratégia Local de Habitação elaborada em 2021. Destas, 300 terão solução através da construção de novos fogos, com entrega de chaves prevista para este ano. As restantes 300 serão resolvidas através de uma gestão rigorosa do parque habitacional municipal. Temos vindo a reduzir incumprimentos e a garantir que quem não cumpre perde o direito à habitação, libertando fogos para quem realmente precisa. Paralelamente, o executivo municipal está a apostar na construção de habitação destinada à classe média e aos jovens, com rendas acessíveis. Queremos garantir que os jovens conseguem fixar-se no concelho. Para isso, será lançado um programa específico de construção para arrendamento acessível. A esta medida junta-se um outro programa, já em execução, com uma dotação de cerca de 1 milhão de euros, que beneficia aproximadamente 900 famílias, com um valor médio mensal de 150 euros para rendas ou prestações bancárias. O compromisso é duplicar esta verba até 2029, atingindo os 2 milhões de euros.
Consegue andar em todo o concelho sem ter segurança pessoal?
Era só o que faltava não poder andar no meu concelho à vontade.
Chegou a assumir que não era bonito para as suas duas filhas e mesmo para a sua mulher ouvir as críticas de que era desumano. A vitória registada nas últimas autárquicas ajudou a ultrapassar esse ‘estigma’?
As minhas filhas sabem o pai que têm, pelo que a questão não se coloca desse modo. Destacaria antes a falta de rigor em informações que foram veiculadas, nomeadamente por aproveitamento político. Essa foi a dimensão negativa desta situação.
O Parlamento aprovou, embora ainda não tenha entrado em vigor, a lei que proíbe o uso de burca e niqab em espaços públicos. É notório que no seu concelho, nomeadamente em Moscavide, muitas mulheres andam de burca. Como pensa ultrapassar esse problema?
Em Loures, reside uma significativa comunidade muçulmana, mas raramente nos cruzamos com mulheres que usam o véu islâmico integral, pelo que entendo que se trata mais de um debate ideológico do que baseado numa prática generalizada.
Quantas nacionalidades vivem no seu concelho? Há alguma que seja problemática?
Temos o mundo dentro do nosso concelho. Convivem aqui, há décadas, várias nacionalidades, quer em contexto de escola, bairro e comunidade, sem que haja qualquer problema identificado entre elas. Atualmente, são cerca de 130 as nacionalidades, de acordo com os dados da AIMA.
Como reage quando camaradas seus dizem que está mais perto do Chega do que do PS?
Penso pela minha cabeça e estou focado em defender os interesses do meu concelho e da minha população.
O que ficou da Jornada Mundial da Juventude? Acha que Loures vai conseguir ser sinónimo de qualidade de vida?
Com a JMJ, Loures afirmou-se como um território capaz de concretizar grandes projetos. Foi determinante para uma transformação estrutural que ficará para as próximas gerações. Realizámos a reconversão paisagística da zona ribeirinha, um espaço que esteve ocupado por contentores e áreas desqualificadas e que agora é o Parque Papa Francisco. E, como este, temos outros exemplos de áreas para convívio e lazer que são um claro investimento na qualidade de vida.
Consegue dar um roteiro gastronómico e cultural de Loures?
Podemos começar em Bucelas, com um copo bem fresco de Arinto - branco, vibrante e tão elegante que até parece que faz vénias antes de chegar à mesa - e seguir entre quintas, ruas cheias de história e aquele espírito saloio que sabe receber como ninguém. É obrigatório visitar o Festival do Caracol Saloio, um dos maiores festivais gastronómicos do país, onde o caracol é rei e a dieta vai de férias.
Por fim, acha que o seu amigo Pedro Nuno Santos algum dia poderá voltar à liderança do PS?
É uma decisão dele.