sexta-feira, 13 mar. 2026

Retrato de Vhils ‘esconde’ obra de mestre Bessa

Marcelo aceitou em 2017 o quadro de um pintor do Porto como seu retrato oficial. Mas agora escolheu Vhils. E isso mostra bem a evolução do seu mandato, diz Bernardo Pinto de Almeida.

António Bessa, de 72 anos, artista plástico do Porto que todos conhecem por mestre Bessa, foi apanhado de surpresa pela recente notícia do Expresso de que Vhils foi escolhido como autor do retrato oficial de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto Presidente da República.-----------O Nascer do SOL ouviu-lhe esta semana o lamento: «Fiquei surpreendido, mas não desiludido. Quando o Presidente me escolheu em 2017, foi um sonho. E agora tornou-se um bocado um pesadelo. Mas não trocaria por nada estes anos de glória que o Presidente me proporcionou ao fazer-me pensar que seria eu o autor do seu retrato oficial».

A história é sobejamente conhecida. Em junho de 2017, na véspera do Dia de Portugal, mestre Bessa recebeu a visita de Marcelo Rebelo de Sousa no seu atelier na Rua do Almada, a dois passos do Bolhão, e ofereceu-lhe o retrato: Marcelo descansa sentado numas escadas e apoia a cabeça no braço direito. 

A pintura baseou-se em fotografias do fotojornalista Orlando Almeida, do Diário de Notícias.

O Presidente cumpria então o segundo ano do primeiro mandato e logo ali prometeu que a oferenda seria o seu retrato oficial. Foi o que entendeu mestre Bessa, é o que está registado na imprensa da época. 

Nove anos volvidos, Marcelo mudou de ideias e escolheu Vhils. «É uma opção do Presidente, só tenho de respeitar», comentou mestre Bessa, acrescentando que a sua pintura chegou a ser enviada para o Palácio de Belém com o apoio da Câmara do Porto e deverá permanecer no acervo do Museu da Presidência da República.

O motivo da mudança de artista não é difícil de compreender. Segundo nos explicou Marcelo Rebelo de Sousa, a escolha foi-se complicando ao longo dos anos porque o Presidente recebeu várias telas figurativas de outros pintores.

E resolveu convidar Vhils por entender, tal como os três antecessores, que os Presidentes devem escolher artistas representativos da sua época. «Vhils é claramente desta nova época, da arte urbana e moderna», qualificou Marcelo ao Nascer do SOL.

A obra é uma oferta, sem lugar a pagamento. Segundo o Presidente, Vhils recusou o convite inicial, mas alguns meses depois começou a mudar de ideias. «Resolvi insistir e ele aceitou», confidenciou-nos o Presidente. «Ainda houve a hipótese de Pedro Cabrita Reis, que também se ofereceu para me fazer o retrato, mas depois nunca mais houve oportunidade».

Os retratos dos Presidentes da República — ou de juízes de tribunais superiores e de reitores de universidades — é uma tradição herdada da monarquia, segundo o professor universitário e crítico de arte Bernardo Pinto de Almeida, ouvido pelo nosso jornal.

Mudança com Soares

Todos os 20 chefes do Estado desde 1910 têm encomendado a sua representação pictórica a artistas em voga nas suas épocas. O mais requisitado até hoje foi Henrique Medina, que nos anos 30 ganhou fama internacional ao pintar artistas e milionários de Hollywood. São dele os retratos de Sidónio Pais, de António José de Almeida e de Américo Thomaz, entre outros.

Columbano Bordalo Pinheiro e Martinho da Fonseca também foram requisitados por mais do que um Presidente.

«Nem todos os Presidentes se fizeram retratar durante o seu mandato. A coleção dos retratos oficiais foi-se constituindo muitas vezes com encomendas póstumas ou com o aproveitamento de retratos realizados em diferentes circunstâncias, anteriores ou posteriores ao exercício do cargo», lê-se no site do Museu da Presidência da República, que funciona no Palácio de Belém e tem as obras à sua guarda e em exposição permanente.

Os quadros presidenciais seguiram sempre um estilo formal com figuração cerimoniosa. O paradigma mudou em 1992 quando Mário Soares convidou o amigo de juventude Júlio Pomar, que executou um quadro invulgar, com Soares em movimento, como que a conversar com quem o vê, sentado na famosa Cadeira dos Leões, peça de mobiliário do Palácio de Belém que foi vista pela primeira vez na pintura de Manuel de Arriaga feita por Columbano.

Populismos

Chegados a Marcelo, a escolha de Vhils parece herdar a disrupção estética de Soares. Segundo Bernardo Pinto de Almeida a troca de mestre Bessa por um nome seguro da arte urbana presta-se a uma leitura.

«Mestre Bessa é um pintor razoavelmente conhecido no Porto cuja fama é popular. Nunca entrou nos circuitos da chamada arte erudita», disse-nos Bernardo Pinto de Almeida. «Ao escolher inicialmente este pintor, Marcelo esteve em consonância com o seu estilo presidencial, sobretudo do primeiro mandato, que consistiu num constante apelo de legitimação junto do povo e menos dos partidos e das instituições políticas, o que aliás deu um sentido quase populista à sua presidência».

Para o catedrático jubilado da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, ao convidar um segundo artista, Marcelo deu um passo sem sair do lugar. «Reitera a escolha anterior, porque Vhils também não é um artista de referência erudita. É originalmente um grafitista, não foi coroado nem pela crítica da arte, nem pelas instituições, nem pelas grandes galerias, foi ganhando legitimação a partir do universo da rua».

Na opinião de Bernardo Pinto de Almeida, a opção por Vhils «mostra que a presidência de Marcelo foi, de certo modo, a confirmação da instauração do populismo na política portuguesa». Marcelo foi «o primeiro Presidente pop que Portugal teve» e isso está de acordo com Vhils, cujas criações derivam em grande medida da evolução da arte pop americana dos anos 60. «Ambos fizeram o mesmo movimento: passaram da procura de uma legitimidade do povo para uma representação que já pisca o olho ao erudito, ao mercado, ao institucional».

O retrato já está pronto e será revelado no dia 3 de março, seis dias antes de tomda de posse do sucessor, António José Seguro. Há dúvidas sobre se teremos uma pintura em tela, como é tradição desde o primeiro presidente da República, ou se o retrato consiste numa intervenção escultórica na parede, ao estilo de Vhils? Marcelo não entrou em detalhes, mas deixou-nos pistas: «Vamos lá ver como fica a arte urbana dentro de casa e em proporção com os outros retratos».