Há uma tensão antiga entre a poesia e o poder. Platão expulsou os poetas da República por os considerar perigosos - e tinha razão, embora não da forma que pensava. Os poetas são perigosos não porque mentem, mas porque dizem verdades que o poder prefere não ouvir. E, no entanto, ao longo da história, alguns deles não ficaram fora da República: entraram por ela, governaram-na, moldaram-na. Outros fizeram o caminho inverso: chegaram ao poder pela política e descobriram, ou revelaram, que eram também poetas.
Aimé Césaire é talvez o caso mais radical desta fusão. Martinicano, fundador do conceito de negritude ao lado de Léopold Sédar Senghor e Léon-Gontran Damas, Césaire foi durante décadas presidente da câmara de Fort-de-France e deputado na Assembleia Nacional francesa. O seu ‘Cahier d’un retour au pays natal’ é um dos poemas políticos mais poderosos do século XX - não porque seja um panfleto, mas porque transforma a dor colonial em linguagem nova, incandescente, irredutível. Césaire percebeu que a libertação de um povo começa pela palavra, e que a palavra poética tem uma força que o discurso político não consegue alcançar. No fundo, foi poeta para poder ser político de uma forma mais profunda.
Senghor, o seu companheiro de geração, foi presidente do Senegal durante vinte anos - e poeta toda a vida. Foi o único chefe de Estado africano a ser membro da Académie Française. Governou com a mesma mão com que escrevia: convicto de que a cultura é o substrato de tudo o resto, que um povo sem memória poética é um povo sem futuro.
Octavio Paz percorreu um caminho diferente. Diplomata mexicano durante décadas, representou o seu país em Paris, no Japão e na Índia - foi embaixador em Nova Deli até 1968, quando renunciou em protesto contra o massacre de Tlatelolco, em que o governo mexicano reprimiu violentamente uma manifestação estudantil. Paz era um homem do poder que nunca se deixou engolir por ele, e essa recusa custou-lhe a carreira diplomática mas valeu-lhe a consciência. Ganhou o Nobel em 1990. A sua poesia e os seus ensaios são inseparáveis do tempo político que viveu - o México, o labirinto da solidão, a identidade de um continente partido entre várias heranças.
André Malraux é outro caso singular. Não era um poeta no sentido estrito, mas foi escritor e foi ministro - ministro da Cultura de De Gaulle durante uma década, o homem que limpou as fachadas de Paris e criou as Maisons de la Culture. Em Malraux, a literatura e a ação foram sempre inseparáveis: combateu na guerra civil espanhola, na Resistência francesa, em Indochina. Escreveu A Condição Humana como quem toma partido. Para ele, a cultura não era ornamento - era o cerne da civilização.
Do 25 de Abril ao governo de Montenegro
Em Portugal, Luís Filipe Castro Mendes representa uma versão mais discreta desta mesma figura: poeta e diplomata, chegou ao Ministério da Cultura com uma obra poética já consolidada, sem que a política alguma vez a tivesse instrumentalizado. Se Malraux era o intelectual que governava como quem escreve um romance de aventura, Castro Mendes é o poeta que governa como quem cuida da língua, com atenção, com paciência. Não se aguentou muito tempo no cargo. O poeta não resistiu ao político.
Por cá, o cruzamento entre poesia e política é indissociável da longa sombra do Estado Novo e de «o dia inicial inteiro e limpo», o 25 de Abril de 1974. Sophia de Mello Breyner Andresen foi eleita deputada à Assembleia Constituinte em 1975, pelo círculo do Porto, nas listas do PS, não se demorou por lá, mas antes disso e sempre a sua poesia foi profundamente política no sentido mais exigente da palavra: uma poesia de justiça, de luz e de recusa moral. O seu poema ‘Esta Gente no Parlamento’ foi o primeiro texto literário a entrar naquela sala, e foi recebido como um manifesto. Sophia não precisou do poder para governar a consciência de um país.
Manuel Alegre fez o caminho mais direto: foi deputado, candidato presidencial, e é poeta. A sua poesia nasceu da resistência ao salazarismo, do exílio, da guerra colonial em que participou como oficial e da qual regressou transformado. Em Alegre, a política e a poesia não são duas vocações - são a mesma, expressa em registos diferentes. Herberto Helder é o contraponto absoluto: nunca quis saber de política, recusou prémios, viveu na margem. E, no entanto, a sua poesia é, à sua maneira, um ato político - a afirmação radical de que existe uma linguagem que não obedece a nenhum poder.
O que une figuras tão diferentes - Césaire, Senghor, Paz, Malraux, Sophia, Alegre - é a convicção, implícita ou declarada, de que a palavra tem responsabilidade. Que escrever não é um ato neutro. Que a poesia é sempre uma forma de resistência, mesmo quando quem a escreve está sentado no lado do poder.
Por estes dias, o Presidente da República, António José Seguro, tem como consultor de cultura o editor, escritor e poeta Francisco José Viegas. O poeta Pedro Mexia teve o mesmo cargo enquanto Marcelo Rebelo de Sousa foi Presidente da República. Na linha do tempo, vamos encontrar com o Presidente Aníbal Cavaco Silva, na mesma função, o tradutor e poeta Pedro Rapoula, atualmente chefe de gabinete do ministro adjunto para a Reforma do Estado, Gonçalo Matias, que por estes dias lançou o seu segundo livro de poesia, Coisas que me Ensinaram a Calar (ed. Guerra & Paz), o primeiro que publica com o apelido Rapoula.