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O Partido Socialista saiu do 25.º Congresso Nacional, realizado em Viseu este fim de semana, com uma estratégia de equilíbrio: disponibilidade para dialogar com o Governo, mas com maior exigência política e linhas vermelhas bem definidas.
Sem oposição interna assumida, José Luís Carneiro foi reeleito com 97,1% dos votos, consolidando a liderança numa reunião magna marcada por um ambiente de unidade, ainda que com sinais pontuais de desconforto interno.
A relação com o Executivo esteve no centro do congresso, sobretudo após a polémica em torno da escolha de juízes para o Tribunal Constitucional.
Na abertura dos trabalhos, Carneiro deixou um aviso direto ao Governo: caso o PSD procure entendimentos com a extrema-direita, o PS dará “um rotundo não”.
“Há linhas que não se negoceiam. A Constituição não se relativiza”, afirmou, citado pela agência Lusa, exigindo clarificação ao primeiro-ministro sobre o rumo das negociações institucionais.
Apesar do tom inicial, o líder socialista acabaria por suavizar a posição, confirmando que continuam contactos com o PSD sobre a composição de órgãos externos ao Parlamento, pedindo discrição no processo.
O presidente do partido, Carlos César, procurou baixar a tensão política, defendendo que os socialistas devem “querer ser parte das soluções”, apesar de críticas ao que classificou como “défice democrático” do Governo.
Também figuras como Augusto Santos Silva, Francisco Assis e Pedro Silva Pereira sublinharam que o desfecho das negociações sobre o Tribunal Constitucional poderá marcar o futuro da relação entre PS e PSD.
Outro dos temas centrais foi a reforma laboral em discussão na concertação social. A ex-ministra Ana Mendes Godinho apelou a uma “luta intransigente” contra propostas que considera um retrocesso.
No discurso de encerramento, Carneiro foi claro: o PS rejeitará a proposta do Governo tal como está.
O aviso surge apesar de o Presidente da República, António José Seguro ter manifestado esperança num “acordo equilibrado” nesta matéria.
Unidade interna com críticas pontuais
A ausência de oposição interna estruturada ficou evidente na eleição dos órgãos do partido. A lista única para a Comissão Nacional, liderada por Inês de Medeiros, foi aprovada com 88,9% dos votos.
Ainda assim, surgiram críticas em moções setoriais, com alertas para um PS demasiado ambíguo na relação com o Governo. Miguel Costa Matos defendeu que o partido deve afirmar-se como alternativa de poder e não como parceiro parlamentar do executivo, apontando Carneiro como futuro primeiro-ministro em 2029.
O único momento de contestação direta ocorreu com a tentativa falhada de uma lista liderada por Ricardo Gonçalves à Comissão Nacional, que acabou rejeitada por irregularidades formais.
O congresso marcou o arranque pleno da liderança de José Luís Carneiro, num formato renovado — com sala em hemiciclo e menos delegados — mas com níveis de entusiasmo moderados.
A nova Comissão Nacional reunirá nas próximas semanas para eleger os restantes órgãos, num momento que permitirá avaliar o grau de renovação interna do partido.
Para já, o PS sai de Viseu unido, mas sob pressão para clarificar a sua posição: entre a cooperação institucional com o Governo e a afirmação como alternativa política.