sexta-feira, 13 mar. 2026

PS entre a oposição e a reconstrução

Carneiro queixa-se de “sobranceria” e “desrespeito” do Governo.
PS entre a oposição e a reconstrução

O secretário-geral do Partido Socialista transformou a intervenção pública numa espécie de videojogo: entre o Super Mario Bros. e Sonic the Hedgehog, acumula vidas extra, desdobrando-se em inúmeras intervenções.

Para onde quer que se olhe, José Luís Carneiro está lá. Esta semana, e facto pouco comum, concedeu duas entrevistas quase em simultâneo a canais televisivos. Além disso, escreveu cartas ao primeiro-ministro — que ficaram sem resposta — e queixou-se por isso, percorreu o país, falou com jornalistas, apresentou medidas de apoio às populações afetadas pela catástrofe, lançou o site oficial da candidatura às primárias do partido, e debateu com o primeiro-ministro no Parlamento.

“É tempo de dar voz a todos” e “contamos todos” são ideias centrais da campanha de José Luís Carneiro para as primárias do PS, marcadas para 13 e 14 de março, às quais se candidata a secretário-geral — por agora o único, e muito audível — procurando reafirmar o PS como “a única alternativa credível para governar Portugal”, um “partido progressista, humanista e moderado” e “uma nova esperança”.

Na noite em que o novo Presidente foi eleito, o secretário-geral socialista deslocou-se de Lisboa às Caldas da Rainha para abraçar António José Seguro, e ficou-se por esse gesto. Entretanto, faz questão de sublinhar que Seguro foi eleito com o apoio do PS, mas que a vitória lhe pertence. Carneiro sabe que a relação entre o Presidente eleito e o PS é shakespeariana: há contas por ajustar. Por cautela, opta por não contar com Palácio de Belém e por fazer o que tem de ser feito a partir do Largo do Rato.

Começou a semana a avisar o primeiro-ministro de que “a paciência tem limites”, depois de lhe ter enviado cinco cartas sem resposta com propostas nas áreas da saúde, habitação, defesa e justiça, bem como medidas de apoio às populações que ainda sofrem os efeitos da tempestade. Considera que a resposta do Governo ao mau tempo foi “tardia e descoordenada” e relata que, nas visitas às zonas afetadas, ouviu das populações que a resposta continua insuficiente.

Numa entrevista à RTP, José Luís Carneiro afirmou: “Temos estabilidade política na Presidência da República para cinco anos. O Governo depende da AR. O primeiro-ministro, que lidera um Governo cuja legitimidade política apresenta fragilidades, deveria ter como primeira preocupação — seria essa a minha — criar uma relação de confiança construtiva com quem possa garantir essa estabilidade.” Considera, porém, que o Governo tem feito o contrário: “nos momentos cruciais, tem optado pelo Chega e tem ameaçado que, se o PS não aprovar, por exemplo, matérias de natureza laboral, procurará acordo com esse partido. Isto revela, do meu ponto de vista, sobranceria e desrespeito pelo PS.”

Problema do PS é (também) o PS

Com o secretário-geral a olhar para fora, o Nascer do SOL olhou para dentro do PS com a colaboração da politóloga Sofia Serra Silva, que afirma: “O sistema partidário tornou-se mais fragmentado e competitivo e apresenta hoje uma configuração tripolar. A base tradicional de apoio do PS diminuiu e a captação de novos votantes, sobretudo jovens, é difícil.”

E os desafios não ficam por aqui: “Em 2024 surgiu um novo elemento: pela primeira vez, o PS perdeu votos diretamente para o Chega. Parte dos seus votantes de 2022 declarou ter votado nesse partido apenas dois anos depois. Esta transferência de votos da social-democracia para a direita radical é comum noutras geografias. Em Portugal, dados de inquéritos pós-eleitorais demonstram que estes eleitores tendem a ser jovens, com fortes preocupações económicas e atitudes críticas face à imigração. Em muitos casos, defendem o Estado social, mas numa lógica etnocêntrica, centrada na ideia de proteção ‘para os nossos’.”

Chegados aqui, encontramos um PS “com a sua imagem fragilizada por suspeitas de corrupção e perceções de falta de transparência na vida pública (relativas ao último governo socialista). Esse desgaste reputacional tem efeitos políticos reais. Partidos como a Iniciativa Liberal e o Chega fazem hoje uma oposição mais frontal, sistemática e até hostil ao legado e às propostas socialistas do que a direita tradicional fazia no passado. Trouxeram para a esfera pública uma hostilidade significativa à palavra ‘socialista’, o que é inseparável do ambiente mediático atual.”

“O PS precisa de mobilizar antigos apoiantes que passaram à abstenção, recuperar votantes atraídos pelo Chega por razões económicas e reconquistar os que migraram para a sua esquerda, geralmente mais jovens, escolarizados e sensíveis a temas como o ambiente”, acrescenta Sofia Serra Silva. Ainda assim, sublinha a politóloga que “as perdas para a direita radical populista não são nem irreparáveis nem inevitáveis. A evidência comparada sugere que partidos social-democratas tendem a obter melhores resultados quando apresentam uma agenda clara e credível de social-democracia. Uma defesa determinada, consistente e clara do Estado social pode contribuir para recuperar eleitores que se afastaram tanto para a direita como para a esquerda”.