quarta-feira, 13 mai. 2026

PS de Carneiro atrai católicos progressistas do CDS de Melo

Filipe Lobo d’Ávila e outros centristas mais reformistas aproximam-se do PS, afastando-se do discurso mais radicalizado da atual liderança do CDS e criando pontes entre o centro-esquerda e a direita moderada.
PS de Carneiro atrai católicos progressistas do CDS de Melo

Filipe Lobo d’Ávila, ex-deputado e vice-presidente do CDS-PP até 2021, partido do qual se desvinculou em 2024, integra o Conselho Estratégico criado por José Luís Carneiro. É uma das 90 personalidades que compõem este órgão consultivo do líder do PS, mas também uma das que mereceu o destaque de Carneiro, por simbolizar a capacidade do partido em atrair «personalidades do humanismo democrata-cristão» e em fazer a ponte entre o centro e a direita moderada.

E, sabe o SOL, Lobo d’Ávila não é caso único. Francisco Rodrigues dos Santos, que liderou o CDS-PP entre 2019 e 2022, e que debate semanalmente com o socialista Pedro Costa a atualidade do país e do mundo, em formato ‘verdade ou consequência’, na CNN Portugal, é outra das personalidades que pode estar a fazer o mesmo caminho. Rodrigues dos Santos tem vindo a criticar os extremos, apoiou António José Seguro nas presidenciais, ainda não assumiu qualquer ligação formal ao PS, mas tem-se distanciado claramente do antissocialismo de Paulo Núncio, o líder parlamentar do CDS-PP, que procura disputar o espaço que o Chega tomou à direita, tanto no Parlamento como fora dele.

Lobo d’Ávila juntou-se a António Sousa Pereira, Teresa Sá Marques e Francisco Assis, no Porto, na apresentação do livro Vencer os Tempos, de José Luís Carneiro. Não foi a primeira vez que partilharam o mesmo espaço em público, já o tinham feito em Viseu, em 2025, num evento sobre segurança interna. Carneiro e Lobo d’Ávila ocuparam, em Governos diferentes, a pasta da Administração Interna - um como ministro, o outro como secretário de Estado.

O facto de Lobo d’Ávila integrar o Conselho Estratégico criado por José Luís Carneiro e liderado por Augusto Santos Silva não significa uma passagem formal para o PS, mas evidencia a proximidade política do ex-vice-presidente do CDS-PP. Uma atitude que não é inédita: Freitas do Amaral, um dos fundadores e ex-líder do CDS, mantém o retrato no Largo do Rato, sede do PS, para onde foi enviado quando foi ministro dos Negócios Estrangeiros num Governo liderado por Mário Soares; Basílio Horta, igualmente fundador e líder do CDS, foi eleito autarca em Sintra pelo PS em três mandatos consecutivos. Também Adriano Moreira se afastou gradualmente do CDS sem nunca assumir uma maior proximidade ao PS, mas ninguém teria ficado excessivamente chocado se o tivesse concretizado.

O reformismo centrista, de valores conservadores e princípios cristãos, ligado à tradição católica e à defesa de políticas sociais e éticas inspiradas na doutrina social da Igreja - que se confunde com o movimento dos católicos progressistas -, tem revelado dificuldades em se rever no discurso radicalizado de Paulo Núncio contra o que chama de «socialismo e wokismo», alinhando-se, em muitos casos, com a agenda do Chega, e que é partilhado com o líder do partido, Nuno Melo, o único ministro do CDS-PP, com a pasta da Defesa, no Governo da AD.