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Num tempo em que o Diabo anda à solta, vamos começar pelos detalhes. A forma como António José Seguro, mesmo antes de ritualizar a posse do cargo de Presidente da República, cumprimentou o Presidente angolano, João Lourenço, deu muito que falar – um detalhe que não escapou a ninguém, entre Lisboa e Luanda – e que foi descrito como um ‘carinho político’ de Seguro para com João Lourenço. Mas foi mais do que isso.
O Presidente de Angola estava na linha de diversos convidados colocados de forma protocolar. Seguro avançou em passo acelerado, detendo-se brevemente entre os líderes da bancada do PS, Eurico Brilhante Dias, e do PSD, Hugo Soares, mas demorou-se a cumprimentar João Lourenço, numa demonstração de deferência relativamente aos outros Chefes de Estado presentes.
O SOL confirmou que não foi por acaso: Seguro quis passar uma mensagem evidente aos portugueses e aos angolanos, mas, especialmente, ao líder do Chega e seu adversário presidencial, André Ventura. O tema perpassou a campanha eleitoral, marcou o debate entre os dois e emergiu novamente na cerimónia de posse, com um cartaz junto à Assembleia da República: «A culpa não é de 500 anos de Portugal, é da vossa corrupção».
Entretanto, cumpriu-se a profecia feita por Seguro há cerca de dois meses: «Presidente da República recebe o Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, para a primeira reunião semanal», indica o site da Presidência. À saída, não houve declarações. Aliás, é cada vez mais visível que o novo Presidente, possivelmente contagiando o primeiro-ministro, abdica da mediação dos jornalistas, optando por falar diretamente com as pessoas ou através do site oficial da Presidência da República.
Com Seguro não haverá espaço para intervenções peripatéticas ao jeito de Marcelo Rebelo de Sousa, que voltou a encontrar-se presencialmente com o seu sucessor a meio da semana, no dia 11 de março, quando Seguro fez 64 anos, o primeiro aniversário como Presidente da República. Pedimos à Presidência a confirmação do encontro, mas não a obtivemos, e na agenda do site oficial o dia 11 está em branco.
Entre uma folha em branco e muitas especulações estão as mulheres e os homens que vão apoiar Seguro no exercício do cargo. Até esta quinta-feira, dia 12 de março, nenhum nome foi oficialmente confirmado, com exceção de Cláudia Ribeiro – a nova secretária do Conselho de Estado, que assume transitoriamente a chefia da Casa Civil –, a jurista que foi consultora para os Assuntos Políticos do anterior Presidente.
E dos vários nomes avançados pelos media, destaca-se o de Jorge Marrão, do grupo dos chamados ‘passistas’, que integrou a comissão coordenadora da campanha presidencial de Seguro. O SOL procurou confirmar junto do economista a possível nomeação para a assessoria económica, mas a resposta obtida foi suficientemente ambígua para não arriscarmos.
Outro nome falado é o de Luís de Sousa, politólogo e investigador em políticas públicas ligadas à ética política e ao combate à corrupção, que também se mostrou evasivo, referindo que a vida académica é, por agora, ‘too much on my plate’.
Gustavo Cardoso é outro académico próximo de Seguro, sociólogo e investigador em comunicação e tecnologias digitais. Diversas fontes indicam que poderá integrar a equipa presidencial e, eventualmente, ser responsável por colocar o Presidente da República nos novos tempos políticos, inspirando-se em figuras como Donald Trump – olhando à forma, e não ao conteúdo. Trata-se de uma comunicação direta, que contorna a imprensa tradicional, reduz intermediários, privilegia o discurso imediato e emocional, utiliza redes sociais e plataformas controladas pela equipa de comunicação, no caso de Seguro, recusando a narrativa ‘nós e eles’, optando por uma abordagem de ‘um de nós’.
A forma de comunicar não é a única diferença entre o atual Presidente e o seu antecessor. Ainda assim, se Marcelo Rebelo de Sousa foi previsivelmente imprevisível, Seguro poderá ser também ele imprevisível, na sua previsibilidade, disse ao SOL uma fonte próxima do Presidente, garantindo que Seguro não se pronunciará tanto sobre política partidária. Mantém, como ficou definido no discurso inaugural, «um compromisso político claro, com contributos do maior número possível de partidos», insistindo que «Portugal tem uma oportunidade de ouro para que os partidos políticos, o parlamento e o Governo encontrem soluções duradouras».
É quanto às soluções que o Presidente deverá intervir, como na resposta do Governo ao ‘comboio de tempestade’, em que pediu «menos palavras e mais ação», porque, garantem-nos, o Presidente «está mesmo a pensar no país» e «vai inaugurar um tempo novo na política», aproximando-se do povo e afastando-se das elites. «A carreira política de António José Seguro começa agora».
Foi o que fez no segundo dia na Presidência, deixando muitos perplexos, dirigindo-se a uma pequena aldeia de uma dezena de habitantes, na Serra do Açor, em Arganil, para cumprir uma promessa de pré-campanha e assinalar a forma como desempenhará o cargo, numa ambiciosa «magistratura de mudança», tanto quanto os poderes presidenciais lhe permitirem.
Numa altura em que é impossível antecipar mudanças, temos de recuar uma dúzia de anos para obter referências. O desafio é perceber quem é Seguro hoje – claramente um vencedor – e não quem foi ontem, quando saiu da política derrotado. Fontes próximas asseguram que ele aprendeu muito durante este longo retiro, interpretando a realidade política ‘fora da bolha’.
Seguro não veio «para responder aos desejos do momento», não se deixará puxar nem para a esquerda nem para a direita e seguirá o seu próprio caminho, tal como fez Marcelo Rebelo de Sousa, mas sem interferir na vida dos partidos, disseram-nos ainda.
Agirá com enorme liberdade, «sem amarras», como assegurou durante a campanha, e fará a defesa intransigente da democracia. «Em nenhuma circunstância admitirei que sejam ultrapassadas estas linhas vermelhas: que são a essência da nossa Democracia», disse no discurso em que prestou tributo a todos os seus antecessores. «Como escreveu Jorge de Sena, Portugal é feito dos que partem e dos que ficam», acrescentou, referindo-se a Marcelo, Cavaco, Sampaio, Soares e Eanes.
Muito se especula sobre quem fará parte do Conselho de Estado. O SOL sabe que João Soares, próximo de Seguro e na continuidade histórica da ligação da família Soares aos Maldonado Freitas, não fará parte da lista, que poderá incluir Álvaro Beleza, Adalberto Campos Fernandes ou Maria do Carmo Fonseca.
Quanto à primeira viagem ao estrangeiro, deverá ser a Espanha, aliado histórico e com uma História comum de 900 anos. Angola também estará entre as prioridades. A primeira Presidência Aberta será no centro do país – a cidade está escolhida, mas será anunciada oportunamente, assim como o lugar das celebrações do próximo 10 de Junho.
Seguro assume a Presidência num momento particularmente duro, com transformações globais e reconfiguração geoestratégica. Portugal é candidato a membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, atualmente paralisado. A política externa será uma peça central e, como disse no discurso inaugural, «ganha corpo a metáfora de Thomas Hobbes: o homem é o lobo do homem».