E de repente, vem-nos à memória o Sermão de Santo António aos Peixes, escrito no século XVII pelo padre António Vieira, que começa assim: «Vós sois o sal da terra, e se o sal for insípido, com que se há de salgar?», em que Vieira fala aos peixes porque os homens não o ouvem nem se corrigem, e argumenta que os peixes ouvem melhor do que os homens, sendo através deles que dirá aos homens o que tem para dizer.
António José Seguro, o Presidente da República, que já passou dos 60 anos e que viveu praticamente toda a sua vida de forma consciente em Liberdade, está, obviamente, grato a todos aqueles que fizeram o 25 de Abril – o golpe militar transformado em Revolução –, alguns dos quais o apoiaram abertamente na campanha eleitoral presidencial. Dá a Democracia como adquirida e consolidada por uma Constituição que jurou ‘defender, cumprir e fazer cumprir’. Ainda assim, considera que os homens (os políticos e as políticas públicas) falharam aos jovens (os peixes que ouvem), e é preferencialmente com os jovens, e a pensar no Futuro, que o Presidente Seguro vai assinalar as comemorações do 52.º aniversário do 25 de Abril, no Palácio de Belém, de portas abertas para todos.
Liberdade, Democracia e Futuro é o tema da conversa do Presidente da República com 25 jovens sobre as prioridades e os desafios da democracia que temos e da que queremos ter no futuro.
No dia 25 de abril de 2026, tal como tem acontecido noutros anos e com outros Presidentes, os Jardins do Palácio de Belém acolhem a partir das 13h30. Pouco depois, às 15h00, no Jardim da Cascata, Paulo de Carvalho, a voz em forma de canção da primeira senha do 25 de Abril – E Depois do Adeus –, ocupa o palco com o filho, Agir, para um concerto.
E os jovens continuam a dominar o palco do Jardim da Cascata: pelas 15h30, é tempo para a performance poética Verso Solto, de Alice Neto de Sousa, acompanhada da auto-harpa elétrica por Giulia Gallina, com tradução em Língua Gestual Portuguesa por Jéssica Ferreira. A poesia continua em Palavra Futuro, com Maria Caetano Vilalobos, Maze, Muleca XIII e Sir Scratch. Segue-se o recital O Poema Ensina a Cair na Liberdade, com Raquel Marinho, acompanhada ao piano por Filipe Raposo.
Liberdade, Democracia e Futuro: Conversa do Presidente da República com 25 jovens prolonga-se até ao encerramento dos Jardins do Palácio de Belém.
Na cabeça do Presidente
Desde que foi eleito Presidente, Seguro fez dois discursos essenciais, ambos no Parlamento – o da tomada de posse e o da sessão que assinalou os 50 anos da Constituição da República de 1976, o texto fundamental da III República –, e volta agora à Assembleia da República para um novo discurso, que será o primeiro de António José Seguro como chefe de Estado nas cerimónias de celebração do 25 de Abril. Não sabemos o que dirá, mas tentamos antecipá-lo com Adalberto Campos Fernandes e Álvaro Beleza, dois homens muito próximos do atual Presidente, do seu círculo de ‘afinidades eletivas’.
Adalberto Campos Fernandes disse-nos que o Presidente está genuinamente preocupado com a ideia de que este país não é para jovens. Ainda recentemente, a Presidência da República assinalou, no site e nas redes sociais, o orgulho para Portugal pela atribuição do Vera Rubin New Frontiers Prize à jovem física portuguesa Carolina Figueiredo, que vive e trabalha nos Estados Unidos, na Universidade de Princeton, aproveitando para recordar: «Na minha tomada de posse, disse que os jovens não são apenas o futuro, são o presente que precisamos de escutar, valorizar e mobilizar».
«50 anos é uma vida, não é? Portanto, estamos a falar de um tempo histórico que, para os mais velhos, começa a ficar distante e, para os mais novos, não diz muito. É normal», começa por dizer Campos Fernandes, e prossegue: «Há uma tentação grande na sociedade portuguesa, sobretudo na política, de desvalorizar a incompreensão que os jovens podem ter sobre o processo histórico contemporâneo. Só quem não foi jovem pode pensar assim. Talvez a maior responsabilidade de António José Seguro seja iniciar a recontagem do tempo naquilo que é a interpretação do 25 de Abril». Acrescenta que há que preservar o valor simbólico da data e da história, mas «temos de pegar nesta celebração e criar uma atmosfera diferente, que sensibilize as gerações mais novas, porque a disputa que vivemos no tempo atual é entre a racionalidade e a irracionalidade, entre o valor da liberdade absoluto e relativo».
Neste contexto, «o Presidente da República tem aqui um papel profundamente pedagógico. Não tanto de uma celebração pela celebração, mas de confrontação das novas gerações com aquilo que querem para o seu próprio futuro», disse ainda Campos Fernandes, lembrando que os jovens votaram maioritariamente em António José Seguro nas eleições presidenciais.
Nesse confronto com o futuro, que espaço resta para o legado democrático do 25 de Abril? Campos Fernandes responde: «O apego à liberdade é um sentimento profundo dos portugueses e, aliás, a própria maioria presidencial, que se criou conjunturalmente, foi um impulso para defender a liberdade. Não foi um movimento ideológico, não foi, digamos, uma fratura social; foi, sobretudo, daqueles que querem viver em paz, em tolerância, em respeito pelos outros». Ainda assim, o Presidente, quando candidato, percebeu que há «uma enorme frustração com a política tradicional e essa frustração transmite-se através de dois polos que têm sido mal interpretados». O primeiro é o de uma abstenção excessiva, que significa alheamento; o outro passa por uma atitude mais ativa, virada para o voto de protesto, «que até é provocador, no sentido em que põe em causa a própria utilidade da liberdade».
E sobre o primeiro discurso de Seguro no 52.º aniversário do 25 de Abril? Campos Fernandes antecipa que será coerente com aquilo que tem dito o Presidente, que «veio para unir as pessoas», que «vai procurar que as pessoas se encontrem à volta de uma ideia de país» e que procurará «que os portugueses tenham motivos para continuar a ter esperança».
«Espero um discurso com esperança no futuro para os jovens», disse ao SOL Álvaro Beleza. «Portugal melhorou muito em 52 anos: a mortalidade infantil é das mais baixas do mundo, o desenvolvimento económico e social aproxima-se dos padrões europeus, temos uma sociedade aberta e vivemos num dos dez países mais seguros do mundo, porto seguro para investimentos e imigrantes de todos os continentes, em tempo de cólera», disse-nos o médico e presidente da SEDES, deixando antever que o discurso presidencial do 25 de Abril refletirá esse otimismo. Acrescenta, porém, que ainda há muito por cumprir, desde logo um país «mais descentralizado e equilibrado no território, mais acesso à habitação para os jovens, salários mais altos numa economia mais sólida, justiça mais célere e saúde a tempo e horas para todos».
Falando aos jovens e ao futuro, é expectável que o Presidente venha a referir-se ao falhanço das políticas públicas no passado e no presente, mas, como diz Beleza, «o 25 de Abril valeu a pena, gratidão a Salgueiro Maia e aos seus camaradas!».
Seguro, logo no mês em que foi empossado, a 28 de março, deslocou-se a Santarém, para participar na cerimónia de apresentação das Forças Armadas. Antes da cerimónia militar, prestou homenagem a Salgueiro Maia, depositando uma coroa de flores no monumento ao capitão de Abril, no Jardim dos Cravos.
«Se querem garantir a liberdade e a democracia, a continuação dos valores de Abril como sustentáculo da nossa sociedade, votem, mas votem mesmo, em António José Seguro», disse o tenente-coronel Vasco Lourenço, militar agora na reserva, outro dos capitães de Abril. E António José Seguro, ainda em campanha eleitoral, contou, num almoço no Alentejo, com a presença e o apoio de Manuel Duran Clemente, outro dos capitães do Movimento das Forças Armadas (MFA) que desencadeou o 25 de Abril – a ‘revolução miserável’, como lhe chamou recentemente o líder do Chega, André Ventura.
Podemos antecipar que o Presidente, tanto do ponto de vista pessoal como institucional, não se afastará da memória consensual que os portugueses têm do 25 de Abril, mesmo que através de uma narrativa própria e, quem sabe, inovadora.
O 25 de Abril numa sondagem
Os portugueses não estão totalmente satisfeitos com a democracia que têm. A perceção sobre o funcionamento do regime está praticamente dividida: 46,3% mostram-se satisfeitos (41,6% muito satisfeitos e 5,7% muitíssimo satisfeitos), enquanto 49,3% estão pouco ou nada satisfeitos (40,4% pouco satisfeitos e 8,9% nada satisfeitos). Ainda assim, há um apoio muito claro à democracia como sistema político: mais de 83% consideram-na preferível a qualquer outro regime, com 57% a concordarem totalmente com essa afirmação.
Todos estes dados resultam de uma sondagem promovida pela Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, divulgada em exclusivo pela TVI e pela CNN Portugal, a que o SOL teve acesso. O estudo indica ainda que os principais riscos identificados pelos inquiridos são a corrupção (41,8%) e os extremismos políticos (40,1%), seguidos pela desinformação (20,1%). Surgem também, embora com menor expressão, as desigualdades sociais, a falta de educação cívica, a crise económica e a abstenção.
Quanto ao legado do 25 de Abril, a avaliação é amplamente positiva: as maiores melhorias são reconhecidas nas liberdades e direitos (76,8%), na democracia política (69,7%) e na educação (67,9%). A economia surge como a área com avaliação menos favorável, ainda que maioritariamente positiva (55,1%). Relativamente aos objetivos da Revolução, os portugueses associam sobretudo o 25 de Abril à recuperação das liberdades (37,1%) e ao derrube da ditadura (34,2%), seguidos pela instauração da democracia (14,8%) e pelo fim da guerra colonial (11%).