Presidenciais. Não está ganho, não está perdido

As Presidenciais 2026 caminham para uma 2.ª volta, num cenário muito aberto. Os elevados níveis de indecisos ou de eleitores sem voto fixado tornam o desfecho imprevisível.

Na dúvida, temos a única certeza de que a noite eleitoral das Presidenciais 2026 nos dará a confirmação de uma segunda volta, 40 anos depois, e a possibilidade, 20 anos depois, de voltar a ter um socialista, ou um homem da ‘esquerda moderna’, no Palácio de Belém — e isto já resvalando para o campo da incerteza. Mas, entre os candidatos que têm um eleitorado mais fixo, de acordo com as sondagens e estudos de opinião, estão André Ventura e António José Seguro. Aquele que apresenta um eleitorado mais hesitante ou volúvel é João Cotrim de Figueiredo. É provável — e sublinhamos provável — que dos três, dois passem à segunda volta. 

A politóloga Marina Costa Lobo analisa há vários anos o comportamento eleitoral em Portugal e conclui que os indecisos optam por uma escolha ou por um candidato apenas na última semana. Na tracking poll da Pitagórica para a TVI/CNN, JN e TSF, a taxa de indecisos mantém-se acima dos 10% na última semana. Na sondagem da Universidade Católica para a RTP, Antena 1 e Público, divulgada a 13 de janeiro, o número de indecisos é de 15% – mas há 51% dos que dizem que vão votar que ainda admitem mudar o seu sentido de voto. Na sondagem da Intercampus para o Correio da Manhã e a CMTV, divulgada a 14 de janeiro, os indecisos atingem os 19,6%. Já na sondagem DN/Aximage, conhecida no mesmo dia, esse número desce ligeiramente para 14,1%.

Com cinco candidatos com resultados relativamente próximos nas intenções de voto, com alguma vantagem para Ventura e Seguro, não há outra conclusão possível senão a de que está tudo em aberto.

"A eleição presidencial foi condicionada por estratégias partidárias, que quiseram levar para o debate partidário o exercício da função presidencial, obrigando os candidatos a pronunciarem-se sobre tudo, esquecendo os poderes que lhes são atribuídos pela Constituição", disse ao SOL Jorge Marrão, economista e gestor apoiante de António José Seguro. Este tentou, tanto quanto possível, escapar a essa lógica, os restantes candidatos, pela forma como comunicaram e discursaram, acabaram quase por transformar as eleições presidenciais naquilo que elas não são. Como sublinha Marrão: "Belém não é São Bento, e São Bento não é Belém".

Quem mais ganhou com tudo isto — mesmo que não vença as eleições presidenciais — foi André Ventura, que manteve essa estratégia desde o início, também porque o seu objetivo é de São Bento. De certa forma, também Luís Marques Mendes percorreu o espaço político da AD aos ombros do Governo, numa tentativa de contenção do Chega e de desvalorização de um elemento, senão novo, pelo menos surpreendente: João Cotrim de Figueiredo, que, num contrassenso difícil de explicar ou incompreensível para muitos, abdicou do papel fiscalizador do Presidente da República para se colocar como colaborador do primeiro-ministro. De qualquer modo, Cotrim e Ventura vão obrigar os partidos tradicionais da direita — PSD e CDS — a olharem para dentro e a explicarem porque têm um candidato presidencial, Marques Mendes, perdido no turbilhão da mudança, em que o candidato do sistema não é um bom candidato aos olhos dos eleitores.

Com as elites políticas confusas e perturbadas, restará ao povo decidir, de forma clara, quem é o candidato que passa à segunda volta das Presidenciais de 2026 e quem será eleito, numa outra eleição, mas com o mesmo propósito, a 8 de fevereiro, para ocupar o lugar deixado vago por Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente de algumas contradições e muitos afetos.

Em 1986, emergiram líderes fortes e carismáticos, num período profundamente ideológico, em que a esquerda ainda era maioritária no país. As eleições presidenciais desse ano deram, na segunda volta, 51,2% a Mário Soares e 48,8% a Freitas do Amaral, com uma abstenção de 22%. Em 2026, os líderes parecem mais vulneráveis, num país que virou à direita, o que, muito provavelmente, as presidenciais irão consolidar. E André Ventura pode afirmar-se mais do que antes como líder dessa direita, também porque o voto em Ventura já não é apenas um voto de protesto, como em eleições anteriores em que ele e/ou o Chega participaram.

Falámos com apoiantes dos cinco candidatos com possibilidade de passarem à segunda volta, de acordo com todas as sondagens.

Teresa Nogueira Pinto apoia André Ventura

Caxinas, Vila do Conde, quarta-feira, 14. Ao contrário da ação de campanha da semana passada, a que assistimos, não havia poucos mas ruidosos apoiantes: havia muitos apoiantes, emotivos até ao limite do possível, uma multidão que engoliu, no entusiasmo, André Ventura, que percorreu com enorme dificuldade o espaço mínimo do Mercado Municipal, em frente ao monumento de homenagem aos pescadores vítimas de naufrágio, onde depositou uma coroa de flores. Ventura não comprou nem peixe nem fruta, não conseguiu ter uma conversa muito coerente com ninguém, porque os apoiantes presentes se assemelhavam a uma audiência evangélica em delírio.

Mesmo assim, teve oportunidade de trocar breves palavras e cruzar as mãos num gesto afetivo com Dores Arteiro, peixeira, de 63 anos, doente oncológica, a quem não querem atribuir a reforma, que será sempre de miséria, e que votou sempre nos candidatos socialistas, mas que desta vez votará em Ventura porque está cansada de ir ao CTT receber um magro subsídio de menos de 200 euros e de ver os ciganos, contou-nos ela, a receberem 800. O discurso do candidato agarra-se a este eleitorado como uma lapa à rocha, com ou sem razão, mas, essencialmente, com emoção.

Teresa Nogueira Pinto é uma das apoiantes mais vocais de André Ventura, para além dos deputados da primeira fila do Parlamento que estão quase sempre presentes ao lado do líder. Falámos com ela, que nos disse: "Uma das coisas mais interessantes desta eleição para o sistema partidário é que voltamos a ter uma eleição muito ideológica, com a desvitalização da esquerda e um crescimento de uma direita mais ideológica, mas, ao mesmo tempo, mais emocional, que vota em André Ventura com ilusão genuína". Para a politóloga, votar no candidato presidencial do Chega é também uma questão de emoção, em contraste com a ideia de que votar em Marques Mendes ou em Seguro é uma coisa que se faz ‘sem ganas’.

Quando as sondagens parecem indicar — e sublinhamos, parecem — que André Ventura tem uma ligeira vantagem, não deixámos de perguntar a Teresa Nogueira Pinto que discurso poderá ou deverá ter Ventura na segunda volta. Disse-nos, tal como o próprio André Ventura tem vindo a afirmar, que a segunda volta das presidenciais é uma outra eleição, menos entrincheirada, em que haverá menos taticismo e "menos performance de desprezo" relativamente ao candidato, que, de outra forma, poderá apresentar a sua visão para o país e para a Presidência. "Na segunda volta não haverá espaço para uma campanha tão feia", disse-nos a académica, e acrescentou que Ventura não mudará substantivamente o seu discurso, mas onde temas como a "soberania e o globalismo ou os excessos de um progressismo social que desaguou no wokismo" poderão vir a ser discutidos.

E se essa segunda volta for com António José Seguro, Teresa Nogueira Pinto adianta que "poderemos ter um diálogo mais elevado entre dois modelos diferentes de país", em que o centrão, em particular o centro-direita, terá de se reposicionar e em que, nesse contexto, Marques Mendes confirma aquilo que tem sido a tese de André Ventura: um candidato do sistema, disponível para fazer pontes, mas revelando, ao mesmo tempo, "uma certa covardia".

No espaço da direita surge ainda João Cotrim de Figueiredo, que, para a politóloga, é uma espécie de Macron que rebentou com a esquerda e com a direita e que pode vir a rebentar com a França, e que dificilmente terá o voto do campo, das periferias, do país real.

Gustavo Cardoso apoia António José Seguro

Em Aveiro, no domingo, dia 11, encontrámos o mesmo candidato mas que parecia outro. Mais vibrante e emotivo, tanto quanto António José Seguro se permite, com renovada energia e entrega. Num almoço de apoiantes, em que estiveram presentes os quatro deputados eleitos pelo PS em Aveiro, e em que se notou a ausência do candidato que tem o mandato e a vida política suspensa, o ex-secretário-geral socialista Pedro Nuno Santos, Seguro disse, entre muitas outras coisas, que ele é um voto seguro para eleger "o Presidente de todos os portugueses e que é um defensor da Constituição da República".

Perguntámos ao sociólogo Gustavo Cardoso, que acompanhou Seguro na "arruada" sob chuva persistente, numa altura em que a cidade celebrava as Festas de São Gonçalinho, se ele também notava que o candidato presidencial apoiado pelos socialistas estava diferente. Respondeu-nos que "os candidatos, todos eles, vivem e alimentam-se das pessoas e dos sentimentos das pessoas que estão à volta deles, os bons políticos absorvem o entusiasmo e devolvem-no também". Questionámos ainda se a comunicação, o tom e a linguagem não se tinham, entretanto, alterado. Cardoso disse que não, que na narrativa permanece a ideia de "equilíbrio", o equivalente "à questão dos ovos no mesmo cesto", para acrescentar que o que muda é a atenção e a perceção das pessoas: "No princípio havia a perceção de que António José Seguro não tinha hipóteses, não estava no topo, e isso mudou". "Todas as pessoas gostam de uma ideia de vitória", disse-nos o sociólogo, que acrescentou uma outra leitura: "Quais são os candidatos que trazem novidade e quais são os candidatos que estão connosco há muito tempo. ASJ está há muito tempo na política, mas esteve muito tempo fora, há uma perceção de novidade. O outro candidato que traz novidade é Cotrim, a quem não se fazia a ligação a candidato forte, porque todos os outros candidatos com possibilidade de passarem à segunda volta estão connosco já há muito tempo, mesmo Gouveia e Melo está, porque esteve com a pandemia — o que é que isto vale em termos de votos é outra questão".

Mário Amorim Lopes apoia Cotrim de Figueiredo

"Portugal à Frente" saiu do autocarro de campanha e agora o slogan dos tempos da PàF, que se transformou em Governo liderado por Pedro Passos Coelho e que teve como ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros Paulo Portas, domina o discurso do candidato apoiado pela Iniciativa Liberal (IL).

Porto, quarta-feira, dia 14, Praça Francisco Sá Carneiro. No meio de um turbilhão de notícias inquietantes, que se refletem na comunicação do candidato e na ligeira tensão que percorre a sua comitiva, João Cotrim de Figueiredo contou com a presença surpresa dos filhos na cidade, em dia de FC Porto–Benfica, para a abertura de um cartaz em branco, onde se convidam todos os que passam pela praça, com Sá Carneiro como testemunha simbólica, a deixar uma visão para Portugal. Cotrim reiterou a sua, a de um país moderno, capaz de inovar e onde os portugueses possam alcançar os seus sonhos.

Entre a ambição e o pesadelo de um deslize estratégico e de uma acusação de assédio sexual, temos que o candidato é, inegavelmente, a surpresa das eleições presidenciais.

"O que me surpreendeu foi a quantidade de gente que tão rapidamente aderiu a esta mensagem de esperança, isso foi realmente extraordinário, estes processos demoram geralmente muito tempo", disse-nos Mário Amorim Lopes, deputado da IL, também presente no Porto. Aliás, os últimos dias de campanha de Cotrim têm tido uma participação ainda mais visível da Iniciativa Liberal, incluindo Mariana Leitão.

Amorim Lopes disse ainda que "mais importante do que o que vai acontecer no domingo é como os portugueses querem acordar na segunda-feira. O risco é os portugueses terem de escolher entre um socialista — e, ao fim de 20 anos, voltarmos a ter um Presidente da República do Partido Socialista — ou então um populista", acrescentando: "Acho que as pessoas vão ter isso em conta quando forem votar", porque "João Cotrim de Figueiredo é a pessoa que pode derrotar tanto um socialista como um populista".

O deputado da IL sublinhou que "não é apenas António José Seguro, é tudo o que vem com António José Seguro". Enquanto isso, "António José Seguro ou Luís Marques Mendes não conseguem convencer os seus próprios partidos, é o que dizem todas as sondagens e estudos de opinião". Nesta quase apatia política surge Cotrim, que também "está a marcar a meta" e a dizer à IL, com estas eleições, até onde é que nos podemos ir nos próximos tempos. Sobre Mariana Leitão, quando perguntámos, Amorim Lopes respondeu que a atual líder da IL é "uma versão feminina do João Cotrim de Figueiredo".

Voltando ao candidato, disse-nos que "os portugueses percebem que o Presidente da República não é um órgão de contrapoder, não deve servir para travar ou minar o trabalho do Governo, também não deve servir como uma muleta do Governo, como alguns se predispõem; deve servir como um cargo para facilitar o trabalho do Governo em prol do bem comum, que é o sucesso de Portugal e dos portugueses. Temos de ser ambiciosos, exigentes, dando a condição de equilíbrio e estabilidade que é necessária, mas sempre com muita ambição — é aí que o João se posiciona", num lugar que coloca "Portugal à frente" e onde reside "um sinal de esperança", porque "isto não é o nosso fado, não é o nosso destino, estarmos sempre indecisos entre os mesmos partidos e as mesmas personagens que têm mantido Portugal nesta estagnação", concluiu Amorim Lopes.

Manuel Pizarro apoia Henrique Gouveia e Melo

Esta foi a semana em que o Almirante evocou o general Ramalho Eanes, com quem, em tempos, Mário Soares entrou em rutura, não o apoiou na reeleição, em 1980, e se autossuspendeu da liderança do PS em divergência com o partido. Manuel Pizarro, um histórico dirigente socialista que apoia Gouveia e Melo, evocou Mário Soares para sustentar a sua convicção.

"Apoio o Almirante por convicção, ele é o Presidente de que o país necessita, e, sob esse ponto de vista, acho que citar Mário Soares, o que me fica bem, que dizia ‘eu sou de esquerda e sou socialista, mas antes disso sou democrata, e ainda antes disso sou português’, e, se estou convencido de que o melhor para o país é o Almirante Gouveia e Melo, é isso que tenho de privilegiar na minha escolha", fez questão de notar, acrescentando: "A minha opção por Henrique Gouveia e Melo precede a campanha". E reconhecendo que, entretanto, se impressionou com a "coragem" e "a clareza com que disse que, se fosse trabalhador, teria feito greve contra este pacote laboral".

"Acho que o país precisa de pessoas que tenham opções; o que tenho visto é, em geral, um discurso redondo que dá para tudo. Há candidatos que querem ser empregados do primeiro-ministro, obviamente são candidatos a ministros", disse ainda Pizarro. Quando falamos de Seguro, disse-nos: "Tenho um apreço pessoal pelo António José Seguro e acho que é um homem sério, um homem honesto, um homem confiável, mas acho que lhe falta a determinação que um Presidente da República deve ter, e eu tenho medo que ele não seja capaz de dizer não às vezes em que um Presidente da República tem de dizer não, de titubear".

Numa segunda volta Ventura–Seguro, Pizarro é veemente: "Votarei sempre contra o Ventura". E se Seguro vencer: "Viverei muito tranquilo se o Presidente da República for alguém do Partido Socialista".

Rui Moreira apoia Marques Mendes

Na semana em que o primeiro-ministro Luís Montenegro regressou à campanha eleitoral do candidato apoiado pela AD, acusando os outros candidatos «de projetos de governação encapotados», no que é uma subversão da campanha presidencial, em que o PSD não é parte inocente, falamos com o mandatário nacional do candidato do Governo, Rui Moreira, em Ovar, no domingo, dia 11, quando ainda não tinham surgido sondagens que acalentavam a possibilidade de Mendes passar à segunda volta, e o candidato transfigurava e transmitia desânimo e quase fragilidade.

"Tenho um fetiche quanto a más sondagens, não desvalorizo as sondagens e o que elas têm de efeito mobilizador", também porque "as pessoas são muito mobilizadas pela utilidade do seu voto, em especial quando sentem que podem fazer a diferença", disse-nos Moreira, que acrescentou: "Há cerca de um mês o Tozé Seguro quase que tinha vergonha de dizer que era de esquerda, hoje ele quer ser o candidato da geringonça".

Rui Moreira lembrou que "o Presidente da República não deve ser oposição ao Governo, a oposição deve ser feita no Parlamento". Dito isto, disse-nos: "Levo muito a sério a candidatura de André Ventura e quem a desvaloriza está muito enganado, também porque vai ser preciso mobilizar os cidadãos e o eleitorado de André Ventura está muito mobilizado; não dou como certo que quem for à segunda volta com André Ventura é Presidente da República".