"Não sabia se estava a debater com o António, o José ou o Seguro, até fiquei um pouco contido», foi assim que André Ventura explicou aos professores e alunos da Universidade Lusófona – não muitos – e aos jornalistas, na quarta-feira, 27, a moderação da véspera, no único debate da segunda volta das presidenciais, com o voto antecipado marcado para o dia 1 de fevereiro e o ato eleitoral para o dia 8. Até lá, o discurso de André Ventura não deverá mudar muito e o de António José Seguro quase nada. Ventura é ‘um risco’. Seguro é ‘a moderação’, sendo que Seguro é também o risco da moderação.
A campanha oficial da segunda volta arrancou, justamente, na quarta-feira, depois de o país ter passado por uma noite insone devido à tempestade Kristin, que se transformou em tragédia no centro do país, e decorre sem emoção, com vagas de apoio a Seguro vindas dos mais diversos setores da sociedade portuguesa, desde «não socialistas» a «católicos de diferentes sensibilidades», passando por inúmeros ex-líderes partidários – o último foi Rui Rio, mantendo-se Pedro Passos Coelho num silêncio de carmelita – e pelos candidatos da primeira volta. Na tarde de quinta-feira, 29, foi a vez do antigo Presidente Eanes se juntar ao enorme coro de apoio a Seguro, com um encontro quase discreto entre os dois.
Seguro não é apenas um homem de consensos; é, por estes dias, uma figura consensual, o candidato que melhor garante a «estabilidade institucional» e o «respeito pela Constituição», como contraponto a um candidato que é visto como «uma ameaça à democracia», que, no entanto, argumenta que «os outros fogem do socialismo e nós vamos buscá-lo outra vez», acrescentando que «os piores socialistas são os que não parecem socialistas», numa alusão a Seguro, que «não vai descansar até o PS estar de volta ao Governo».
O Nascer do SOL questionou André Ventura sobre um erro de avaliação recente: ao que parece – e pelo que indicam as sondagens – Portugal não está preparado para «três Salazares» (nem sequer para um). Mas Ventura insiste: «Eu acho que o país precisa de ordem. Acho que toda a gente compreendeu aquilo que eu quis dizer. Mas também teremos uma eleição em breve e vamos ver».
O ‘vamos ver’ não é tanto se Ventura chega ou não ao Palácio de Belém; o que ‘vamos ver’ é com quantos votos André Ventura volta ao Parlamento, no dia 9 de fevereiro.
À chegada à Universidade Lusófona, para um debate com estudantes – convite a que Seguro disse não – Ventura, «como candidato presidencial», começou por evocar as vítimas mortais da tempestade Kristin e solidarizar-se com todos os que perderam património e foram afetados, sobretudo na zona centro do país. Disse ainda que tencionava visitar os locais «sem atrapalhar» e elogiou o trabalho das forças de segurança, da Proteção Civil e dos bombeiros.
Ultrapassadas as referências inevitáveis à tempestade, os ventos agrestes mudaram de direção, para sublinhar as audiências recorde do debate da véspera, no qual, disse, o adversário passou ao país a ideia de «não fazer a menor ideia do que está a fazer», apesar de todos os apoios recebidos no apelo «salvem-nos do André Ventura». Afirmou que o boletim de voto das presidenciais devia ter dois quadrados: no primeiro ler-se-ia André Ventura e, no segundo, «anti André Ventura». Dissertou ainda sobre o que considera a falta de noção de Seguro quanto aos poderes presidenciais e, porque falava para jovens, recorreu ao inglês denotativo: «Wtf!!».
Ventura aposta nos indecisos e parte «confiante» para a segunda volta. Deixou claro que prefere arriscar e cometer erros, «mas mexer com o país». Disse também recusar ver a Constituição como «uma vaca sagrada» do regime. Evocou, mais uma vez, Sá Carneiro, que, «quase a 100%», o escolheria a si — o candidato que quer «romper» e «dar o salto em frente», mesmo “quando saltamos e nem sempre sabemos onde pôr os pés a seguir”.
A tracking poll da TVI/CNN está de volta, ao contrário de uma campanha com a agenda enredada na tempestade, e indica que é entre os «liberais» que se concentram mais indecisos.
Na primeira volta votaram cerca de cinco milhões e setecentos mil eleitores. Há dúvidas de que a segunda volta seja tão mobilizadora – aliás, à mobilização de apoios, Seguro contrapõe a mobilização dos eleitores –, mas, destes, é de antever que Ventura ficaria satisfeito com o número (mágico) dos dois milhões de votos. A maioria ficará com Seguro, que, segundo Ventura, «acha que já ganhou».
A cultura como "antídoto"
A vitória de Seguro é uma ideia partilhada por Joaquim Leitão, Inês Pedrosa, Filipa Martins e ‘Agir’, que participaram num almoço com outros subscritores do manifesto de pessoas ligado à cultura que apoiam o candidato, e que contou também com a presença do socialista e candidato presidencial, em 2006 e 2011, Manuel Alegre.
O realizador Joaquim Leitão, que participou de forma profissionalmente ativa na campanha presidencial de Jorge Sampaio, em 1996, regressa agora para apoiar outro candidato socialista. Considera que «o mundo está muito perigoso e é preciso ter as pessoas certas nos lugares certos para evitar que o país vá por um caminho que possa ser destrutivo». Disse ainda que conhece pessoalmente Seguro e que conhece também a pessoa que ele enfrenta: «Uma pessoa altamente perigosa, porque é um político carismático, bem-falante, mas que, infelizmente, usa a palavra e a retórica para defender as piores coisas possíveis».
A escritora Inês Pedrosa, que apoia Seguro desde a primeira volta, considera que «precisamos de serenidade». Conhece o candidato desde 1985, dos seus tempos de jornalista, e tem-no «em muito boa conta». Falou também do «perigo muito grande» representado pelo opositor de Seguro, num mundo «que está a dar-nos exemplos muito concretos do que é a extrema-direita». Inês Pedrosa argumenta que Ventura quer mudar a Constituição e «transformar um regime parlamentar num regime presidencialista». Questionada sobre se votar contra um candidato não desvaloriza votar a favor de outro, respondeu que, nas presidenciais, «as eleições esgotam-se em si mesmas», e que Seguro será ele próprio, sem ter de devolver favores, nem sequer ao «próprio partido dele, o partido com o qual teve não poucos problemas nos últimos anos e do qual, aliás, se afastou». Inês Pedrosa foi mandatária nacional de Manuel Alegre em 2006.
Filipa Martins, escritora e cineasta, vê em Seguro «o perfil de quem compreende os poderes constitucionais e percebe o que significa a separação de poderes», alguém que trouxe «para uma campanha que se antevia muito belicosa alguma tranquilidade, alguma ponderação». Uma candidatura que «não é contra uma parte do eleitorado ou parte dos portugueses», que «é uma candidatura construtiva, que fará um mandato construtivo».
Agir, cantor, compositor e produtor, de 38 anos, que será pai dentro de duas semanas, disse-nos que o apoio a Seguro «foi mesmo por convicção, desde o início», acrescentando que «estamos a viver tempos em que precisamos muito de moderação». Admite que o candidato «não dá grandes cliques no TikTok», mas sublinha: «Não quero uma pessoa que faça grandes cliques no TikTok a tomar um bocadinho conta de nós; não é para isso que serve». Conclui: «Para já, precisamos de um adulto na sala».
O adulto entre adultos na sala considerou que «a cultura é um dos melhores antídotos contra o extremismo». A propósito do debate da noite anterior, afirmou que ficou claro que «há um candidato a Presidente da República e há um líder partidário». Enquanto isso, os dois seguem em jogo, com uma vantagem confortável para Seguro, que navega, ainda assim, no desconforto dos indecisos, da desmobilização e de apoios que oscilam entre a bênção e a maldição.