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As sondagens indicam que António José Seguro será o próximo Presidente da República. Apesar da tendência de descida, a vantagem é confortável e o resultado, para uma primeira eleição, pode vir a ser histórico. Eventualmente, teremos de recuar até 1976, quando António Ramalho Eanes foi eleito com 61,6% dos votos de cerca de 4 milhões e 800 mil eleitores, o que correspondeu a quase três milhões de votos.
Entre tudo o que se pode escrever sobre as Presidenciais de 2026, temos que foi a direita fragmentada, apesar de existir uma maioria sociologicamente de direita no país, que permitiu que António José Seguro passasse à segunda volta e fosse eleito Presidente da República, um homem que assume as suas origens no Partido Socialista, mas que, nos dias de hoje, é claramente outra coisa, sem que se perceba muito bem o quê, apesar do esforço dos últimos dias.
Quatro entrevistas às televisões numa semana — e haverá mais uma esta sexta-feira, dia 6, na TVI/CNN — são também um esforço para ser eleito por si mesmo e não contra um adversário ‘antidemocrático’. E, por tudo o que testemunhamos na estrada, Seguro é um homem autêntico e generoso com o cidadão comum.
António José Seguro é, provavelmente, o menos conhecido de todos os candidatos presidenciais eleitos em democracia. Se deixarmos de lado Eanes, surgido num momento muito especial de transição democrática, temos que Mário Soares e Cavaco Silva foram Presidentes depois de terem sido relevantes primeiros-ministros e líderes partidários; Sampaio foi líder partidário e presidente da Câmara Municipal de Lisboa; Marcelo foi líder partidário, nunca foi primeiro-ministro nem presidente de câmara — e bem que se candidatou aos dois cargos —, mas, quando foi eleito, era mais conhecido do que um participante de um reality show.
Seguro é um desconhecido para a maior parte dos jovens que conquistou, que regressou para unir, depois de um detox político de mais de uma década na sequência de uma saída da política com o amargo sabor da derrota, que digeriu entre oliveirais e vinhedos. É um candidato ameno em tempo de tempestades.
Em Campo Maior, questionámos Seguro sobre se iria aproveitar os últimos dias de campanha para se dar a conhecer aos portugueses. Seguro respondeu-nos: «Sabe que esta campanha deu, claramente, aos portugueses as provas, as informações todas para eles perceberem que há dois candidatos completamente distintos e diferentes. Não só no perfil, mas também no país que nós desejamos. Eu quero unir os portugueses, mas quero que o Estado tenha respostas eficientes em situações em que os portugueses precisam mais do Estado. Uma delas são as catástrofes naturais, outras têm a ver com o acesso à saúde, com o acesso à habitação, com a oportunidade que os nossos jovens devem ter para ficarem a trabalhar no nosso país. E, portanto, há muito a fazer em Portugal e eu venho para ajudar a cuidar daquilo que está bem, melhorando, mas para mudar muito, muito, muito daquilo que está mal. E uma das coisas que nós temos de mudar é a resposta do Estado em situações de catástrofe. O Estado tem de ser mais eficiente, tem de ser mais rápido». Ainda insistimos: acha que os portugueses o conhecem? Seguro respondeu: «Os portugueses conhecem-me muito bem, muito bem, mesmo. Eu também conheço os portugueses e este país».
O homem teima em não se dar a conhecer. O político, mais por necessidade do que por vontade. No essencial, teremos de aguardar que chegue ao Palácio de Belém para perceber como fará o equilíbrio entre ‘lealdade institucional’ e ‘exigência’.
Ainda em Campo Maior, vimos Seguro a fazer uma flor. Começou de forma atabalhoada, mas rapidamente apanhou o jeito e guardou a flor no bolso. Quando questionado se tinha jeito para ‘fazer flores’, respondeu que prefere «cuidar delas». Temos, então, que, a partir de 9 de março, e numa metáfora delirante, Portugal se transformará num imenso jardim, devastado pelas tempestades, cuidado a partir de Belém em cumplicidade com São Bento. Porque, se há coisa que a tempestade levou da campanha presidencial, foi a neutralidade.
Seguro é hoje, e até pela sua postura antecipada de chefe de Estado, o candidato do regime, que pede rapidez, mas que considera que as medidas do Governo «vão no sentido certo». Perceção acentuada, esta semana, pelo apoio «sem reservas» de Leonor Beleza, vice-presidente do PSD, que acrescentou: «Na segunda volta das presidenciais, não estará o candidato que eu desejava. Mas está um candidato que apoio sem reservas. (...) Aprecio a moderação, detesto os radicalismos».
Votar deixou (ainda mais) de ser prioridade
Há, nesta altura, mais de 70 mil casas sem energia no país — «pessoas que têm feito pela vida», nas palavras do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Essas pessoas, sem eletricidade e sem água, têm outras prioridades. A abstenção pode penalizar Seguro, e rejeição de pessoas vulneráveis e zangadas, que associam o desespero às medidas do Governo que ainda não sentem, também.
No próximo domingo, dia 8, Seguro será eleito, sendo impossível que se repita o que aconteceu em 2014, depois da vitória nas Eleições Europeias, quando António Costa o acusou de ter ganho por ‘poucochinho’, mas é, de facto, importante que Seguro ganhe de forma confortável, mesmo para quem partiu para esta eleição com expectativas tão baixas — ou, por isso mesmo. Precisa dessa legitimidade reforçada para exercer os poderes que lhe são atribuídos pela Constituição, porque o tumulto ‘antidemocrático’ vai regressar ao Parlamento reforçado por uma votação democrática.
Ventura, o outro vencedor
Enquanto esperávamos por Seguro, na Praça da República, em Elvas, mesmo em frente ao prédio que alojava a PIDE antes do 25 de Abril, falámos com um casal mais idoso que vota Seguro, numa terra em que o adversário leva considerável vantagem — Ventura teve 39,86% e Seguro ficou pelos 25,89% — e que, desanimados, nos disseram que, nesta e noutras eleições, o voto jovem foge todo para o candidato do Chega. Ventura também venceu estas eleições: não chegou a Belém, mas disputou a segunda volta contra um socialista, e o jeito que isso lhe vai dar em debates futuros no Parlamento.
E não será só o voto dos jovens, e não será só em Elvas, que o candidato da direita populista acolhe significativa votação. Ainda não é possível fazer contas. Ventura assume, durante a campanha, e agora mais do que nunca, em tempo de tempestade, com casas arrasadas e terras inundadas, uma postura crítica do Governo de Luís Montenegro. Ainda começou por atacar o adversário, mas focou-se mais no Governo.
Em Torres Vedras, onde o acompanhámos, esta semana, na visita a uma produção hortícola devastada pelo temporal, ainda perguntámos se as críticas ao Governo, para além da forma, também o eram quanto ao conteúdo, insistiu: «O limite de 500 euros para apoiar pessoas individuais é um insulto às pessoas que estão a passar mal, o limite de 1000 euros para famílias é um insulto às pessoas que estão a passar mal, a reconstrução das casas, sob vistoria das CCDR, sinceramente, neste momento, acho que é outro insulto, as pessoas precisam da reconstrução já». Dito isto, ainda falou de «dois modelos de Presidente»: o que «diz que está tudo ok e que sustenta o que está a acontecer por qualquer razão» e «o segundo, que tem a capacidade de dizer que isto está mal»; naturalmente, conclui: «Eu quero ser este segundo modelo de Presidente da República». Sobre o adversário, diz que está «refém do sistema».
Mas foi na Carmo e Silvério, em Torres Vedras, que ouviu o administrador, Paulo Maria, dizer que sem imigração não teria produção, que, em oito dezenas de trabalhadores, só o engenheiro é português. Ventura ainda tentou argumentar que isso só acontece porque os portugueses não querem trabalhos tão mal remunerados, preferem viver de subsídios, mas a realidade ali, como noutros lugares, teima em contrariá-lo, sem que ele se perturbe com isso. Ainda perguntámos a Ventura se irá manter as críticas, a partir do dia 9 de fevereiro, mas no Parlamento, ao que o candidato presidencial respondeu: «Onde tiver de ser!».