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Seguro sobe, alavancado pelos notáveis do partido, incluindo os vestígios costistas, convenientemente esquecidos do tempo em que Seguro acusou Costa de ser o representante de um “partido invisível” de interesses, e pela máquina socialista empenhada pelo país fora.
Logo no primeiro dia da campanha, a 4 de janeiro, a lista de notáveis da Comissão de Honra, apresentada num hotel de Lisboa com a sala a abarrotar, e que contou com a presença de José Luís Carneiro, elencou 49 deputados, 21 presidentes de federações, 129 presidentes de câmara e um número considerável de antigos ministros de governos socialistas. Ana Catarina Mendes e Fernando Medina foram dois dos que se destacaram da multidão para declarar o apoio a Seguro, e até Augusto Santos Silva suavizou a forma ácida como se referia ao antigo líder para dizer que vê “com toda a naturalidade” o apoio ao agora candidato presidencial.
A mesma naturalidade com que se vê o primeiro-ministro e líder do PSD, Luís Montenegro, e ministros e antigos ministros do PSD e do CDS a apoiarem Luís Marques Mendes. Mas o efeito não tem sido o mesmo. Antes pelo contrário: a ligação entre o Governo e o candidato presidencial apoiado pela AD está transformada num embaraço.
Com o candidato em queda na tracking poll, o apoio da máquina social-democrata, de notáveis e de ministros, é indispensável. Mas a morte de um homem no Seixal, esta semana, após falha de socorro do INEM, apanhou o prolixo candidato no quartel dos Bombeiros de Vila Viçosa, onde foi parco em palavras. Se a colagem ao Governo tem dias maus para o candidato, a verdade é que a passagem à segunda volta de Marques Mendes depende do Governo que quer ajudar “a ter condições para governar”. O que também não é fácil: a AD teve mais votos, formou Governo, mas no Parlamento sustenta um governo minoritário. Depende do que não controla, tal como Marques Mendes nesta altura.
Só faz falta quem cá está
Não raras vezes dizemos que “só faz falta quem cá está” como forma de valorizar os presentes e iludir a falta que nos fazem os ausentes. Os primeiros dias de campanha eleitoral para as presidenciais foram marcados pelo protagonismo dos ausentes, entre eles, e de forma persistente, Pedro Passos Coelho.
Entre os presentes, o spin tem feito estragos na campanha de Luís Marques Mendes. Esta semana, um negócio de 2009 foi trazido a debate por outro candidato, Gouveia e Melo. O tom entre os dois foi de tal forma que Mendes usou a expressão “ordinarice” na resposta a um ataque do Almirante. Do passado de Gouveia e Melo, enquanto figura de topo na Marinha, surgiram, mais uma vez, contratos por ajuste direto assinados quase de cruz — o que não culpa o Almirante, mas também não o desculpa totalmente.
Entretanto, Ventura segue o seu caminho com o Chega na algibeira. E Cotrim assume-se como o parceiro de que o Governo precisa em Belém: toma nas mãos o ideário social-democrata, evoca Sá Carneiro, Pedro Passos Coelho e Cavaco Silva para explicar porquê. Cotrim tem uma boa parte do eleitorado da AD e quer mais, para acrescentar ao eleitorado jovem que retira à extrema-direita, e que, todos contados, podem fazer do candidato apoiado pela Iniciativa Liberal a grande surpresa destas presidenciais, com passagem à segunda volta. Cotrim pode ser, em 2026, o que Soares foi em 1986. O que diria muito do candidato, mas mais ainda da realidade política do país.
Garantida que está a segunda volta, o eleitorado confronta-se com os candidatos que tem, suspirando pelos que não tem. E a direita não tem Pedro Passos Coelho, que se mantém no clássico silêncio ensurdecedor, e perturbador.
E Passos, mais do que qualquer outro, podia evocar o legado político de Francisco Sá Carneiro sem incomodar Aníbal Cavaco Silva. É também pouco provável que o filho de Maria Francisca Judite Pinto da Costa Leite (Lumbrales), nascido no número 49 da Rua da Picaria, no Porto, em julho de 1934, e fundador do PPD, se fosse vivo, participasse numa arruada pouco expressiva no Pinhal Novo, ao lado de André Ventura.
Onde, e sem contraditório, Ventura afirmou que, se Sá Carneiro fosse hoje vivo, “sentir-se-ia muito mais próximo do Chega, dos valores do Chega, da forma de fazer política do Chega, do que do próprio PSD”. É natural que, com tudo isto, Cavaco Silva se sinta chocado, mas daí a escrever um artigo de opinião sobre a apropriação de um legado que escapa por entre os dedos ao atual PSD é manifestamente exagerado. Também porque a democracia liberal — “a democracia de tipo ocidental” a que aspirava e inspirava Sá Carneiro — está a morrer.
O que dizem os eleitores
O Nascer do Sol foi para a estrada e para os mercados com os candidatos, não tanto para ver o que dizem e fazem o João, o André, o António, o Henrique ou o Luís — os cinco candidatos com possibilidade de passarem à segunda volta —, mas mais para ouvir o que dizem deles a Manuela, a Adélia, o Joaquim, o Fernando e a Vera, entre tantos outros eleitores, que nos disseram em quem votam e porque votam.
E fomos dando conta de que o voto em Marques Mendes é hesitante; que Henrique Gouveia e Melo é, ainda hoje, o líder dos tempos da pandemia, uma imagem salvífica de um período emocionalmente sensível; que António José Seguro é “o que havia”, mas a que agora a máquina socialista adere com entusiasmo crescente – o bandwagon effect - visível no cada vez mais expressivo à-vontade do candidato; que a campanha de Ventura se faz de me, myself and I, apoiada na estratégia habitual do Chega, poucos mas muito ruidosos, partilhando o mais consentido embuste político, o de um candidato ao Palácio de Belém que, na verdade, só quer medir o pulso ao eleitorado para perceber o que lhe falta para chegar ao Palácio de São Bento; e que Cotrim será a surpresa desta campanha, provavelmente para todos menos para ele próprio.
João Cotrim de Figueiredo
“Se fizer isso com afeto, melhor”
Quarta-feira, 7, Pedrógão Grande. Cotrim de Figueiredo calcorreou a estrada em que morreram dezenas de pessoas nos devastadores incêndios de 2017. Quis assinalar que é no inverno que o país se prepara para as evitáveis tragédias do verão. Conversou longamente com Dina Duarte, presidente da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, e com ela tentou perceber o que se aprendeu com a tragédia ocorrida há quase uma década, para concluir que algumas das questões identificadas como problemas em 2017.
Em Pedrógão, Cotrim explicou que a função de um Presidente é “alertar em janeiro para os problemas de julho” e “pedir explicações atempadas e esclarecimentos públicos, que criem pressão sobre os decisores políticos”.
E como campanha eleitoral e pressão andam a par, Cotrim foi questionado sobre as mais recentes notícias acerca de Gouveia e Melo — o Ministério Público investiga dezenas de ajustes diretos na Marinha, envolvendo um padrão de empresas alegadamente concorrentes, mas com os mesmos donos, contratos com a assinatura do agora candidato presidencial, então no topo hierárquico da Marinha — e foi razoavelmente brando. Deixou para a Justiça o rápido esclarecimento da questão, mas foi sempre dizendo que, nos seus 35 anos de vida profissional, “nunca me passaria pela cabeça” assinar um contrato sem verificar as estruturas acionistas com quem fazia negócio.
No local, e perante a inevitável comparação com Marcelo Rebelo de Sousa, Cotrim disse que quer ser um Presidente que ajuda a resolver problemas, mas que, “se fizer isso com afeto, melhor”.
Falou ainda “da tristeza” que foi assistir, no debate da véspera, na RTP, à troca de gestos e argumentos entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, acrescentando que o Governo deve ajustar a lente e perceber, de uma vez, “que, se está interessado em fazer reformas, tem em mim um aliado muito mais fiável do que qualquer outro”.
Em Pedrógão Grande, Cotrim encontrou-se essencialmente com jornalistas. Foi recebido por Dina Duarte e pelo marido, João Carvalho, 69 anos, que desde logo nos confessou que o candidato em quem vai votar nas presidenciais não será Cotrim, mas Gouveia e Melo, que comandou o destacamento da Marinha deslocado para a região em 2017, e aí voltou em abril de 2024 e depois em junho de 2025. A viagem não foi perdida, mas é pouco provável que Cotrim tenha ganho muitos votos por ali.
André Ventura
O herdeiro de Sá Carneiro no Pinhal Novo
Terça-feira, 6, Pinhal Novo. Ana, 45 anos, emigrante nos Países Baixos, esteve entre um ruidoso grupo de militantes do Chega que recebeu o candidato numa breve e pouco expressiva arruada no Pinhal Novo — um momento mais para a comunicação social.
Ana contou-nos que vota em André Ventura porque ele é, entre todos os candidatos, “o que tem a cabeça mais bem arrumada, com ideias mais firmes”. Quando a questionámos sobre o que o candidato tem dito sobre os imigrantes no nosso país, respondeu que “são coisas diferentes”, sem explicar como. Disse-nos que está a aprender neerlandês para obter a nacionalidade e que está há dois anos num país que não é o seu, mas onde conseguiu mais do que uma vida inteira em Portugal, para onde não voltará, mesmo que Ventura seja eleito Presidente da República, acreditando que ele acabará por vir a ser primeiro-ministro.
Joana, 36 anos, trabalha como auxiliar em Setúbal, acredita que André Ventura vai mudar o país. Quando lhe perguntámos como, respondeu: “mudar em muitos aspetos, porque o nosso país está uma vergonha”. Questionada sobre se preferia votar em Ventura para Presidente ou para primeiro-ministro, respondeu: “para os dois, qualquer um deles, gostava que ganhasse”. Palmira, 57 anos, também gostaria de ver Ventura “em qualquer lado”, porque “Ventura faz toda a diferença” e é “alguém que mexe os pauzinhos mais fortemente”.
No Pinhal Novo, Ventura disse aos jornalistas que pisa terreno firme e que não será o “menos prejudicado pelo voto útil”, porque conta com a elevada fidelização do seu eleitorado (na casa dos 86–87%).
A única fragilidade que Ventura se permite é quando é questionado sobre a segunda volta, na qual admite estar numa “situação desfavorável”. A não passagem à segunda volta, possibilidade não despicienda nesta fase, apesar da pouca fé nas sondagens, deixaria Ventura numa situação muito delicada, e não haverá retórica capaz de justificar o que, desde o início, assumiu que seria um risco.
António José Seguro
Canta, toca e dança
Segunda-feira, 5, Vidigueira e Loulé. Seguro iniciou a campanha na estrada, entre duas câmaras socialistas, com a máquina do partido a acolhê-lo como se nunca tivesse saído.
Maria Manuela, 66 anos, vota em Seguro, e os anos em que o candidato esteve afastado só servem para provar que “ele vive sem o sistema, não é político-dependente”. Para Justina, 57 anos, Seguro “é uma pessoa sensata, que tenta resolver os problemas sem dizer mal dos outros, de forma calma, tranquila”.
Seguro chegou à Vidigueira e entrou no Café da Tia Jacinta para beber um ‘vasquinho’, um licor próximo do vinho do Porto, com sabor a ginja e chocolate — a ginja é um quase fetiche presidencial. Conversou com diversas pessoas e convenceu Fernanda, 65 anos, uma eleitora hesitante, que se deixou encantar pela “simplicidade” de Seguro. Não foi a única — é também por isso que se fazem as campanhas.
Em terreno seguro, o candidato discursou insistindo que o seu eleitorado é amplo, voltou a dizer que os apoiantes mais à direita são bem-vindos e destacou a presença, no almoço, de um capitão de Abril, o agora general Manuel Monge.
Seguro disse ainda que o voto nele “não é em aventuras nem em Venturas”, reforçou a lealdade à Constituição e voltou a pedir o voto útil à esquerda. Depois juntou-se aos jovens para desalinhar ligeiramente o ‘cante’ alentejano, mas também para lhes garantir que alinhará oportunidades para que os jovens fiquem no país, numa terra liderada por um jovem presidente de câmara socialista, Ricardo Bonito.
Em Loulé, Seguro foi recebido por um frio inusitado e por calorosos apoiantes junto à Câmara Municipal, liderada por um socialista, Telmo Pinto. Quando questionados sobre o facto de o candidato só pisar terreno seguro, responderam que há nove presidentes de câmara não socialistas que apoiam Seguro, entre eles o de Elvas.
Se na Vidigueira Seguro foi emotivo, em Loulé foi expressivo e expansivo: cantou, dançou, tocou, e falou com os jornalistas para dizer que não contem com ele para a guerra de trincheiras, mas que o atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, contará com ele, em março, em Belém, para a primeira reunião semanal — que não será para “tomar chá”.
Em 2013, Ana Sá Lopes entrevistou Mário Soares para o i. A jornalista não entrevistava o político: conversava com ele. Nessa conversa, Soares disse-se “desiludido” com Seguro e falou de Alexis Tsipras para explicar que havia líderes socialistas a fazer o que Seguro não fazia: lutar contra a austeridade imposta à Portugal e à Grécia pelos tempos da troika, enquanto Seguro ensaiava pactos patrióticos com o governo de Passos Coelho. Seguro reagiu à entrevista dizendo que sentia “carinho” e “ternura” por Soares.
Baptista-Bastos, num artigo de opinião no Jornal de Negócios, arrasou Seguro: “desprovido de convicções, pouco culto, não possui estatura de estadista nem fibra para enfrentar a complexidade da situação actual”. Uns meses depois, Vasco Pulido Valente escreveu: “O PS de Seguro é o partido do não sei, do talvez, do veremos”.
Aconteceram as primárias. Costa derrotou Seguro na liderança do PS e deu aos socialistas um Governo de maioria absoluta. Mais do que o legado costista, Seguro fez de tudo para desvalorizar os anos da derrota e do afastamento — que Gouveia e Melo lhe lembrou em debate recente. Mas, ao contrário do Almirante, sem partido mas com elevadas expectativas, que sobe e desce nas sondagens, Seguro, com parte do partido que agora se transformou num todo, cresce e consolida-se. A avaliar pela adesão em cada ação de campanha, a ideia do “chá em Belém’ é bem possível.
Henrique Gouveia e Melo
O Almirante não consegue despir a farda
Domingo, dia 4, Feira do Relógio, Lisboa. Henrique Gouveia e Melo entrou na campanha a lembrar a timidez da adolescência, que confessou nas obras biográficas entretanto publicadas. Mas, à medida que percorria a Feira do Relógio e interagia com as pessoas, o seu metro e noventa agigantava-se. O candidato sentia-se um peixe na água: ouvia com atenção, respondia o melhor que podia, e cada elogio, cada abraço ou aperto de mão — Gouveia e Melo não é muito dado ao contacto físico mais próximo, aos beijos, nunca o vimos beijar ninguém durante o percurso pela feira — ia colocando pedras no seu caminho para Belém. São muitos os que olham para o Almirante e veem nele o general Ramalho Eanes.
Ana Cristina, 51 anos, associa Gouveia e Melo a “confiança” e a alguém que “diz o que tem para dizer”. Ricardo, 39 anos, disse que o candidato “ajudou o Governo no tempo da pandemia”. Arménio, 64 anos, acha que o Almirante “sabe o que tem de dizer e sabe o que tem de fazer”. Manuela, 66 anos, disse-nos que estava “cansada dos outros políticos” e que Gouveia e Melo, nos tempos da pandemia, lhe lembrou o general Ramalho Eanes. Carla, 51 anos, disse-nos que Gouveia e Melo “tem tudo no sítio” e “é um homem de uma só palavra”. Para António, 68 anos, o candidato “não tem maldade”.
O dia de campanha prosseguiu com um almoço que juntou, à mesma mesa, Gouveia e Melo, Rui Rio, Correia de Campos, Carlos Carreiras e Isaltino de Morais.
Luís Marques Mendes
Nem contigo, nem sem ti
Sábado, 3, Mercado de Benfica, Lisboa. Luís Marques Mendes e Joaquim Miranda Sarmento entraram num café do Mercado de Benfica, instalaram-se de pé ao balcão e beberam uma ‘bica’ enquanto trocavam impressões sobre, muito provavelmente, os auspiciosos indicadores da economia portuguesa — em especial o nível da dívida pública, em mínimos históricos — e sobre como isso pode ser bom para o candidato presidencial do Governo. Mas há a economia e há o resto.
Do outro lado do balcão, três mulheres — três imigrantes, uma cabo-verdiana e duas indianas — não faziam a menor ideia de que ali estava o ministro das Finanças de um Governo que se tem revelado menos friendly com os imigrantes.
Teresa Fernandes, 61 anos, peixeira, que falou com o Nascer do Sol enquanto amanhava jaquinzinhos, vendidos a oito euros o quilo, disse-nos que sempre votou PSD e agora não será diferente; além do mais, gosta muito do “comentador”, que é “mais ou menos do meu tamanho”. António, 92 anos, garante-lhe o voto, bem como Laura, 86 anos, uma das vendedoras mais estimadas do mercado. Já o genro, Manuel, 53 anos, confessou-nos que, embora tenha votado quase sempre “laranja”, nestas eleições não tem o voto alinhado com o da sogra: vota Cotrim.
No mercado ainda se ouviu alguém dizer ao candidato que lá em casa eram cinco a votar nele — animador, num ambiente em que ainda se hesita muito quanto às intenções de voto. Não é imediato o voto em Marques Mendes. Os dinheiros ganhos e mal explicados, percebemos, perturbam alguns potenciais eleitores do candidato da AD, que está numa relação complexa com o Governo.