quinta-feira, 16 abr. 2026

Portugueses querem mexer na Constituição, mas há uma linha que não aceitam cruzar

Estudo revela abertura à revisão constitucional, mas rejeição quase total de mudanças na lei laboral.
Portugueses querem mexer na Constituição, mas há uma linha que não aceitam cruzar

Mais de metade dos portugueses admite rever a Constituição da República Portuguesa, mas quando se entra no detalhe das possíveis alterações há limites claros que a maioria não está disposta a ultrapassar.

Os dados resultam de um estudo coordenado por Pedro Adão e Silva e Isabel Flores, no âmbito do IPPS-ISCTE, com base numa sondagem a mais de mil inquiridos. O trabalho surge no ano em que se assinalam cinco décadas da aprovação da Constituição.

De acordo com os resultados, 58% dos portugueses defendem uma revisão constitucional, enquanto apenas uma minoria se opõe. A predisposição é mais forte entre eleitores de direita, mas estende-se também ao centro e à esquerda, ainda que com menor intensidade.

Apesar desta abertura, há matérias que geram forte consenso negativo. A possibilidade de permitir despedimentos sem justa causa é rejeitada por uma larga maioria dos inquiridos, tal como qualquer limitação ao direito à greve, mostrando uma clara resistência a alterações no campo laboral.

Em sentido contrário, propostas como a criminalização do enriquecimento ilícito ou a redução do número de deputados recolhem níveis elevados de apoio, revelando que a vontade de mudança está mais concentrada em áreas específicas.

O estudo indica também que existe um apoio global ao texto constitucional, embora muitos considerem que direitos como o acesso à saúde ou à habitação continuam longe de estar plenamente garantidos.

Ao nível do conhecimento, os portugueses mostram alguma indefinição: enquanto cerca de metade reconhece que a Constituição já foi revista ao longo dos anos, uma fatia significativa admite não saber ou tem perceções erradas sobre esse processo.

As respostas variam ainda em função do contexto social e económico. A identificação com os princípios constitucionais é mais forte entre quem tem maior nível de escolaridade e melhores condições de vida, enquanto diminui entre os que enfrentam maiores dificuldades.

Também a confiança nas instituições revela fragilidades. O Presidência da República surge como a entidade com maior nível de confiança, seguida do Tribunal Constitucional. Já o Governo e a Assembleia da República aparecem entre as instituições que recolhem mais desconfiança.