terça-feira, 21 jul. 2026

Portugal quer dar voz aos “conflitos esquecidos” no Conselho de Segurança da ONU

Portugal vai defender no Conselho de Segurança das Nações Unidas que não existem “conflitos de segunda classe”. O compromisso foi assumido por Paulo Rangel, que promete colocar na agenda internacional crises humanitárias muitas vezes ignoradas, como as do Sudão, Haiti, Myanmar e República Democrática do Congo
Portugal quer dar voz aos “conflitos esquecidos” no Conselho de Segurança da ONU

Portugal vai assumir como uma das suas principais prioridades no Conselho de Segurança das Nações Unidas a defesa dos chamados “conflitos esquecidos”, garantindo que crises internacionais menos mediáticas não ficam fora da atenção da comunidade internacional.

A posição foi anunciada esta quarta-feira pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, durante uma audição na Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, na sequência da eleição de Portugal para membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU para o biénio 2027-2028.

“Não há conflitos de primeiro e de segundo nível. Uns criam tantos danos humanitários como os outros, mas estão na sombra”, afirmou o governante, citado pela agência Lusa.

Segundo Paulo Rangel, a atenção internacional está atualmente concentrada nos conflitos da Ucrânia e do Médio Oriente, enquanto outras crises humanitárias continuam a provocar milhares de vítimas sem o mesmo destaque mediático ou diplomático.

Entre os exemplos apontados pelo ministro estão os conflitos no Sudão, na República Democrática do Congo, no Haiti e em Myanmar, cenários onde considera que o Conselho de Segurança pode desempenhar um papel mais ativo na mediação e procura de soluções.

A defesa desta abordagem fará parte da agenda portuguesa durante o mandato que se inicia em janeiro de 2027, após a eleição de Portugal para o órgão mais importante das Nações Unidas em matéria de paz e segurança internacional.

Portugal foi eleito no passado dia 3 de junho com 134 votos, liderando a votação do grupo da Europa Ocidental e Outros Estados. Para Paulo Rangel, este resultado representa uma validação da política externa portuguesa.

“Foi uma grande ratificação da política externa do Governo português”, afirmou o ministro, defendendo que o resultado demonstra o reconhecimento internacional da posição de Portugal.

Durante a audição parlamentar, o chefe da diplomacia portuguesa aproveitou ainda para responder às críticas do Partido Socialista relativamente à posição do Governo sobre a utilização da Base das Lajes pelos Estados Unidos no contexto dos ataques ao Irão.

Sem mencionar diretamente os socialistas, Paulo Rangel criticou aquilo que classificou como uma “infantilização da política nacional”, considerando que uma eventual perda de credibilidade externa teria tornado impossível alcançar um resultado eleitoral tão expressivo nas Nações Unidas.

A deputada socialista Catarina Louro reagiu de imediato, observando que “ainda o PS não tinha falado e já o senhor ministro estava ao ataque”.

Apesar da troca de argumentos, a eleição de Portugal recolheu elogios generalizados das diferentes forças políticas representadas na comissão parlamentar.

Paulo Rangel sublinhou que o resultado foi fruto de um esforço coletivo que envolveu o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a missão permanente de Portugal junto das Nações Unidas, sucessivos governos e várias figuras institucionais.

O ministro destacou ainda o contributo dos países de língua portuguesa para o sucesso da candidatura portuguesa.

“Estar lá um país de língua portuguesa é sempre um fator muito importante e foi extraordinário ver como se bateram por nós”, afirmou.

Portugal assumirá funções no Conselho de Segurança em janeiro de 2027 e terá desde logo uma responsabilidade acrescida, ao ocupar a presidência rotativa do órgão logo no primeiro mês do mandato.

“Temos logo a primeira presidência e, com a volatilidade da vida internacional, não sabemos que temas irão dominar a agenda do Conselho nessa altura”, reconheceu Paulo Rangel.

A eleição tem também um significado histórico. Embora Portugal já tenha integrado o Conselho de Segurança em várias ocasiões, esta foi a primeira vez que conseguiu ser eleito à primeira volta e terminar em primeiro lugar na votação, superando a Áustria e deixando de fora a candidatura da Alemanha.

Para o Governo, este resultado reforça o peso diplomático português numa altura em que as Nações Unidas enfrentam desafios crescentes e um contexto internacional marcado por múltiplos conflitos e instabilidade geopolítica.