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O navio porta-drones D. João II, da Marinha Portuguesa, que está a ser construído na Roménia e resulta de uma ideia do almirante na reserva Henrique Gouveia e Melo, foi apresentado esta semana numa «cerimónia de flutuação» que juntou chefias militares e representantes diplomáticos.
Gouveia e Melo, ouvido pelo SOL, comentou que «este é o primeiro navio verdadeiramente multiusos» da Europa, com «uma marca muito diferenciada a nível conceptual de utilização e de operação», podendo servir o país «quer em paz, quer em tensão, quer em conflito».
O almirante, ex-candidato à Presidência da República, sublinhou ainda que a importância do projeto reside tanto na embarcação em si quanto nas capacidades militares e civis que podem ser desenvolvidas a partir dele, nomeadamente a criação daquilo a que chama um «cluster de drones» em Portugal, ou seja, uma nova fileira industrial portuguesa.
O desvelar, com o lançar do navio à água, registou-se na terça-feira e permitiu antecipar o calibre do porta-drones, com mais de 107 metros de comprimento e 20 de largura, a que correspondem sete mil toneladas. Trata-se de «um passo significativo no percurso de modernização da Marinha Portuguesa, reforçando a capacidade nacional no domínio das ciências do mar, da segurança marítima e do cumprimento das responsabilidades do Estado no mar», referiu a Marinha em comunicado.
Na síntese do projeto, lê-se que consiste na construção de uma «plataforma multidisciplinar de referência» para «operações de emergência, vigilância, investigação científica e tecnológica, assim como monitorização ambiental e meteorológica».
Na cerimónia de terça-feira estiveram presentes o vice-almirante Fernando Jorge Pires, em representação do chefe do Estado-Maior da Armada, bem como o embaixador de Portugal e o embaixador dos Países Baixos na Roménia.
Isto porque, se o estaleiro naval se situa na Roménia – mais propriamente na cidade de Galati, nas margens do Danúbio, junto à fronteira com a Moldávia e a Ucrânia –, a construção é da responsabilidade da empresa neerlandesa Damen.
O projeto é oficialmente conhecido como Plataforma Naval Multifuncional, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência em 132 milhões de euros. Deverá estar pronto ainda este ano. Mas só em 2027, previsivelmente no primeiro semestre, sairá dos estaleiros romenos em direção a Portugal por meios próprios.
Europa interessada
Segundo Gouveia e Melo, o navio tem uma grande capacidade de carga, quer de pessoas, quer de materiais, e permite fazer operações humanitárias como busca de refugiados e apoio a sinistros no mar. Caracteriza-se pela incorporação de gruas, rampas de lançamento à ré e um deck corrido para drones aéreos. Pelas suas características, suportará um conjunto variado de operações robotizadas, quer militares, quer científicas.
Os drones a transportar, drones pesados, que em alguns casos se assemelham a caças em versão não-tripulada, podem voar de forma longínqua, com uma zona de influência de cerca de mil quilómetros em torno do navio. Podem estar no ar mais de 24 horas. A estes acrescem drones marítimos de vigilância, capazes de operarem por um mês de forma independente.
Ambos estarão dotados de ‘inteligência’ própria, que lhes oferece autonomia de decisão, podendo ser comandados a partir do navio ou de terra.
«É este tipo de operações, completamente novas e disruptivas, que vão fazer com que o navio seja um caso único», classificou o almirante, adiantando que há grande expectativa em torno do sucesso do primeiro exemplar, com prováveis réplicas nos próximos anos. «Marinhas com que tive contacto por toda a Europa ficaram muito curiosas com este plano e mostraram interesse em adquirir navios idênticos».
O D. João II é uma ideia de Henrique Gouveia e Melo, anterior à sua nomeação como chefe do Estado-Maior da Armada, que aconteceu em 2021, e anterior também ao processo de vacinação da covid-19, cuja liderança o tornou conhecido da maioria dos portugueses.
Em setembro de 2019, o então vice-almirante Gouveia e Melo assinou um longo ensaio intitulado Uma Marinha Útil e Minimamente Significativa Para Portugal no Início do Século XXI, para a publicação Cadernos Navais, do Centro de Estudos Estratégicos da Marinha. Foi aí que pôs em letra de forma a ideia de um porta-drones – à semelhança dos porta-aviões, que o mundo descobriu durante a I Guerra Mundial.
No ensaio, o militar falava de patrulhas oceânicos capazes de funcionarem como «base operativa para drones de superfície, submarinos e aéreos». E notava: «Uma solução interessante para a construção naval e a edificação de capacidades militares residirá na produção de plataformas com espaço e energia suficientes para absorver os requisitos gerados pela constante evolução tecnológica, quer nos sensores e na capacidade de processamento, quer nas armas e vetores de ação».
A materialização do porta-drones ficou a cargo de engenheiros da Marinha, mas o próprio batismo da embarcação, D João II, deve-se ao almirante.
«Foi uma escolha minha, aceite pelo almirantado», referiu. «D. João II foi um Rei disruptivo, que transformou Portugal. Éramos uma nesga de terra que estava presa aqui à Península Ibérica e sujeita, de alguma forma, a uma parceria com um país cinco vezes superior. Portanto, estávamos encurralados. O nosso rei abriu os horizontes dos portugueses ao mundo e, com isso, iniciou a era da globalização. Como este navio fará uma diferença conceptual, achei que deveria servir para homenagear D. João II».
Desenvolver uma indústria de drones
Alguns dos drones a transportar no D. João II ainda não existem. O almirante está envolvido no desenvolvimento de um «cluster de drones» em Portugal, que tenham utilização civil e militar.
«A ideia é criarmos uma indústria completamente nova», explicou-nos. «Drones com desenho português, que ajudem a criar um grande cluster nacional com capacidade de exportação».
Gouveia e Melo está convencido de que o desenvolvimento de tal indústria só será possível se o Estado criar um ambiente normativo amigo das empresas, desde logo as que trabalham com tecnologias de ponta. Caso contrário, disse, o país corre o risco de impedir a inovação.
«Que o Estado não atrapalhe», referiu. «O Estado, através de uma regulação excessiva, muitas vezes impede o desenvolvimento. Não estou contra restrições mínimas de segurança, neste domínio, mas é desejável que as empresas nacionais tenham condições para competirem num mercado em que surgem novos produtos a cada seis ou nove meses».