sexta-feira, 10 jul. 2026

Pela manhã Chega, pela tarde PS, à noite CR7

Esta foi a semana em que o PS deu a mão ao Governo – e ficou a pensar se devia lavá-la a seguir. O acordo sobre a PSU travou o radicalismo do Chega, poupou o Presidente da República e deixou toda a gente a reclamar a vitória. 
Pela manhã Chega, pela tarde PS, à noite CR7

Esta semana, o Partido Socialista deu a mão ao PSD e ao Governo e confirmou que a estratégia do primeiro-ministro Luís Montenegro de criar condições de governabilidade «à esquerda e à direita» funciona. Os socialistas fizeram-no, nas suas palavras, para «assegurar o princípio de que a PSU não será globalmente mais desfavorável do que o regime anterior para as pessoas de maior vulnerabilidade», enfatizando o desaparecimento do canal de denúncias, que incomodava profundamente a esquerda, e ficando definido que a fiscalização e o escrutínio dos valores a inscrever no decreto-lei cabem ao Parlamento. 

Ainda assim, os dois partidos ficaram enredados numa questão que não é de pormenor: o trabalho social obrigatório, com o PS a dizer que não e o PSD a garantir que sim. Há uma formulação de compromisso – «atividade social solidária» – que, convenhamos, é menos agressiva, e esta é uma questão que muito inquieta os socialistas, ainda que por agora considerem que a proposta de lei da PSU está a salvo do radicalismo inicial que se acentuaria com um acordo à direita, com o Chega. 

De manhã o Chega, à tarde o PS e à noite Hugo Soares, o secretário-geral do PSD, na CNN, misturava política com futebol e dizia sentir-se o Cristiano Ronaldo, com assistência à esquerda de Pedro Neto e, a entrar pela direita, a de João Félix, para acrescentar que na PSU o trabalho é «tão obrigatório como Portugal ganhar à Colômbia». Questionado pelo SOL, e parafraseando Ronaldo, se o PSD «estava de volta» ao centro moderado, Hugo Soares respondeu que o partido nunca daí saiu – sendo que a realidade recente contraria esta versão. 

Tudo isto depois de o primeiro-ministro, na manhã de quarta-feira, ter apelado «ao sentido de responsabilidade» dos dois maiores partidos da oposição. E os socialistas foram a «oposição responsável» porque há 600 milhões do PRR em jogo e também porque o projeto foi inscrito no PRR pelo Governo de António Costa – o legado costista está muito presente no partido, quer se queira quer não. Foi assim na reforma laboral, com o partido a defender a Agenda do Trabalho Digno como se ainda estivesse no poder, e é agora na PSU. 

Numa altura em que se consolida a liderança de José Luís Carneiro, o estertor é menos intenso mas não desapareceu, e o SOL sabe que este acordo do PS com o PSD e o Governo irritou muitos socialistas que consideram que o acordo foi basicamente útil ao Governo e revelou a inutilidade da oposição socialista, que perdeu o momentum para se afirmar como o verdadeiro partido da oposição. Ainda assim, há socialistas que argumentam que este acordo prova que se o Governo privilegia o Chega nas negociações não é porque o PS é inflexível ou «imobilista». Mariana Vieira da Silva, que integrou a equipa que negociou o acordo com o PSD, disse ao SOL, em conversa nos corredores do Parlamento, que o PS não podia ter feito outra coisa no caso da PSU – mas acrescentou, quanto a entendimentos com o PSD e o Governo: «Amanhã é outro dia»

Há os socialistas irritados com Carneiro – numa altura em que estavam criadas condições para uma rutura com o PSD que o eleitorado entenderia, depois do chumbo da reforma laboral e pelo que se ouviu no congresso do PSD, em Anadia – e há os que consideram que o PS mostrou credibilidade e força, também porque os portugueses não entenderiam que o partido se abstivesse nesta questão. 

Duarte Cordeiro, que se transforma no desejado em contraponto à liderança fluida de José Luís Carneiro, falou da PSU no espaço semanal do NOW, na terça-feira, dia 23, como uma medida que surgiu com o Governo de Costa e que «tinha como objetivo seguir as recomendações de organizações internacionais para juntar um conjunto de apoios» para combater a pobreza. Acrescentou que não era objetivo da reforma tornar ainda mais difícil o acesso aos apoios sociais – que era o que o PSD estava a fazer –, colocando-se «numa terra de ninguém» e afastando-se «do consenso que poderia gerar com o Partido Socialista», ao mesmo tempo que não iria agradar ao Chega, que impôs condições «inaceitáveis». Alguém o deve ter ouvido com atenção: a cedência foi feita ao centro, e há quem considere, francamente otimista, que o Governo abandonou o essencial da sua proposta para aceitar a PSU do PS – ou do Governo de António Costa. 

A calma que inquieta  

«O segredo do sucesso é a constância do propósito». A frase é de Benjamin Disraeli, primeiro-ministro por duas vezes, reformista social à maneira dos conservadores, no Reino Unido do século XIX. E este parece ser o mote de José Luís Carneiro, o líder conservador dos socialistas portugueses, que mantém uma agenda pessoal sem deixar que os acontecimentos interferissem nela, sem se deixar arrastar por ventos ou mares – mesmo na semana que dedicou à Rota pela Economia do Mar, com algumas saídas no Atlântico. 

José Luís Carneiro considera que como está, está bem, também porque as sondagens correm de feição, e prossegue com uma agenda própria e o gosto pela política de proximidade, legado do poder autárquico que faz parte da sua carreira política. Com o PS cada vez mais incorporado na liderança de Carneiro e a habituar-se a ser um partido da oposição, os próximos tempos – a menos que aconteça alguma coisa de estrondosamente inquietante – o PS será mais do mesmo, porque, acredita-se, se está a funcionar, não se mexe. 

Naturalmente que a liderança de Carneiro não é um dado definitivo, mas Carneiro dificilmente provocará uma crise política para afirmar a liderança. Também porque o instinto adverte que o Chega é o partido que mais poderia ganhar em eleições, ainda mais quando o PS e o PSD se juntam e dão todo o espaço ao radicalismo discursivo de Ventura no país da subsidiodependência. 

«É uma linha política absolutamente infundada, coisa que qualquer democrata percebe – que o PS é um partido democrático e o Chega uma força antidemocrática», escreveu Augusto Santos Silva num post do Facebook, referindo-se ao PSD, e acrescentou: «É uma linha errada, de quem se mostra completamente apostado em provocar uma crise política, cortando deliberadamente as possibilidades de entendimento mínimo, para viabilização parlamentar de iniciativas-chave do Governo. Se Montenegro ataca e provoca constantemente o PS, mesmo depois de o Chega lhe ter tirado inopinadamente o tapete, o que espera que o PS faça?»

Pois essa é a questão: o que é que se espera que o PS faça? Por agora, faz um acordo com o PSD/Governo, ainda que aposte no conceito clássico de que não se ganham eleições – alguém é que as perde. O que o pressuposto não resolve é o cenário que mais inquieta: o de o PSD perder sem que seja o PS a ganhar, mas o Chega. 

Este acordo também poupou o Presidente da República: Seguro teria dificuldade em promulgar um decreto-lei saído de um acordo entre o PSD e o Chega, quando mesmo Hugo Soares acusou o partido de Ventura de «ser altamente desumano».  

Pela manhã, o Chega. À tarde, o PS. À noite, CR7. E no dia seguinte, tudo começa outra vez – com o PSD a marcar e a Oposição a perder a bola a meio-campo.