terça-feira, 21 jul. 2026

Pedro Rapoula: ‘Separei sempre a minha vida literária da minha vida política’

Oriundo de uma família muito tradicional, sentiu a necessidade de se expressar através da poesia e acaba de apresentar o seu segundo livro, Coisas que me Ensinaram a Calar. Foi assessor de Cavaco Silva, viveu dez anos na Colômbia e atualmente é chefe de gabinete do ministro Gonçalo Matias. Embora tenha um percurso feito na política, prefere definir-se como ‘tradutor com ação cívica’.
Pedro Rapoula: ‘Separei sempre a minha vida literária da minha vida política’

Vamos falar de poesia, mas, antes, vamos falar de política. Vivemos, nos dias de hoje, a nostalgia dos grandes líderes, concorda?

Não conseguimos comparar as lideranças do passado com as de hoje, porque a forma da liderança era completamente diferente. As pessoas vinham da sociedade civil para a política e agora parece que nascem nos partidos. Churchill, quando chegou à liderança, tinha feito outras coisas antes, e até nem tinha sido muito bem-sucedido, mas chegou à política e foi um grande político. Hoje em dia o princípio é outro: as pessoas juntam-se por outros critérios que não a capacidade intelectual, a capacidade humana dos políticos. Nós estamos sempre com nostalgia — por exemplo, em Portugal, estamos sempre a dizer que o Mário Soares foi o grande Presidente do século XX...

... e cita-se frequentemente Sá Carneiro.

Vivi com o mito do Sá Carneiro e pergunto-me, se ele não tivesse morrido naquelas circunstâncias, se a imagem dele teria resistido.

Diga-me um líder atual com a densidade pessoal e política do Sá Carneiro.

Em Portugal? Eu trabalhei com o presidente Cavaco Silva. Encontrei uma pessoa que eu não conhecia, a não ser mediaticamente, e que me mostrou um lado que eu nunca esperava...

O tempo, a distância, deram a Cavaco Silva o estatuto de grande líder. Temos então Sá Carneiro, Soares e Cavaco.

E ficamos por aqui. Acho que o tempo ainda não nos permite ir mais longe. Como podemos avaliar um político cujas ações ainda impactam o nosso dia-a-dia?

Hoje existe a ideia generalizada de que os políticos são gente de pouca densidade, também do ponto de vista intelectual.

Temos de combater essa visão simplista. O Paulo Portas é um homem cultíssimo... para não falar no professor Marcelo Rebelo de Sousa, que também se dedicava muito à literatura. Às vezes estamos tão focados no lado do político que nos esquecemos que todos temos uma vida para além da política. E repare que para mim é muito difícil assumir que sou político...

Já que falamos de si, vamos aproveitar...

... deixe-me só acabar este raciocínio. Achamos que as pessoas são só uma coisa. E as pessoas podem ser coisas completamente diferentes. Na política tem imensas pessoas assim. O Bagão Félix, um homem cultíssimo. O Laborinho Lúcio, que morreu no ano passado, escreveu peças de teatro e romances. Temos a tentação de fechar os políticos em caixas. Parece que não podemos ser nada além do nosso trabalho. E há espaço para muito mais, não é? Por trás do político há uma dimensão mais humana, mais intelectual. Posso dar outro exemplo: quando o Juan Gabriel Vásquez veio a Lisboa apresentar um livro, o António Costa quis fazer, e fez, uma conversa com ele sobre literatura.

Como foi essa conversa?

A história vem um pouco de trás: alguém esteve na Colômbia e comprou um livro do Juan Gabriel Vásquez que ofereceu ao António Costa. E depois desse o António Costa continuou a ler os livros dele. É um dos autores favoritos dele. E a conversa, na Casa da América Latina, foi sobre a vida e a literatura. Não foi sobre política.

Paulo Portas é outro político que considera Vásquez um dos grandes escritores da atualidade. Qual é, na sua opinião, a razão do enorme sucesso deste escritor sul-americano?

Acho que há várias razões. A primeira de todas é que o Juan Gabriel é um grande leitor. O livro que traduzi dele, Viagens com o Mapa em Branco, conta-nos histórias do narcotráfico colombiano, das guerrilhas, ou de uma escultora colombiana que depois morreu em Paris, a partir do seu olhar de colombiano, mas qualquer um de nós consegue identificar-se com alguma coisa naquelas personagens. Isso é a beleza da literatura universal.

E o que explica uma boa tradução?

Não tenho pretensões de me achar um bom tradutor, mas acho que é o cuidado com a palavra. Um bom tradutor, um bom editor, um bom jornalista: quem trabalha com a palavra tem de ler muito. Se estiver a escrever discursos, só consigo fazer um bom texto se conhecer a ferramenta. E a ferramenta é a palavra. E acho que é por isso que o facto de eu escrever poesia é tão útil. Porque a palavra é essencial. Uma palavra pode construir um verso ou pode destruí-lo.

E chegamos a Coisas que me Ensinaram a Calar. Foi a tradução que o levou à poesia?

Eu já escrevia poesia antes da tradução. Sempre escrevi, desde muito novo. Para mim, a escrita é uma forma de expressão absolutamente essencial.

Mas é muito íntima ainda, não é?

Será sempre. Resisti muito a publicar. Este é o meu segundo livro de poesia, mas é o primeiro que assino com o meu apelido Rapoula. O primeiro publiquei com o apelido da minha avó materna, que foi uma pessoa essencial para mim.

Foi o primeiro livro de poesia envergonhado?

Sim. E foi um bocado pressionado pela Filipa Leal, de quem sou amigo. Hoje acho que é um bocado pueril. Foi escrito ao longo de 20 anos, portanto há ali variadíssimos Pedros. O livro que apresento agora foi escrito com uma lógica muito mais unitária. Com a idade vamos ficando menos espontâneos, não é? E quando sentimos a responsabilidade de já ter traduzido, de já ter publicado — há uma necessidade de ter mais qualidade.

Qual é, para si, a melhor definição de poesia?

A poesia é tão, tão, tão subjetiva, que é muito difícil, para mim, definir o que é boa ou má poesia. Prefiro dizer-lhe o que é para mim um bom poema. 

Então, o que é, para si, um bom poema?

Um bom poema é um poema que me provoca uma reação física. Pode ser um baixar de ombros, uma respiração funda depois do poema, uma sensação de aperto — um poema que me provoca isso tem de ser um bom poema.

Este segundo livro é menos orgânico, mais elaborado, mais ponderado?

Não diria elaborado, diria ponderado. É um livro que acho que tinha de escrever.

Tinha, porquê?

Não sei explicar isso. Sinto que tinha de o escrever. Venho de uma família muito tradicional, e somos educados a calar as coisas, a não falar demasiado de emoções, a não dizer tudo o que pensamos. E repente comecei a escrever uma série de coisas que...

... quer dizer que este Coisas que me Ensinaram a Calar pode ser um ajuste de contas com uma educação tradicional, mais conservadora?

‘Ajuste de contas’ é um bocado forte — a minha mãe ainda se zanga connosco. Mas... é um livro que parte de uma ideia de família e de sociedade, e vai desconstruindo esse modelo de sociedade. Uma das coisas que me serviu muito foi viver na Colômbia — vivi lá dez anos. A família na Colômbia é uma coisa diferente da família portuguesa, porque são famílias desestruturadas, seja pela guerrilha, seja pela violência, seja pelas circunstâncias da vida. Vi-me obrigado a olhar para a família de uma forma completamente diferente. Até por uma razão muito pragmática: vivia lá com o meu marido, não tínhamos ainda filhos — agora temos uma filha —, e eu próprio tive a necessidade de encontrar lá uma família alargada. Amigos, obviamente. E, portanto, isso também me ajudou a perceber que a família não é só aquilo que nos ensinam na escola — o pai, a mãe, o filho, a filha. Há muito mais para além disso.

Temos um grupo enorme de políticos que foram grandes escritores — Winston Churchill foi Prémio Nobel da Literatura, e muitos outros: Václav Havel, Léopold Sédar Senghor, Octávio Paz ou mesmo o Vargas Llosa...

... nem me comparo com essas pessoas, porque estamos a falar de génios da literatura. Mas quem escreve tem a obrigação de observar o mundo. E não me parece estranho que alguém que observa o mundo com cuidado tenha, por vezes, a tentação de pensar: ‘eu posso fazer alguma coisa para mudar o mundo’.

É o chefe de gabinete de Gonçalo Matias, que tem a pasta da reforma do Estado. Como é que o Pedro Rapoula poeta e o Pedro Rapoula chefe de gabinete se lida consigo mesmo?

São duas figuras bastante separadas, na verdade. Antes de estar com o ministro da Reforma, estava com a ministra da Cultura, a Dalila Rodrigues. Chego ao ministério para a Reforma do Estado porque o ministro Gonçalo Matias reconheceu em mim capacidades, vá-se lá saber quais, para fazer um bom trabalho.

Ainda não percebeu quais?

A minha chegada aos gabinetes é um bocadinho acidental. Não foi uma coisa que eu procurasse, mas, aparentemente, foi-se consolidando.

Como gostaria que as pessoas adquirissem o seu livro — com a curiosidade de ler um livro de poesia, ou por ser escrito pelo chefe de gabinete do ministro?

Acho que ninguém sabe que sou chefe de gabinete do ministro.

E quer que fique assim?

Não tenho vergonha nenhuma, e tenho muito orgulho em trabalhar com o Gonçalo Matias — é um homem absolutamente extraordinário. Mas eu tenho separado sempre a minha vida literária da minha vida política. Só para lhe contar uma história: o livro já teve vários títulos. Quando estava quase pronto, fui visitar o Nuno Júdice a casa. Ele já estava muito mal. Três ou quatro dias depois mandou-me um e-mail a dizer que tinha lido o livro, o que tinha gostado mais, o que tinha gostado menos, e a dizer-me: ‘Por favor, mude o título do livro, que é horrível’. E mudei. Quando cheguei a este título, pensei: as pessoas vão ler este livro e vão achar que são memórias de um chefe de gabinete.

De onde vem o título?

Vem de um dos poemas deste livro de que mais gosto: Uma Fila de Pão, que tem a ver com o passado colonial da minha família. Sabe que a minha experiência na América Latina foi muito complexa, porque em Portugal nós não somos confrontados — felizmente ou infelizmente, não sei — com a pobreza. No círculo em que eu me movo, as pessoas com quem falo... a minha empregada de casa tem casa própria.

E na América Latina, como foi o choque de realidade?

Lembro-me de haver uma senhora que trabalhava na embaixada, a Cláudia, que me contava histórias pavorosas — de não lhe darem de comer, de a tratarem mal nas casas onde trabalhava. Uma das coisas que me chocou foi as senhoras no talho pedirem uma coisa que se chamava ‘carne para as empregadas’. Um dia perguntei o que era. E a senhora do talho disse: ‘É um bocadinho melhor do que a carne de cão, mas um bocadinho menos boa do que a carne que vendo para as próprias senhoras’. Estas realidades todas contribuíram para que eu olhasse para o mundo de uma forma completamente diferente. Não consigo estar sentado no meu privilégio — e sou um privilegiado: sou um homem branco, tive a sorte de os meus pais me pagarem os estudos, de viver fora —, e não sentir que tenho de fazer alguma coisa pelos outros.

No livro, os seus poemas têm dedicatórias e inúmeras epígrafes. Vejo Camus, Lídia Jorge, Ana Marques Gastão, Jorge de Sena... agrada-lhe a ideia de convocar estas referências para o seu livro? É uma forma de os homenagear?

Não é tanto homenagear, acho que é quase dar pistas para a leitura. Essas pequenas citações ajudam a orientar a leitura do poema. E eu gosto muito de epígrafes, porque quando estou a ler livros e vejo uma citação, isso permite-me descobrir autores.

Quais são os seus poetas preferidos?

Tem a ver com épocas, com momentos. Neste momento, é a Elvira Sastre, uma poeta espanhola — provocou-me uma reação física tão forte que pensei ‘tenho de traduzir esta poeta’. Mas há três ou quatro a quem regresso com frequência: o Herberto Hélder, o Ruy Belo... o poeta que me toca mais profundamente é o Nuno Júdice, definitivamente. Foi um mestre para mim, tive o privilégio de conviver bastante com ele, é alguém por quem tenho uma admiração profundíssima. E a Filipa Leal, não posso não falar dela. Não posso não falar na Adília Lopes.

No ministério, no gabinete, alguém o trata — entre a provocação e o carinho — por poeta?

Outro dia, estávamos à procura de um nome para um despacho e quando se chegou a ‘nuvem soberana’, o ministro disse: ‘Isso só vai agradar ao Pedro, que é o poeta do gabinete’. Mas deixe-me dizer-lhe: ‘estou’ chefe de gabinete, mas sou tradutor e poeta. Quando me perguntam o que faço, qualquer impresso que tenho de preencher, ponho ‘tradutor’. Sempre.

Caramba, então é um político envergonhado?

Não sou um político. Sou um tradutor com ação cívica. E sabe por que acho que não sou um político? Porque a política exige de nós uma força enorme para resistir às adversidades. Na política fazemos muito pouco daquilo que queremos. E a frustração de não conseguir mudar alguma coisa é imensa. Portanto, prefiro não ser político, porque talvez não lidasse bem com a frustração. Se falarmos daqui a três anos, quando este governo acabar, serei uma pessoa profundamente frustrada — porque... o ministro não pode ouvir dizer isto, mas se calhar não fizemos tudo aquilo a que nos propusemos. E, portanto, a frustração faz parte da política, como a solidão faz parte do poder.

O que fez na vida até chegar aqui?

Comecei a minha carreira no Santander, na banca, no marketing e na comunicação. Depois fui trabalhando em coisas de cultura e Cavaco Silva, quando estava a fazer a campanha, tinha como mandatária a Kátia Guerreiro, e foi ela, que me conhece, que deu o meu currículo ao Presidente. Fui a uma entrevista com o Nunes Liberato, que era o chefe da Casa Civil, e nem percebi bem o que ia fazer porque achava que ia para a área de comunicação. Ele começou a falar-me de cultura, das coisas que eu já tinha feito, das exposições, da produção cultural, e perguntou-me se eu acharia graça a trabalhar na Presidência da República. Achei aquilo estranhíssimo e pensei que nunca ia acontecer, mas devo ter dito alguma coisa certa, porque estive quase 10 anos com o Presidente Cavaco Silva. Depois disso, fui para a Colômbia, onde estive primeiro na embaixada como Conselheiro Cultural e depois fui diretor da Feira do Livro de Bogotá — isso mexeu muito comigo, com o meu orgulho, porque foi um concurso internacional que eu ganhei. Não correu mal. Mas acabei por não estar muito tempo, por razões familiares — fui pai e aquilo não era muito compatível. Por isso, quando a ministra Dalila Rodrigues me convidou para ser chefe de gabinete, não me pareceu desajustado: somos amigos há 20 anos. E tudo isso fez sempre sentido, até chegar agora a este desafio novo — porque eu sou um homem da cultura na burocracia. Quando o ministro me convidou, disse-lhe que não percebia nada disto, e ele respondeu: ‘Mas tens as características pessoais de que eu preciso neste momento. Para o resto, tenho assessores’.