quarta-feira, 13 mai. 2026

Pedro Nuno Santos regressa e o taticismo entrou no léxico socialista

O ex-líder dos socialistas regressou ao Parlamento para dizer ‘o rei vai nu’ e desencadear o debate sobre a coesão interna do partido, quando José Luís Carneiro procura afirmar a unidade, mantendo afastados dos órgãos nacionais os novos ‘jovens turcos’
Pedro Nuno Santos regressa e o taticismo entrou no léxico socialista

«Tenho muito mais respeito pelo José Luís Carneiro do que pelos taticistas», disse, na quarta-feira, 21 de abril, Pedro Nuno Santos, no Parlamento, ao qual regressou depois de terminado o prazo da suspensão de 60 dias do mandato como deputado eleito por Aveiro. «A única coisa que eu temo no Partido Socialista são as votações de 100%», disse o presidente do partido, Carlos César, no final da reunião da Comissão Política que elegeu, no domingo, 19 de abril, o novo Secretariado Nacional, com 90% dos votos, e a Comissão Política Nacional, com 87%.

Estas duas declarações não estão dissociadas e não são antagónicas, pelo menos por agora. O ex-secretário-geral do Partido Socialista regressou e o atual secretário-geral do Partido Socialista não lhe abriu os braços, à cautela, mas também não lhe virou as costas, até porque Pedro Nuno Santos verbalizou e esvaziou a indisfarçável tensão no partido ao dar nome à oposição interna, falando de «taticistas».

Comentadores e jornalistas entram no habitual frenesim da interpretação e colocaram Duarte Cordeiro como o líder dos ‘taticistas’, o que não é completamente honesto, por duas razões: Duarte Cordeiro foi muito claro logo no domingo, quando disse que queria manter a «liberdade para discordar» do líder; e porque Pedro Nuno Santos também disse: «Tenho muito mais respeito pelo José Luís Carneiro do que pelos tacticistas que se escondem atrás da porta à espera que o vento mude a favor do PS ou da esquerda para avançarem para a liderança do partido». E Duarte Cordeiro não se esconde atrás da porta. No limite, há outros destacados nomes no PS que poderiam ter avançado quando Pedro Nuno se demitiu. Ana Catarina Mendes, Fernando Medina ou Mariana Vieira da Silva – Alexandra Leitão estava empenhada na inglória tentativa de conquista de Lisboa – deixaram José Luís Carneiro fazer sozinho o caminho, agremiando tantos quantos pôde das anteriores lideranças – ‘costistas’ e ‘pedronunistas’ – e são quase todos, o que dá maior destaque a Cordeiro; logo, não se esconde.

Carneiro conhece bem o partido que lidera, tem um percurso de formiguinha, prepara-se há anos para ser líder e candidato a primeiro-ministro – e, a menos que algo de muito extraordinário venha a acontecer, assim será. Daqui a três anos, ou ainda antes. Por agora, tem ano e meio, ou mesmo dois, até ao próximo Congresso, para consolidar a liderança. E ainda tem mais uns tijolos para colocar no muro, em junho, com as eleições para as federações distritais.

O SOL sabe que Nuno Araújo, um dos maiores dirigentes distritais do PS, que preside à Federação do Porto e que ficou fora dos órgãos nacionais, está a fazer uma transição pragmática, agora próximo de Carneiro, depois de ter estado muito próximo de Santos.

E Pedro Nuno Santos também conhece bem o PS. Aliás, sentiu na pele os taticismos dos socialistas desde o dia em que foi eleito secretário-geral. Regressou ao Parlamento para dizer ‘o rei vai nu’, ou seja, que não há unanimismo no PS – e que ele não faz parte dessa unanimidade. Vejamos como se liberta das armadilhas da linguagem.

O que o ex-líder também está a dizer é que não será taticista, soprem os ventos a favor ou contra, e dirá coisas como: «Todos somos poucos para combater um Governo que é medíocre, incompetente, que não conseguiu até agora resolver nenhum dos problemas que herdou, agravando alguns, como é o caso da saúde ou da habitação – um Governo que é liderado por gente muito pouco séria». Entretanto, disse, claramente: «Eu sou um social-democrata de esquerda que defende um Estado forte como instrumento do desenvolvimento nacional e como instrumento para travar a apropriação da riqueza gerada por todos por meia dúzia e, portanto, não sou adepto de nenhuma estratégia centrista, nem nunca serei adepto de nenhuma estratégia centrista».

A diversidade no PS tem 53 anos

Voltemos ao presidente do partido, Carlos César, que disse que as eleições dos órgãos nacionais, no domingo, evidenciaram «a unidade forte que hoje tipifica a vida» do PS, «sem prejuízo da diversidade que nos acompanha há precisamente 53 anos».

A diversidade inclui nomes como Pedro Costa, que, a seu pedido, está afastado dos órgãos nacionais, mas não do líder, que acompanhou esta semana numa visita ao Mercado de Alvalade, em Lisboa, altura em que Carneiro sublinhou que: «Não há oposição. Se tivesse havido oposição, tinha havido candidaturas».

Pedro Costa disse ao SOL que Pedro Nuno Santos «regressou de acordo com a sua consciência, para as funções para as quais foi eleito», acrescentando que «falou de acordo com a sua opinião, no seu estilo», mas não percebeu «exatamente a quem se dirigia». Considera a alusão aos taticistas «uma provocação» que não interpreta «como um ataque». Diz ainda: «O que eu sei é que não vejo ninguém a jogar jogos táticos atrás da porta». Para concluir: «O PS é um partido enorme e com grande diversidade de opinião, como os últimos dias mostram».

Uma outra fonte socialista desvalorizou o conflito entre Pedro Nuno e Cordeiro, definindo-o como «um conflito entre irmãos» que vai passar, porque conhecem a tragédia bíblica de Caim e Abel e sabem que estão condenados se insistirem no conflito. A mesma fonte prefere sublinhar que José Luís Carneiro tem agora mais um elemento de oposição no Parlamento. No entanto, fontes próximas do secretário-geral mostram-se pouco preocupadas com a situação. «PNS pode, por vezes, falar com demasiada sinceridade para os hábitos dos tempos cinzentos que vivemos. Mas isso é mais saudável do que uma certa hipocrisia e falta de frontalidade que ferem a saúde de um partido democrático – como é, e tem de ser cada vez mais, o PS», escreveu Porfírio Silva no Facebook. Não se trata de um elogio absoluto ao ex-líder, mas não deixa de ser uma crítica à atual liderança.

«Não vejo que a matéria justifique grandes considerações», disse Sérgio Sousa Pinto, na CNN Portugal. O socialista, muito crítico da liderança de Pedro Nuno Santos, afirmou que «o PS é um partido plural, que sempre conviveu bem com a dissonância de pontos de vista», e lembrou que Pedro Nuno não foi derrotado por Carneiro: «Foi derrotado nas urnas». Acrescentou que a linha que o PS segue agora é outra, «menos ideológica, menos estatista e mais orientada para as prioridades do desenvolvimento económico do país», sublinhando a importância de não confundir a opinião pública sobre a orientação atual do PS, que «é realmente muito diferente». Ainda assim, «há que respeitar o estilo próprio de Pedro Nuno Santos. Somos diferentes uns dos outros e todos cabemos no Partido Socialista».

Mas caber não é ceder. E Carneiro não cedeu ao movimento interno mais crítico, tendo mantido fora dos órgãos nacionais alguns dos seus elementos mais audíveis, também chamados ‘jovens turcos’, como Miguel Costa Matos ou Bruno Gonçalves. Daí que Cordeiro tenha dito não ter visto correspondido «um conjunto de preocupações» e que «não se encaixa» nesta direção do PS.