O que a levou a entrar na política?
Entrei na política por inconformismo. Cheguei a Portugal, construí aqui a minha vida, fiz e criei os meus filhos e fui percebendo que o país tem um potencial enorme, mas está bloqueado por más lideranças, clientelismo, excesso de Estado e falta de coragem. Entrei porque vejo-me com capacidade para dirigir uma equipa competente, patriótica e responsável capaz de fazer brilhar Portugal e com ela os portugueses.
Chegou a ser vice-presidente do Partindo Aliança, partido fundado por Pedro Santana Lopes, e agora é presidente e fundadora da Nova Democracia. Qual a razão para ter tantos seguidores nas redes sociais e esses números não se refletirem em eleições?
As redes sociais dão visibilidade, mas não substituem no imediato o tempo de antena nos media tradicionais. Para conseguir a visibilidade necessária apenas com redes sociais, precisamos de muito mais tempo. Temos uma base real de apoio, que agora tem de ser transformada em confiança eleitoral. A boa notícia é que o tempo político está a jogar a nosso favor, e a confiança está a consolidar-se.
Em 2024 a Nova Direita teve mais 50% dos votos que em 2025. O que está a falhar?
Em 2025 concorremos apenas em parte dos círculos de 2024, num contexto muito polarizado entre voto útil, Chega, AD e PS. Proporcionalmente tivemos o mesmo resultado, não ganhamos nem perdemos. Penso que hoje o eleitorado já percebeu que entretanto os problemas continuam, as divisões à direita acentuaram-se (basta ver o que aconteceu nas presidenciais), e aquela Assembleia da República é um verdadeiro circo onde apenas se discutem egos e escândalos. Nunca foi tão preciso ter uma mulher, uma mãe com coragem para defender as famílias portuguesas.
A Nova Direita é um partido de uma mulher só?
Não. Ninguém faz o trabalho com a intensidade que eu faço sem uma boa equipa por trás. Mas é verdade que, numa fase inicial, a minha figura tem muito peso porque sou eu a porta voz do partido. O desafio agora é preparar os nossos quadros para a exposição pública e mostrar que o Nova Direita é muito mais do que a sua presidente.
Diz que uma das acusações que lhe fazem com mais frequência, é a de que é mulher, negra, e líder de um partido de direita. E que dizem que isso é um contrassenso. Porque acha que dizem isso?
Porque há quem ache que mulheres, negros ou imigrantes têm de pensar todos da mesma maneira. Isso é profundamente paternalista. Eu não aceito que a minha cor, o meu género ou a minha origem determinem as minhas ideias. Sou livre. Sou conservadora porque acredito na família, na responsabilidade, no mérito, na segurança e na liberdade económica. Para além disso só pessoas incultas não sabem o quão conservadoras são as famílias africanas. Eu sou uma versão moderna dos meus pais (risos).
O que pensa quando a mandam para a sua terra e a acusam de ser traidora?
Vivo aqui há mais tempo do que vivi em Angola, os meus filhos são daqui, o meu marido é daqui, trabalho aqui, pago impostos aqui e preocupo-me com o futuro deste país. Traição é vir para cá, beneficiar do país e dizer mal dele ou, no caso dos de cá, atraiçoam o país quando fingem não conhecer a sua história, quando ignoram a dimensão desta nação reduzindo-a um espaço geográfico.
Nasceu em Angola, viveu em França e agora vive em Portugal tendo as três nacionalidades. É conservadora, é contra o aborto, e contra a política de género. Acredita que conseguirá ser eleita nas próximas legislativas?
Encarno aquilo que é uma característica muito portuguesa, isto é, a capacidade de viajar e estar bem em todo o lado, de ser um cidadã útil por onde passo, de deixar um saldo positivo por onde quer que vá. Por isso penso que há vários portugueses que se reveem em mim. Quanto a ser eleita, acredito, mas não por direito adquirido. Acredito se trabalharmos, se estivermos no terreno e se os portugueses perceberem que há uma direita com valores, com coragem e com sentido de responsabilidade. Quanto às minhas posições, nunca as escondi. Defendo a vida, a família e a liberdade dos pais na educação dos filhos. Quem vota em mim sabe ao que vou, não mudei uma posição desde que entrei para a política.
Como encara a subida da extrema-direita?
Quando os partidos tradicionais ignoram problemas reais, como a imigração descontrolada, insegurança, corrupção, escassez de habitação, salários insuficientes, abrem espaço a respostas mais duras. A solução é ouvir o que vai na alma dos eleitores e apresentar respostas sérias. Não há um partido na governação que o esteja a fazer, estou preocupados em manter-se no poder a todo o custo, inclusive através de práticas que lesam a confiança dos eleitores.
Aceitaria entrar no Chega se fosse convidada?
Não. Respeito o Chega, mas o Nova Direita tem o seu próprio caminho. O nosso projeto é independente, conservador, patriótico e reformista e gosto imenso do que estamos a construir.
O que pensa de não ter conseguido os votos dos afrodescendentes?
Não vejo os afrodescendentes como um bloco eleitoral. Essa ideia é redutora. As pessoas votam por convicção, por interesse, por confiança, por identificação. O meu objetivo não é pedir votos com base na cor da pele. É merecer votos com base em propostas que resolvam a vida das pessoas.
Tem falado muito contra a corrupção e sempre apontou o dedo à junta de freguesia de Santa Maria Maior. Como está a ver a Operação Imergente?
Vejo com preocupação, mas também com sentido de confirmação política. Durante muito tempo denunciei práticas, opacidade e uma cultura de poder absoluto instalada em Santa Maria Maior. Agora cabe à justiça investigar de forma independente e mostrar aos portugueses que é justa. Nós já não nos conformamos com espalhafato, queremos punição para quem usa o poder para roubar o fruto do trabalho do povo. Politicamente há uma evidência: o país precisa ser resgatado das mãos do PS e PSD.
Concorda com a construção de mesquitas na Baixa de Lisboa?
Defendo a liberdade religiosa, mas também defendo o respeito pela identidade dos bairros. Qualquer templo, seja mesquita, igreja ou outro espaço religioso, não devem ser construídos em detrimento dos seus moradores. A uns foram expropriados imóveis para o efeito, outros assistem a uma omnipresença de prática religiosa invasiva de tal forma que os exclui do seu próprio bairro. A Baixa não pode ser transformada num gueto religioso ou étnico. Viajo como turista para países muçulmanos, eles são, felizmente para eles, muito protetores da sua identidade.
Recorrendo à IA, e não só, fica a saber-se muito pouco dos negócios que fez antes de chegar à política. Há alguma razão para o secretismo?
Não há secretismo. A minha vida é um livro aberto e tenho muito orgulho no que fiz. Trabalhei, empreendi, umas vezes perdi, outras ganhei, no final o balanço foi positivo e é isto que me permite estar tão a vontade na política. O empreendedorismo deu-me experiência, independência e capacidade de liderança.
Tem quatro filhos, eles não se incomodam com o seu protagonismo? E como reagem aos insultos de que a mãe é alvo?
Como qualquer mãe, preocupo-me com o impacto que esta minha nova vida tem nas deles. Sempre fomos uma família discreta e focada em nós próprios, há aqui uma mudança radical. As mais velhas que têm perfeita noção já sabem distinguir crítica política de ataque pessoal. Naturalmente, os insultos magoam, sobretudo quando são dirigidos à família. Mas somos cristãos e acreditamos que se estou nisto é porque há uma missão a cumprir. Como eu, nada temem.
É sportinguista ferrenha, já lhe passou o desgosto da final da Taça de Portugal?
A um sportinguista verdadeiro o desgosto nunca passa totalmente, apenas transforma-se em esperança para a época seguinte. Estamos habituados a não ganhar sempre. O Sporting faz parte desta forma apaixonada de ser português: sofrer, acreditar e sofrer novamente. Além disso, o clube estava a precisar de um abre olhos, logo esta derrota foi na realidade uma oportunidade. Em todo o caso espero que tenha sido.
Gastronomicamente falando, que pratos gosta mais em Angola, França e Portugal?
De Angola, gosto muito de funge acompanhado de qualquer molho. De França, gosto da cozinha tradicional, por exemplo uma bouché à la reine e uma tarte tatin. De Portugal, sou apaixonada por todas as receitas de bacalhau, cozido à portuguesa e claro peixinho grelhado.
Quais os restaurantes preferidos nos três países?
Em Angola, gosto da comida da minha mãe, mas quando lá estou também vou aos restaurantes da ilha de Luanda que são incríveis. Em França, aprecio bistrôs tradicionais, onde a cozinha é simples mas bem feita. Em Portugal, gosto muito de restaurantes portugueses autênticos, mas também vou aos modernos e trendy com um serviço impecável. Mas a melhor cozinha é a da minha casa, acompanhada da minha família. Todos somos apreciadores de boa comida.