quarta-feira, 09 set. 2026

O think tank que Carneiro acolhe, mas que pode agitar o PS

Nasceu esta semana pela mão do deputado socialista Miguel Costa Matos, mas o Instituto Progresso já reúne assinaturas do PSD, como as de Mónica Quintela e Rui Silva Leal. O fundador garante que o projeto ‘vai além do PS’, mas a maior agitação é entre os socialistas.
O think tank que Carneiro acolhe, mas que pode agitar o PS

Nasceu esta semana, e a mensagem de quem o lidera é simples: o mais relevante sobre o Instituto Progresso ainda não foi escrito, porque está por fazer. Desde o lançamento, a meio da semana, o deputado socialista Miguel Costa Matos - presidente e fundador do think tank - tem multiplicado entrevistas para explicar as ambições do projeto, que quer «assegurar que o país não se fica pelas boas ideias?» e «pode realmente dar um passo em frente». A marca identitária, insiste, está na ação: «Queremos mais do que ser um ‘discussion tank’, queremos ser um ‘do tank’». Tem repetido também que o campo progressista que o Instituto quer representar «vai além do PS» e se estende «desde uma ala humanista do PSD até mais além ao Livre». É, define, «um espaço plural e aberto a várias sensibilidades partidárias e com muitos independentes», sublinhando que não fiscaliza «os cartões de militante à entrada».

Sobre a génese do projeto, revelou que se trata de «uma ideia antiga», que vem desenvolvendo há tempo, e que foi discutida previamente com José Luís Carneiro, mas também com Rui Tavares e Jorge Pinto, do Livre - reforçando o argumento de que não nasceu como uma iniciativa interna do PS, ainda que o secretário-geral socialista tenha sido um dos primeiros a ser informado.

Essa informação prévia não era garantia de nada: o Instituto nasce em grande parte de dentro do PS e é liderado por um deputado que, no último Congresso Nacional do partido, em Viseu - o mesmo que confirmou Carneiro na liderança -, levou a votos uma moção crítica da estratégia de oposição do secretário-geral. A reação de Carneiro era, por isso, o elefante na sala. Mas o líder socialista optou por travar qualquer leitura de rutura ou ameaça interna: em declaração ao Observador, disse acolher «com satisfação e expectativa» o Instituto Progresso - e sabe-se que foi o próprio Carneiro quem indicou um nome da sua direção para integrar o think tank, o de Luís Soares, seu chefe de gabinete.

«A grande notícia é mesmo a de que o Instituto Progresso nasceu e veio para ficar», disse ao SOL José Pedro Mozos, da direção do think tank, com a promessa de dar, em breve, «o retrato mais completo e claro possível» sobre o projeto, que tem a conferência inaugural marcada para 19 de setembro, em Lisboa.

Há «uma nova geração para liderar o debate» - e mobilizar eleitores - que agita os nomes de Duarte Cordeiro, Mário Centeno e, na medida do possível, o de António José Seguro, com quem assumem a ligação que o Presidente da República lhes permite, também porque, entre os fundadores, estão nomes do inner circle presidencial. Outras surpresas, ou irritações, podem vir dos nomes do PSD que se juntam à iniciativa - um partido que, tal como o PS, vive uma intensa crise intelectual e ideológica. O SOL sabe que, entretanto, há mais duas figuras do PSD, Mónica Quintela e Rui Silva Leal, que se juntam a Adão Silva e Duarte Pacheco.

A criação do Instituto não nasce de um diagnóstico catastrofista sobre Portugal, garante Mozos. Pelo contrário: os fundadores rejeitam falar de «falhanços» e sublinham que o país é «estável, democrático, europeu e com uma economia que cresce». O problema, dizem, é outro - «o progresso que o país produz não está a chegar com a mesma força à vida das pessoas». No topo das prioridades colocam a produtividade e os salários, o custo de vida, a saúde, a habitação e a dificuldade em transformar conhecimento e tecnologia em crescimento; e, de forma transversal, apontam a erosão da confiança nas instituições e a incapacidade de os políticos pensarem além do ciclo eleitoral seguinte.

Mozos não ignora a genealogia partidária do projeto: «Há pessoas com ligação ao PS, incluindo membros da sua Direção, e há pessoas que trabalharam com António José Seguro e que se juntam ao Instituto a título pessoal, assim como pessoas próximas do PSD ou da direção do PS», admite, mas insiste que daí não decorre «qualquer ingerência partidária».

Essa reivindicação de independência é posta à prova pelos números. O manifesto fundador reuniu mais de 170 subscritores iniciais - entretanto cerca de 200 -, com maioria de socialistas e antigos quadros dos governos de António Costa: Duarte Cordeiro, Pedro Costa, o vice-presidente da bancada parlamentar do PS António Mendonça Mendes e a líder da Juventude Socialista, Sofia Pereira, são alguns dos nomes. Mas a lista estende-se a outros quadrantes: o deputado do Livre Paulo Muacho, o dirigente do Bloco de Esquerda Vasco Barata, o independente Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras, o antigo diretor-executivo do SNS Fernando Araújo, o antigo bastonário da Ordem dos Farmacêuticos Aranda da Silva e o antigo bastonário da Ordem dos Psicólogos Francisco Rodrigues. A mesa da instituição é presidida por Maria Manuel Leitão Marques. Centeno, apontado como possível sucessor de Carneiro na liderança do PS, deverá marcar presença na conferência de 19 de setembro.

Se a relação com o PS é a mais óbvia, é a que se estabelece com o Presidente da República que mais interroga o Instituto. O progressismo que o movimento reivindica é assumidamente moderado - «sem ruturas radicais», mas também contra o imobilismo -, uma fórmula que ecoa deliberadamente o estilo do atual chefe de Estado. A direção do think tank recusa qualquer associação institucional, mas reconhece o que não pode ser ignorado: o resultado das últimas presidenciais. Na segunda volta, o eleitorado rejeitou claramente o espaço do radicalismo e deu uma maioria muito expressiva a uma candidatura moderada - Seguro foi eleito com mais de três milhões de votos e cerca de 67% dos sufrágios. «Nós ouvimos essa mensagem e estamos a responder à chamada desse eleitorado», resume Mozos.

Está ainda prometida, sem data marcada, uma audiência em Belém com membros da direção do movimento. É um fio que o Instituto evita puxar publicamente, mas que assinalamos como um dos ângulos mais sensíveis do projeto: um think tank nascido no PS com uma proximidade discreta e crescente ao Presidente da República - que, como secretário-geral do PS, promoveu o LIPP (Laboratório de Ideias e Propostas para Portugal), pensado para reunir personalidades partidárias e independentes na construção de propostas de médio e longo prazo (incluindo o programa eleitoral para as legislativas de 2015). É a mesma lógica do agora criado Instituto Progresso.

«Temos de rejeitar uma grelha de análise que é muito utilizada para perceber movimentos dentro dos partidos e aplicá-la a uma instituição que não é um partido, que não pertence a nenhum partido, nem quer ser confundida com um partido», diz Mozos. A presença de dirigentes do PS é apresentada como prova de pluralidade, não de ingerência: o Instituto garante não estar a disputar uma liderança partidária, não preparar qualquer candidatura e não fazer oposição interna a ninguém. «O nosso calendário não é o calendário dos partidos. José Luís Carneiro passará. Montenegro passará. Os próximos líderes partidários passarão. Os próximos primeiros-ministros passarão. O Instituto Progresso continuará cá», profetiza Mozos.

Também o financiamento de um projeto que a própria direção reconhece ser «ambicioso» segue essa lógica de blindagem à interferência externa. O modelo assenta, por agora, nas quotas dos associados fundadores, mas Mozos admite que o horizonte é mais amplo: donativos dos que se vierem a juntar, complementados por apoios de think tanks progressistas internacionais - ainda a ultimar - e por conversas em curso com empresas nacionais interessadas em participar na construção do projeto, informação que promete ser publicada oportunamente no site oficial do Instituto. A regra, resumem, é simples: «Quem financia o Instituto não compra as suas conclusões».

Entre o PS que o viu nascer, o PSD que lhe emprestou duas assinaturas, e um Palácio de Belém que parece observá-lo com simpatia mas sem se comprometer publicamente, o Instituto Progresso arranca com a ambição de sobreviver a todos os ciclos políticos que o rodeiam - ainda que o seu líder tenha tudo para ser protagonista do próximo ciclo, o que não depende só dele, mas também de Duarte Cordeiro... ou de Centeno.

Uma coisa parece evidente: há seis anos, o Chega deu início em Portugal a uma reconfiguração do sistema partidário que está longe de estar consolidada, e nesse caminho os partidos tradicionais são os que mais têm a perder. O Instituto Progresso tem, quase tudo, para perturbar seriamente a paz interna do PS - diga-se o que se disser, publicamente.