quarta-feira, 11 fev. 2026

O tentador fracasso dos movimentos pós-eleições

Na campanha para a 1.ª volta, Gouveia e Melo chegou a admitir lançar um movimento cívico, mas, agora, foi Cotrim de Figueiredo quem anunciou o seu Movimento 2031. Já Freitas do Amaral e Alegre tiveram iniciativas idênticas no passado.
O tentador fracasso dos movimentos pós-eleições

Henrique Gouveia e Melo decidiu-se esta semana pelo previsível apoio a António Seguro, numa breve nota a que o SOL teve acesso, escreve: «Avaliando o posicionamento dos candidatos, e na convicção de que um se procura afirmar sobretudo como alternativa governativa, o meu voto útil será no Dr. António José Seguro». Ainda em tempo de campanha para a primeira volta, em que obteve quase 700 mil votos, correspondentes a 12,14% da votação total, Gouveia e Melo colocou a possibilidade de criar um movimento cívico, provocando alguma confusão que se apressou a esclarecer, dizendo que não queria criar um partido político à maneira de Ramalho Eanes (PRD).

Na declaração de voto de apoio ao candidato que ficou em primeiro lugar na primeira volta, afirma: «Assisto, com preocupação, ao empobrecimento do debate político e ao afastamento crescente de muitos cidadãos da democracia», mas não menciona qualquer intenção de criar um movimento cívico.

Das presidenciais de 2026, está confirmado que saiu o Movimento 2031, criado por João Cotrim de Figueiredo, a partir da leitura simples de que há que tornar útil os quase 900 mil votos arrecadados, o que corresponde a 15,65% da votação total da primeira volta presidencial, realizada a 18 de janeiro. Cotrim ficou em terceiro lugar, com a mesma diferença de votos que separou Ventura, em segundo, de Seguro, em primeiro, cerca de 400 mil votos. Garantidamente, Ventura não terá a tentação de criar um movimento, uma vez que é cumulativamente líder do Chega, o segundo partido com representação parlamentar, que ultrapassou pela direita o PS e é agora líder da oposição. O sistema partidário tem sofrido alterações visíveis nos últimos anos, e estas têm acontecido preferencialmente no espaço da direita.

Dentro desse espaço, Cotrim de Figueiredo justificou a necessidade de não ‘desperdiçar’ o capital político dos «que aderiram em massa a uma forma de fazer política mais positiva, mais otimista, exigente e com mais ambição, [e que] não fiquem sem um sítio onde possam manter aquela energia e vontade de colaborar e participar», e fez questão de enfatizar que é um movimento «cívico-político apartidário», que «não é um partido político». Esta semana, Ventura acusou «João» de ser «egocentrista» e de ter criado um movimento de «que ninguém quer saber durante a campanha para as presidenciais» e que «ninguém ouviu».

Ainda assim, não é coincidência que a iniciativa seja designada por Movimento 2031, ano em que Cotrim de Figueiredo terá 69 anos e em que o país irá de novo a eleições para escolher o mesmo ou outro Presidente da República. Seria a primeira vez na história da III República que um Presidente não seria reeleito, mas há uma primeira vez para tudo, e é legítimo antecipar que isso possa acontecer, e que Cotrim, que captou um considerável voto dos jovens - muitos deles desviados de Ventura -, antecipe essa possibilidade.

O ‘eanismo’ e Eanes

Quem antecipou a possibilidade de um Presidente da República transformar o capital político em partido foi Mário Soares, quando desalinhou com o PS e se autossuspendeu da liderança do partido quando este apoiou a reeleição de Eanes, em 1980. Eanes foi eleito Presidente em julho de 1976, com 62% dos votos, numa campanha que teve um momento dramático: um tiroteio em Évora, cidade dominada pelo PCP, do qual o candidato não só saiu ileso, como subiu para o tejadilho de um carro, desafiador, dando o peito às balas. Eleito, o general passou a acumular, como Presidente, um poder relevante: podia demitir e nomear governos - entre 1978 e 1979 surgiram ‘governos de iniciativa presidencial’ - e dissolver a Assembleia da República (em 1979, 1983 e 1985).

Em 1980, a Aliança Democrática confrontou Eanes, na reeleição, com outro general, Soares Carneiro. O incumbente ganhou com 56% dos votos, contra 40% de Carneiro. Embora hoje a imagem seja outra - mais conciliadora e tranquila, de referência -, na altura Eanes esteve quase sempre em tensão com os líderes do PS e do PSD, ou seja, com Soares, Sá Carneiro e depois com Pinto Balsemão. A irritação era tal que Eanes foi ‘cancelado’ na cerimónia pública de assinatura do Tratado de Adesão à CEE, em junho de 1985.

A partir do Palácio de Belém, Eanes transformou o ‘eanismo’ no Partido Renovador Democrático (PRD). O ‘partido presidencial’ concorreu às legislativas de 1985 e obteve a significativa votação de 18%, e o Parlamento deu espaço aos 45 deputados do novo partido, que passou a ser a terceira força política, muito à custa do PS, entretanto liderado por Almeida Santos, sendo que o PRD nunca deixou de ser um partido vagamente moralista, muito provinciano e lamentavelmente oportunista.

O país tinha então (1983-1985) um impopular governo de Bloco Central, do PS e PSD, liderado por Mário Soares, com Carlos Mota Pinto como vice-primeiro-ministro (e depois Rui Machete), e uma plêiade de nomes dos dois partidos, como Jaime Gama, Almeida Santos, Êrmani Lopes, Álvaro Barreto, Ferreira do Amaral, António Capucho e Francisco Sousa Tavares.

A partir daqui apressamos a história: Eanes dissolve a Assembleia da República, em julho, o governo liderado por Mário Soares cai, há eleições em outubro, o PSD, liderado por Cavaco Silva, com 29% dos votos, é o partido mais votado e forma Governo. Mário Soares é eleito Presidente da República, sucedendo a Eanes, em 1986. A partir de 1987, contra o PSD, forma-se uma espécie de coligação que anos depois ficaria conhecida por ‘geringonça’: PS, PRD e PCP. O desfecho é igualmente conhecido: Soares dissolve o Parlamento, Cavaco Silva, nas eleições subsequentes, obtém maioria absoluta, e o PRD implodiu, levando consigo o ‘eanismo’. Mas não Eanes, que apoiaria a candidatura presidencial de Cavaco Silva em 1996, numa primeira tentativa do ex-primeiro-ministro para chegar ao Palácio de Belém, e em que foi derrotado por Jorge Sampaio à primeira volta. Cavaco chegou a Belém 2006 com o apoio de Eanes.

A tentação de Alegre

Nesse mesmo ano, quando Cavaco venceu com 49,71% - mais de dois milhões e setecentos mil votos -, ficou em segundo lugar, com 20,31%, o que correspondeu a cerca de um milhão e 100 mil votos ‘contraventos e marés, contra tudo e contra todos’, Manuel Alegre.

Alegre candidatou-se a uma eleição presidencial em que disputou votos com outro socialista, Mário Soares, que ficou em terceiro lugar, com 14,08%, cerca de 700 mil votos. Alegre transformou ‘o seu milagre cívico’ num movimento, também contra o PS, liderado por José Sócrates.

Esta semana, falamos com Inês Pedrosa, que lembrou isso mesmo: «Ainda fizemos um movimento, que fez uma legislação - a legislação que temos hoje sobre igualdade de direitos entre mães e pais -, foi iniciada nessa altura, porque o Alegre era deputado e, portanto, fizemos assim um entorno legislativo de forma a interessá-lo por determinados assuntos que eram também da candidatura, mas que se esgotou ali». O Movimento de Intervenção e Cidadania (MIC), criado por Manuel Alegre após as presidenciais de 2006, durou até 2009, sendo que Alegre se manteve como um deputado muito crítico eleito pelo PS. Em 2011, volta a candidatar-se, apoiado pelo PS e pelo BE, obtém 14,9% dos votos, na eleição presidencial que dá a vitória a Cavaco Silva. Em 2024, é eleito presidente honorário do PS, por proposta de Pedro Nuno Santos; em 2026, apoia Seguro.

Uma fundação para o séc. XXI

Voltamos a 1986 e à primeira segunda volta de umas presidenciais, tema lembrado por estes dias de forma exaustiva. Mário Soares ganhou com 50,80% e Freitas do Amaral ficou em segundo, com 48,27%, o que correspondeu a cerca de dois milhões e oitocentos mil votos - Soares arrecadou cerca de três milhões.

Com o significativo capital político - e, repara-se, bastante substantivo -, Freitas do Amaral criou a Fundação Portugal Século XXI, que realizou algumas conferências e rapidamente se extinguiu. Em 2005, Freitas do Amaral viria a ser Ministro dos Negócios Estrangeiros de um Governo liderado por José Sócrates, e a sua aproximação aos socialistas entrou no anedotário político nacional com o envio, pelos CTT, do quadro do fundador do CDS, que estava na sede nacional do partido, no Largo das Caldas, para o Largo do Rato, sede do PS, onde permanece. Uma «garotice mal-educada», disse na altura Freitas, de um partido que, nos dias de hoje, também corre risco de extinção.

Cotrim aposta no Movimento 2031 para conduzir uma nova geração que não se revê nos partidos tradicionais - e é evidente que são muitos. Numa versão otimista, o movimento chegará a 2031. Também porque, para Cotrim, e já dizia Oscar Wilde, «a única maneira de libertar-se de uma tentação é entregar-se a ela».