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Catorze anos após a morte de Miguel Portas, a sua mãe, Helena Sacadura Cabral, assinalou a data nas redes sociais com uma mensagem que oscila entre a serenidade conquistada à custa de muito tempo e uma mágoa que, confessa, nunca desapareceu por completo.
"A 24 de Abril de 2012 morria, nos meus braços, o meu filho Miguel", escreveu a escritora, descrevendo um percurso de vida que começou cedo e de forma intensa. Miguel Portas tinha apenas 12 anos quando a política passou a dominar as suas prioridades, uma escolha que a mãe recebeu com reservas, sem nunca deixar de a respeitar. "Não foram fáceis esses anos de 'esquerda', em que os estudos ficavam sempre em segundo lugar", admitiu Helena Sacadura Cabral.
Cofundador do Bloco de Esquerda e figura central da esquerda portuguesa durante décadas, Miguel Portas morreu a 24 de abril de 2012, de cancro do pulmão, com 53 anos, quase a fazer 54. Deixou dois filhos.
Uma morte que nunca foi só da família
A parte mais crua da mensagem de Helena Sacadura Cabral não é a dor pela perda em si, mas a forma como essa perda foi vivida, ou não pôde ser vivida, na intimidade que lhe era devida. "O seu partido político apossou-se, verdadeiramente, da sua morte", escreveu, numa afirmação que explica, segundo ela própria, o facto de só ter conseguido chorar o filho verdadeiramente anos mais tarde. "Para toda a gente, a morte constitui o ato mais privado de uma família", sublinhou.
A escritora não aponta nomes nem desenvolve a crítica, mas a sua contenção diz tanto quanto as palavras que escolheu. A exposição pública que envolveu a morte de Miguel Portas retirou à família o espaço de luto que considera inviolável.
O pedido que a orientou
Há, porém, um fio condutor que atravessa toda a mensagem de Helena Sacadura Cabral e que lhe confere uma tonalidade diferente da simples evocação da perda. O último pedido do filho foi claro: que ela não se tornasse uma "mãe chorosa" e que avançasse com a vida. "Foi o que fiz e continuo a fazer", garantiu.
É nessa dualidade, entre a mágoa que persiste e alguma paz que foi construindo, que define o retrato que faz do filho, 14 anos depois. "Reconheço que foi feliz por ter vivido a vida que quis, como quis e com quem quis. Por muito que me tenham doído algumas escolhas que fez, o meu coração vive apaziguado pela sua felicidade", concluiu.