O candidato do PS ganhou as eleições com mais de 3 milhões de votos. O que demonstrou o povo português?
O candidato foi o candidato apoiado pelo PS, mas não foi o candidato do PS. Só quem não esteja atento a como as coisas se passam é que pode usar uma expressão dessas. Sou um PS indefetível. O mérito desta vitória é sobretudo do candidato e há também uma componente de demérito do adversário nesta segunda volta, que não deve ser diminuída, até porque é muito positiva para o país e para a nossa vida cívica e política. Os portugueses com esta vitória que dão a António José Seguro fazem um ato de justiça em relação a alguém que em alguns momentos da sua vida política foi tão maltratado e tão injustamente tratado.
O seu pai dizia que Seguro era um homem frouxo, no PS Augusto Santos Silva, Isabel Moreira...
Oiça, primeiro não misture o meu pai com a Isabel Moreira, ou mesmo com o Augusto Santos Silva, que aprecio muito do ponto de vista intelectual. E depois o meu pai também teve momentos em que foi menos agradável e em que terá cometido injustiças em relação a algumas pessoas. E esse é claramente um momento em que ele não foi justo com António José Seguro e em que eu não estive com ele. Apesar de ter a maior ternura e a maior admiração pelo meu pai, que teve, no essencial, certo em relação aos valores fundamentais que têm a ver com a liberdade, com a paz, com a democracia, com o respeito dos direitos humanos, também cometeu injustiças. E esse foi um dos casos claros para mim em que ele cometeu uma injustiça. Uma injustiça na avaliação de uma pessoa, no caso o meu estimado amigo António José Seguro. Que aliás foi sempre, sublinho, alguém que esteve com ele. Nas batalhas do Partido Socialista. Foi inclusivamente, penso que seu mandatário de juventude na primeira eleição presidencial. Não tenho a certeza, mas penso que sim. E depois, sobre quem ele teceu e eu ouvi-o tecer, em privado e em público, as melhores considerações quando ambos foram colegas no Parlamento Europeu. O António José Seguro foi o número 2 numa lista encabeçada pelo meu pai ao Parlamento Europeu, já muito depois de deixar de ser Presidente da República, durante a liderança de António Guterres. E a relação entre eles aprofundou-se nessa presença comum durante algum tempo no Parlamento Europeu e ouvi-o tecer os maiores elogios a António José Seguro. É sempre bom, para criar primeiras páginas ou factos políticos, ir buscar pequenas frases mais ou menos infelizes desta ou daquela personalidade, mas isso não tem nada a ver com o essencial.
O seu pai já tem um jardim com o seu nome em Paris. Acredita que Cunhal algum dia terá um?
Foi uma coisa que pedi explicitamente à maire de Paris, Ana Hidalgo, que é uma pessoa por quem tenho uma profunda admiração, que atribuiu o nome do meu pai a um jardim que não tinha nome, um pequeno jardim, mas muito bonito. E não lhe pedi que desse o nome de Álvaro Cunhal a um jardim em Paris, mas pedi-lhe que fizesse também uma homenagem a Álvaro Cunhal, que como nós sabemos, o PCP não adianta muitos detalhes sobre essa matéria por razões que são conhecidas, mas o Álvaro Cunhal viveu o essencial do seu longo tempo de exílio em Paris. Depois da fuga de Peniche e de um ano ainda clandestino no interior de Portugal, saiu para a União Soviética, mas depois percebeu que não podia dirigir um partido ativo do lado de lá da cortina de ferro, ou do muro da vergonha, como se dizia na altura. E foi para Paris de onde dirigiu um partido muito dinâmico, como foi nessa altura o Partido Comunista Português. Tenho um fascínio pela personalidade do Dr. Álvaro Cunhal, que conheci muito escassamente, mas a quem tive o prazer e a honra de apertar a mão por uma ou duas vezes.
É curioso essa sua forma de estar, isto é, sabendo que Cunhal foi um radical, pode dizer-se que foi coerente, obviamente, mas era um homem que não defendia o modelo de sociedade que o João Soares defende?
Claro que não, mas não tenho que me identificar com toda a gente. O doutor Cunhal foi, goste-se ou não dele, uma personalidade muito importante do século XX português. Com quem o meu pai ombreia, e com quem talvez só, do ponto de vista da presença na vida política e cívica portuguesa, António de Oliveira Salazar pela negativa, também possa ombrear, e isso não me impede de manifestar as minhas divergências, quer com Salazar, quer com Cunhal. Voltando mais uma vez a não os comparar, porque o Cunhal foi posto à prova em termos de coragem política e física muitas vezes, e saiu sempre com honra, nomeadamente quando teve que fugir de uma cadeia onde estava preso há 11 anos, 7 ou 8 dos quais solitários, e isso merece admiração em função das suas convicções, além de que era um intelectual de categoria. Foi um homem que traduziu na cadeia, quando estava em solitário na penitenciária, Shakespeare, e foi um homem que deixou uma obra, que do ponto de vista literário e histórico é uma obra interessante. Sou tão anticomunista como antifascista, se quiser, porque de facto o balanço daquilo foi uma coisa terrível, não em Portugal, felizmente. E honra seja também ao Dr. Cunhal que em momentos decisivos, nomeadamente no 25 de Novembro, evitou a Guerra Civil.
Mas também honra seja feita a seu pai.
Claro que sim, o meu pai é a grande figura civil do 25 de Novembro, e é seguramente uma das grandes figuras civis do 25 de Abril, repare, os grandes exilados portugueses estavam quase todos em França, o meu pai é o primeiro a regressar, e regressa de comboio.
Concorda com as mulheres na maçonaria?
Claro que sim, então se o princípio da igualdade é um princípio fundamental da maçonaria deve haver igualdade. Deve haver igualdade e igualdade entre sexos. Essa é uma luta fundamental que fazem os progressistas e os socialistas como eu.