‘O lóbi do betão até saliva’. Movimento nacional contesta obras megalómanas em Lisboa

Continua a crescer a subscrição à carta aberta ao poder político do Círculo de Estudos do Centralismo (CIC), que alerta para os riscos da concentração de investimentos megalómanos na área metropolitana de Lisboa.
‘O lóbi do betão até saliva’. Movimento nacional contesta obras megalómanas em Lisboa

O principal risco é macroeconómico. «Com esta aposta no betão, em lugar de investirmos em setores com potencial de exportação, podemos ir a caminho de um novo resgate financeiro», avisa o economista Abel Mateus, um dos novos subscritores. «Tantos investimentos ao mesmo tempo, no mesmo local, deixam-me indignado. Então, os outros 90.000 km² não existem? Os 8 milhões e meio de pessoas que vivem fora da Área Metropolitana de Lisboa não existem?», pergunta Daniel Bessa. «O lóbi do betão até saliva», declara o ex-ministro da Economia, nos governos de António Guterres.

O documento começou por ser assinado por 25 personalidades, entre as quais seis antigos ministros: Arlindo Cunha, Carlos Tavares, Daniel Bessa, Elisa Ferreira, Isabel Pires de Lima e Miguel Cadilhe. Nesta altura, já conta com 103 assinaturas. O físico Carlos Fiolhais, o empresário José Roquete, o especialista em aviação Pedro Castro e o presidente do banco BiG, Carlos Rodrigues, também aderiram nas últimas semanas.

O documento põe em causa a credibilidade do estudo da Comissão Técnica Independente (CTI) que recomendou a construção de um mega-aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete. «Em primeiro lugar, essa comissão não era independente», comenta Abel Mateus. No seu parecer, o estudo económico das grandes obras públicas deveria ser sempre encomendado a peritos internacionais com experiência. Como economista sénior do Banco Mundial, trabalhou em múltiplas análises de custo-benefício (ACB). «Conheço bem as regras e é evidente que não foram seguidas no estudo da CTI», declara Abel Mateus. A CTI rejeitou fazer contas aos custos da nova ponte sobre o Tejo, da alta velocidade e dos acessos rodoviários ao aeroporto, em flagrante violação do Manual de ACB da Comissão Europeia. «Tal limitação introduz uma vantagem relativa das opções Alcochete e Vendas Novas», ficou consignado no relatório final, por imposição de Carlos Oliveira Cruz, professor do Instituto Superior Técnico (IST) contratado para fazer esse trabalho para a CTI.

A carta do CIC – dirigida ao Presidente da República, presidente da Assembleia da República e primeiro-ministro – denuncia o caráter fantasioso das projeções de passageiros no aeroporto de Lisboa. Nas contas da CTI, o novo aeroporto irá atrair entre 66 milhões e 108 milhões de passageiros já em 2050. Ou seja, no mínimo, o dobro dos atuais. Em 2086, serão entre 111 e 142 milhões. «Andamos a infantilizar as pessoas com estas mistificações», critica Daniel Bessa. «Não posso deixar de me perguntar: de onde é que vêm esses passageiros todos? Alguém tem obrigação de me responder, porque eu também vou pagar», sentencia este economista.