O 10 de junho é hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Mas nem sempre foi assim. Durante décadas, o mesmo feriado teve um nome diferente e o seu significado foi mudando ao longo de mais de um século de história portuguesa.
Tudo começou com um poeta
A data foi escolhida por assinalar a morte de Luís Vaz de Camões, a 10 de junho de 1580. Autor de Os Lusíadas, o poeta é considerado um dos maiores vultos da língua portuguesa. A consagração definitiva do dia como feriado nacional aconteceu em 1925, com a criação da chamada "Festa de Portugal".
O Estado Novo e a "Raça"
Com a ascensão do Estado Novo, em 1933, as comemorações ganharam outra dimensão. O regime usou a figura de Camões num registo mais nacionalista, e a designação foi evoluindo até ao nome pelo qual ficou mais conhecido durante o regime: Dia de Camões, de Portugal e da Raça. A expressão ficou associada a Salazar em 1944, quando o presidente do Conselho presidiu à inauguração do Estádio Nacional do Jamor, a 10 de junho desse ano, numa cerimónia com mais de 60 mil pessoas. A partir de 1963, a data passou também a incluir uma homenagem às Forças Armadas, num contexto de guerra colonial.
Depois do 25 de Abril
Com o fim do regime, o feriado foi renomeado. Em 1978, passou a chamar-se oficialmente Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, passando a incluir a diáspora como parte central da identidade que a data pretende celebrar.
A polémica de 2008
Trinta e quatro anos depois do 25 de Abril, a expressão "Dia da Raça" voltou ao debate público. Em Viana do Castelo, durante as comemorações oficiais do 10 de junho de 2008, o então Presidente da República Cavaco Silva, questionado pelos jornalistas sobre a paralisação dos camionistas, respondeu: "Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas"~.
A declaração gerou reações imediatas. O Bloco de Esquerda e o PCP pediram esclarecimentos ao Chefe de Estado, considerando que a designação estava associada à terminologia do anterior regime. O deputado e historiador Fernando Rosas defendeu que o Presidente devia uma explicação ao país. O PCP admitiu que se tratou de um "lamentável erro de linguagem", mas considerou a afirmação incompatível com os valores democráticos. Cavaco Silva não prestou esclarecimentos públicos sobre o assunto.
2026: os Açores no centro
Este ano, as comemorações têm um enquadramento particular. O Presidente da República António José Seguro escolheu a ilha Terceira, nos Açores, para receber os festejos oficiais, numa edição que coincide com os 50 anos das autonomias regionais. As comemorações estendem-se também ao Luxemburgo, país com uma das maiores comunidades portuguesas na diáspora.