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O que pensa do Movimento 2031 criado por João Cotrim Figueiredo?
Inútil, mesmo para quem acredite naquilo, já que sabemos do passado que movimentos assentes em candidaturas presidenciais não sobrevivem. Para os distraídos, poderá ser surpreendente tratando-se de um eurodeputado de um partido político. Ele, de resto, faltou às responsabilidades para as quais foi eleito para andar, com mau perder, a fazer essa campanha a pedir assinaturas por cima da segunda volta das eleições presidenciais.
Qual a diferença entre um Movimento e um partido? Ou melhor, qual a razão para quem foi líder de um partido querer voltar à política nacional pela ‘porta’ do Movimento?
Isso tem de lhe perguntar a ele. Há anos que aviso que a IL se tornou na Iniciativa Feudal: um projeto de poder pessoal de um egomaníaco que promove um culto de personalidade e não hesita em recorrer à demagogia e em perseguir os seus adversários — a começar pelos internos. Tudo comportamentos nada liberais. Custa-me ver tanta gente a cair nessa banha da cobra, inclusivamente pessoas que deveriam ter mais sobriedade. Percebo que sentem que é preciso fugir dos vícios da política partidária habitual, mas é mesmo neles que estão a cair sem se aperceberem, ignorando os sinais de alarme que se acumulam.
Foi muito questionado pelos seus colegas sobre a primeira volta das Presidenciais? Estranharam a passagem de André Ventura?
Portugal é um país insignificante, que interessa a pouca gente fora de Portugal. Posso dizer que eu não estranhei; aliás, digo há anos (está documentado noutras entrevistas) que muito provavelmente o Chega virá a ser o partido mais votado em legislativas. A falta de instinto de sobrevivência do PSD é caso de estudo, e parece quase certo que André Ventura será PM ou vice-PM nos próximos anos. Isto é apenas uma previsão, sem conteúdo normativo.
O sucesso do seu livro As Causas do Atraso Português não o ‘incentivou’ a ter um papel mais ativo na vida política portuguesa?
Sou académico, não quero ser político. O papel que faço é o de observar e pensar sobre as matérias com mais profundidade do que a habitual — o que, de resto, não é difícil, dada a pobreza do debate público em Portugal. Do ponto de vista intelectual, o país é asfixiante.
Falando de temas internacionais, como acha que vai ficar a configuração do mundo nos próximos anos?
É uma questão complexa, à qual não é possível dar uma resposta simples. Um dos factos mais importantes que está a acontecer a nível global é a rápida queda do número médio de filhos por mulher, fenómeno que se verifica em quase todos os países do mundo, até nos mais pobres. Isso terá implicações vastas e será, sem dúvida, um dos aspetos que irão definir o tempo presente.
Qual o futuro da Europa?
É difícil ser-se otimista quanto ao futuro da Europa, e em particular ao da União Europeia, que está em claro declínio, até porque não se quer reformar. O meu próximo livro aborda estas questões; a edição portuguesa deverá ter o título O vício dos fundos europeus: as consequências da política de coesão e porque deve terminar. Está a ser traduzido e será publicado em Portugal pela LeYa / D. Quixote.
Acredita que estamos a assistir a umas Contra Cruzadas?
Essas existiram: foram a guerra de reconquista muçulmana, ou seja, as respostas militares do mundo islâmico para repelir as invasões cristãs, por exemplo com líderes como Saladino, que reconquistou Jerusalém em finais do século XII. No nosso tempo, estamos a assistir a um fenómeno muito diferente — penso que é a isso que se refere. O próprio sucesso económico das sociedades ocidentais, que assenta num conjunto de valores e instituições políticas que evoluíram ao longo de séculos, tem atraído para essas sociedades pessoas vindas de outras que, muitas vezes, não partilham esses princípios e não têm qualquer desejo de verdadeiramente se integrarem, aceitando esses valores. (Ou, por vezes, existe essa tentativa por parte da primeira geração, mas menos por parte das imediatamente seguintes, já cidadãos nacionais, o que complica a matéria.) Tudo isto só tem sido possível, na escala em que se tem verificado, devido à cumplicidade de segmentos da própria sociedade ocidental, o que me leva à sua pergunta seguinte.
Acredita que o wokismo está em regressão?
Na maior parte dos países ocidentais, está mais forte do que nunca: na academia, na política, e nos debates e espaços públicos (por exemplo, museus). É uma ameaça existencial à sobrevivência dos valores ocidentais. O objetivo é restringir a liberdade de expressão, minando um dos alicerces fundamentais do liberalismo. Ao transformar questões sociais em imperativos morais, substitui o princípio da igualdade perante a lei por uma lógica de identidades concorrentes, o que fragiliza a noção de cidadania comum que sustentou a ordem liberal desde o Iluminismo. Além disso, ao reinterpretar a história do Ocidente quase exclusivamente através dos eixos de opressão, cria-se a percepção de que as instituições e tradições que formaram a civilização ocidental são ilegítimas ou moralmente suspeitas. Tudo isso é feito sempre sem números, factos ou comparações sérias: é o universo das emoções, em que a razão é secundarizada ou até mesmo desprezada. O resultado combinado destes processos é uma ameaça existencial aos valores que moldaram a cultura ocidental e que sustentam a nossa prosperidade relativa.
Nuno Palma, Professor Catedrático no Departamento de Economia da Universidade de Manchester