Nuno Morna, antigo deputado à Assembleia Legislativa da Madeira pela Iniciativa Liberal, anunciou esta sexta-feira a sua desvinculação do partido com duras críticas à evolução interna da estrutura da IL que considera afastada dos princípios liberais que motivaram a sua fundação.
“Não saio por exaustão sentimental, não saio por capricho adolescente, não saio por despeito, que é o refúgio favorito dos medíocres quando já não sabem explicar a saída dos outros. Saio porque comecei a olhar para dentro e a ver uma coisa que reconhecia cada vez menos: uma espécie de caricatura de partido liberal, habitado por algumas figuras que confundem projeto político com escadote pessoal e imaginam a lealdade como submissão, a crítica como traição e a frontalidade como inconveniência”, explica nas redes sociais.
E acrescenta: “Nunca tive vocação para criado, nem para figurante, nem para cúmplice silencioso de gente convencida de que o simples facto de ter chegado tarde lhes dá o direito de reescrever a história e distribuir certificados de pureza aos que lá estavam antes de haver palco, luzes e plateia”.
Nuno Morna na sua nota recorda ainda que foi um dos fundadores da Iniciativa Liberal, recordando que foi responsável pela criação do núcleo da Madeira, numa altura, em que contava com uma estrutura reduzida, “fingindo” que eram muitos quando não eram “quase ninguém”.
No entanto, reconhece que depois da IL se afirmar força política regional e com a eleição do primeiro deputado admite que o “produto” passou a ser apetecível. “Depois, como era inevitável, chegou o momento em que a coisa passou a ter valor aos olhos daqueles que só respeitam o que já vem embalado, validado e, de preferência, com lugar à mesa garantido. Depois de nos afirmarmos como força política regional, com a eleição do primeiro deputado, o “produto” passou a ser apetecível. E digo “produto” com a repugnância devida, porque nada revela melhor a degradação da política do que vê-la tratada como mercadoria por gente que nunca produziu rigorosamente nada, a não ser opinião sobre o esforço dos outros”, lamenta.
E por isso reconhece que foi altura de se afastar. “A minha ideia da política sempre foi outra e, talvez por isso, tenha acabado aqui, onde estou. Tenho, para mim, que a política é um misto de ideias, frontalidade e lealdade. Não é marketing existencial, não é uma coleção de poses e modelitos, não é um concurso de pequenos príncipes em busca de corte. Ideias, porque sem ideias a política é apenas administração de vaidades e distribuição de conveniências. Frontalidade, porque sempre preferi um inimigo declarado a um aliado viscoso. Lealdade, porque um projeto sem lealdade transforma-se depressa numa feira de uso mútuo, onde cada um mede o outro pela utilidade imediata e todos acabam por falar de princípios com a mesma sinceridade com que um vigarista fala de honestidade num jantar de beneficência”, acrescenta na mesma nota.
Nuno Morna tece ainda duras críticas em relação ao caminho que está a ser seguido. “Não me identifico, por isso, com esta demanda pseudo-liberal. E chamo-lhe pseudo-liberal porque o nome certo, às vezes, é o único ato de higiene que resta. Liberalismo não é esta mascarada de conveniência, esta versão para consumo interno da liberdade, esta habilidade provinciana de usar palavras grandes para esconder comportamentos pequenos. Liberalismo não é um crachá para exibicionistas políticos, nem uma etiqueta para quem quer parecer moderno sem jamais ter corrido o risco de dizer uma verdade inconveniente. Liberalismo é exigência moral, responsabilidade, coragem, independência de espírito, recusa de servidões, desprezo pelo amiguismo e pelo carreirismo”, acrescenta.
Apesar da rutura com a estrutura partidária, o antigo deputado assegura que se mantém fiel às ideias liberais. “Não mudei de ideias. Mudei apenas de recinto”, afirma, defendendo que os partidos são “instrumentos, não igrejas”, e que devem ser abandonados quando deixam de cumprir o propósito para que foram criados.