No seu primeiro discurso do 10 de Junho, o Presidente da República escolheu um caminho seguro - Vitorino Nemésio, Natália Correia, Vergílio Ferreira, Camões - para chegar a uma ideia que é também a sua estratégia política: ocupar o meio, que procura preencher a partir de uma base eleitoral circunstancial que, provavelmente, não se voltará a repetir, nem mesmo para o reeleger.
O discurso foi marcadamente otimista e motivador, mesmo tendo dito que é preciso «coragem prática de fazer escolhas difíceis sem ceder ao populismo» e «defender o interesse de longo prazo mesmo quando o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo». Quando «faltam-nos cada vez mais as palavras do meio», Seguro propõe-se encontrar as que «permitem a aproximação, a criação de pontes entre as pessoas, entre os portugueses, entre as instituições, entre as ideias» - «o antídoto para o vírus da polarização que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação».
Seguro evocou abundantemente Camões, mas esqueceu o Velho do Restelo. Tarefa que coube a Miguel Monjardino. «Uma cortina de medo tem vindo a descer sobre Portugal», disse o presidente da Comissão Organizadora das Comemorações, sublinhando que o ciclo histórico iniciado em 1945 chegou ao fim, assistimos ao colapso do multilateralismo e à reconfiguração do poder global.
Seguro fala do multilateralismo como um valor em si mesmo, da autonomia estratégica europeia como complemento da NATO - uma formulação que preserva os dois pilares sem os colocar em tensão. Monjardino parte de um diagnóstico radicalmente diferente: «O mundo multilateral que nos foi altamente benéfico está a desaparecer» e «o mundo não é um terreno da moral, mas sim político em que o poder é importante». O Presidente descreve o lugar de Portugal na ordem existente; Monjardino avisa que essa ordem está a deixar de existir.
O bromance que vivemos
«Onde é que assino?», perguntaria o primeiro-ministro. Seguro já tinha assinado na véspera: «Eu assinei na parte verde - cor da esperança». «Então eu assino no vermelho». «Assim completamo-nos». «E assim é que tem de ser». Este é, por agora, o tom entre Belém e São Bento. E Seguro convoca Montenegro para o «meio», mesmo sabendo que o Governo está sob pressão para governar à direita. O tempo dirá se é estratégia ou ilusão.
Havia uma expectativa tensa do Governo quanto ao primeiro discurso do 10 de Junho de Seguro, que começou a dissipar-se na viagem ao Luxemburgo e foi anulada na véspera, com as declarações de Rangel sobre eventuais renegociações do acordo das Lajes para depois do conflito no Médio Oriente. A este assunto, abordado de forma musculada na campanha, Seguro respondeu com esquiva: reconheceu que poderão ser necessários «ajustamentos», mas recusou comprometer-se, repetindo que «não é o momento para falar» - precisamente em Angra do Heroísmo, o palco onde a questão das Lajes tem peso simbólico e estratégico imediato.
O valor estratégico das Lajes
Para os Estados Unidos há Portugal e os Açores - e os Açores valem mais do que Portugal, digam os tratados o que disserem. Esta é a realidade geopolítica que Washington reconhece desde 1943 e que Salazar soube gerir com hábil sonsice, ao contrário dos líderes dos governos democráticos pós-25 de Abril.
O primeiro acordo formal data de 1943, quando Portugal cedeu à pressão britânica durante a Segunda Guerra Mundial. Salazar negociou com calculismo: manteve a neutralidade formal enquanto garantia contrapartidas que protegeram o regime. Em 1949, Portugal tornou-se membro fundador da NATO - uma ditadura a fundar a principal aliança do mundo democrático. A razão era simples: os Açores. Em 1951, o primeiro acordo bilateral formalizou a lógica que perduraria: facilidades militares em troca de apoio político e compensações financeiras. O valor estratégico provou-se em 1973, no Yom Kippur, quando Portugal foi o único aliado europeu a autorizar o sobrevoo norte-americano para reabastecimento de Israel. Depois do 25 de Abril, a relação complicou-se - Kissinger receou a influência comunista -, mas as Lajes eram demasiado valiosas para serem reféns da política interna.
A renegociação de 1979 estabeleceu o modelo das décadas seguintes: 140 milhões de dólares por quatro anos, 80 dos quais para os Açores - dinheiro transformador antes dos fundos europeus. A revisão de 1995 eliminou as compensações fixas, deixando os Açores com a presença militar mas sem contrapartida financeira. O maior choque viria entre 2013 e 2015, quando Obama reduziu o contingente de 900 para 400 trabalhadores portugueses e de 650 para 165 militares. A Terceira ressentia a perda. Lisboa protestou e não foi ouvida.
A guerra na Ucrânia e o conflito no Médio Oriente devolveram às Lajes a relevância perdida. Em 2026, com os EUA a usar a base para operações na região, Portugal emitiu uma ‘autorização condicional’: resposta a ataque iraniano, necessidade e proporcionalidade, alvos exclusivamente militares. Juridicamente cuidadosa, politicamente reveladora - o espírito salazarista aplicado à democracia: aliado indispensável, soberania intacta.
Com a administração Trump a relação euro-atlântica ‘arrefeceu’. Negociar com esta Casa Branca - que exige, raramente concede e considera os aliados como fornecedores de serviços - é estruturalmente diferente de qualquer negociação anterior.
Rangel admitiu esta semana que o acordo «deverá ser revisto» - passaram 30 anos, «é natural que haja muitos ajustamentos» - mas adiou o debate para depois da crise no Médio Oriente. A posição é prudente, mas não isenta de ironia: é precisamente a crise que demonstra o valor das Lajes que serve de argumento para adiar a conversa de Lisboa com Washington.