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Quarta-feira à noite, na RTP Notícias, já depois de o ministro da Administração Interna ter quebrado um longo silêncio sobre as polémicas que o rodeiam, o jornalista Miguel Santos Carrapatoso capta as entrelinhas: «Esta conferência de imprensa não foi pensada para responder às perguntas que foram feitas. Foi pensada para responder à questão da forma».
A forma é Luís Neves de fato escuro e muito penteado, voz de comando e pose marcial. Um polícia à antiga no palanque do ministro. Convoca os jornalistas para o Terreiro do Paço e com as câmaras de TV apontadas procura encerrar as polémicas: o atrelado, os obras nos montes e as obras na PJ, a falta de declarações de rendimentos, mesa e bancos no monte feitas com madeiras das Infraestruturas de Portugal, a amizade com o empreiteiro de Barcelos.
A mensagem que o ministro quer passar não é sobre casos concretos. É mais abrangente e é política: ‘Não me demito!’ – está na forma.
Neves foge aos papéis que tem à frente e que no fim hão de ser distribuídos aos jornalistas. No discurso oficial de 12 páginas, não exatamente como é proferido, constam quase 2.500 palavras. A mais repetida é «nunca». Aparece 12 vezes.
Começa com nervosismo, a voz a fugir-lhe para o falsete, e vai crescendo sobre a plateia e nos ecrãs lá de casa. Defende-se, ataca, celebra a sua carreira policial. Diz uma frase de confessionário: «Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem».
Na primeira fila senta-se a equipa ministerial, incluindo a adjunta Valentina Marcelino e o secretário de Estado Telmo Correia. O ambiente na sala é tenso e nunca se desanuvia. Tudo concorre para isso. Até o som dos microfones, que falha a certa altura.
No fim vai responder a perguntas, sem permitir que todos os inscritos falem. É aqui que a forma cede ao conteúdo. Não ficam explicados os problemas que assombram o tempo em que Luís Neves dirigiu a Polícia Judiciária, num caso aberto pelo SOL em 10 de julho e inicialmente quase ignorado pela restante imprensa.
Os jornalistas atrapalham-se e interrompem-se. Neves levanta a voz e impõe ordem. A cada resposta, mais interrogações e novas contradições.
Abuso de poder
A abrir: «Falaram falaciosamente, já que ninguém referiu, nenhuma autoridade, em abuso de poder e descaminho», diz Neves.
De facto, são estes os possíveis crimes que o Ministério Público está a investigar em relação ao atrelado e aos bidões, segundo noticiou o Expresso em 21 de julho: «Primeiros indícios recolhidos pela PJ não convenceram os investigadores de que a entrega do atrelado ao empreiteiro amigo de Luís Neves cumpriu todas regras. Há suspeitas dos crimes de descaminho e abuso de poder que foram transmitidos ao procurador-geral da República. Amadeu Guerra mandou abrir um inquérito».
Como sabe o ministro que não é isto que está a ser investigado? Se ainda não foi chamado a depor, segundo afirma, como pode saber? Já teve acesso ao inquérito? Se as fontes do Expresso se enganaram, por que razão o Ministério Público não fez um desmentido?
Tanque-piscina
O tanque do monte em São Teotónio, Odemira, «foi efetivamente construído», diz, «mas depois acabou por se transformar numa piscina contra a minha vontade inicial», ao ter sido «ladeada por terra durante um fim de semana em que não estive».
A explicação é críptica. Luís Neves exibe na conferência de imprensa uma fotografia aérea do tanque, quando ainda era um tanque. É o único documento que mostra. Todos os outros a que faz referência não são mostrados nem distribuídos.
O que as imagens de drone recolhidas pelas televisões têm mostrado à saciedade é uma piscina ao lado do tanque original. Logo, o que significa um tanque que se transforma em piscina, se o tanque permanece lá? O que é algo que fica «ladeado de terra» e como é que disso resulta uma piscina?
Pagamentos
Em três entrevistas televisivas que deu em 12 de julho o ministro falou sempre na primeira pessoa ao referir-se aos negócios com o empreiteiro João Santos Carvalho: «As faturas que tenho», «os materiais que adquiri», «os valores que paguei». O Regime do Exercício de Funções por Titulares de Cargos Políticos, de 2019, diz que os governantes, e também um diretor nacional da PJ, estão obrigados à exclusividade e que as suas funções são incompatíveis com gestão empresarial.
Talvez por isso, Neves diz agora: «Foi a minha mulher» quem pagou ao empreiteiro. Afinal, quando disse a verdade: nas entrevistas ou na quarta-feira?
Segurança
Durante os oito anos em que dirigiu a PJ, Neves nunca entregou as obrigatórias declarações de rendimentos, património e interesses. Justificação: «Esta declaração expõe as moradas de dirigentes policiais. No meu caso em particular, que estive sob proteção, fui ameaçado juntamente com a minha família por máfias e delinquentes da pior espécie, era um risco enorme prestar certo tipo de informações pessoais».
O ministro desconhece que a Entidade Para a Transparência corta as moradas do acesso público? E que o Tribunal Constitucional, no tempo das declarações em papel, rasurava esses dados? E porquê a questão da segurança com a morada se as escrituras dos montes que Neves e a mulher compraram desde 2011 no Alentejo, disponíveis mediante pagamento em qualquer notário, têm a sua morada de família completa?
Contrato
A frase não estava escrito no discurso, saiu de improviso: «Foi um contrato com uma pessoa que trabalha bem e com quem tinha confiança», disse sobre as obras nos montes, feitas pelo empreiteiro de Barcelos.
Numa primeira resposta a este jornal tinha dito em inícios de julho: «Não foram obras de dimensão a exigir um projeto ou um contrato».
Houve ou não contrato? Porque é que o ministro não mostra esse contrato? O contrato foi verbal? Foi feito entre inícios de Julho e agora?
Carro
«Tenho um carro familiar que tem 15 anos. Um Ford Focus», afirmou, a sinalizar que vive do trabalho. Mas porque é que falou do Ford Focus se as suas deslocações são feitas num carro de serviço que a PJ cedeu ao Ministério num contrato de comodato?