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A conversa estava combinada há já algum tempo, mas o Congresso do PS, neste fim de semana, apressou o encontro, apesar da entrevista versar sobre a sua vida, além da política. João Soares vai fazer 77 anos em agosto, mas tem uma agenda de um miúdo de 20, sempre a girar e sempre a fazer posts nas redes sociais. A entrevista ficou marcada para a Praia Grande, Sintra. «Quis fazer neste restaurante porque é simpático, come-se um bom peixe, mas também porque fica ao lado do banco do Jorge Coelho. A ideia do banco partiu do Pacheco Pereira, que sabia que o Jorge Coelho frequentava esta praia». Além disso, João Soares adora mar. «Sou um apaixonado pelo mar. A praia da minha infância, a Foz do Arelho, é aquela que ainda considero a melhor de Portugal, e do mundo. A praia fica ao pé das Caldas da Rainha, terra a que o meu amigo Seguro só chegou aqui há uns anos. Passei na Foz do Arelho todos os verões da minha infância , e não só, por causa do meu avô paterno e dos meus pais. A minha irmã e eu aprendemos a nadar aí e quem aprende a nada na Foz do Arelho sabe nadar em qualquer praia do mundo». Esclarecendo que é da colheita do secretário-geral das Nações Unidas, de 1949, João recorda que o seu pai e a mãe casaram, por procuração, a 22 de fevereiro de 1949, tendo João nascido em agosto do mesmo ano. «Como não fui prematuro, é óbvio que eu já estava feito antes do meu pai entrar no Aljube». Antes de entrarmos na entrevista propriamente dita, ainda falou dos defeitos dos portugueses. «Por vezes, temos o defeito grande de nos deixarmos intimidar pelos burocratas. Aí há alguns tipos do PS que também têm alguma responsabilidade, nomeadamente por terem cedido a um certo populismo, pretensamente anticorrupção e anti-interesses, levaram a que quem tem responsabilidades políticas tenha medo de tomar uma decisão. É mais fácil não decidir nada para não desagradar. Esse é outro dos nossos dramas».
O apelido Soares prejudicou-o na sua carreira política?
O apelido Soares honra-me, ponto. Tudo o que pode honrar as pessoas, tudo o que as torna grandes, também as prejudica. Quer dizer, por alguma razão o Camões tem aquela última palavra [inveja] nos Lusíadas. Nunca fui vítima de coisa nenhuma, se há uma coisa que herdei do meu avô paterno, que era um homem excecional, o pai do meu pai,viveu connosco até morrer, é que não se queixava de nada. E morreu três dias depois do Salazar. O que ainda lhe deu uma alegria. Ao meu avô João devo-lhe tudo, incluindo o nome.
Mas olhando para o seu trajeto político...
Claro que sim, oiça, basta fazer um teste. Não sou um génio, mas também não sou um atrasado mental. Da minha idade exata, podia dar 10 nomes, todos eles foram, depois do 25 de Abril, deputados à Constituinte, disto e daquilo. Eu enquanto o meu pai foi secretário-geral do Partido Socialista nunca ocupei, por decisão dos dois, lugar nenhum, nem no PS, nem fora do PS.
Este fim de semana vai estar no congresso de Viseu?
Claro que sim. É uma obrigação de coração, se quiser.
E vai cumprimentar Ascenso Simões e dizer-lhe que ele tem toda a razão, que o PS está uma desgraça. Que não há oposição...
Oiça, acabei de fazer o prefácio de um livro notável do Ascenso Simões. Fui convidado por ele e foi uma coisa que me honrou. Ele fez uma história da corrente socialista, social-democrata e trabalhista. Trabalhista, para não haver confusões. Os verdadeiros sociais-democratas em portugal somos nós. E essa é uma daquelas confusões que eu tenho insistido sempre em esclarecer, e que tem a ver com os primórdios do 25 de Abril, e com a transformação daquilo que era o Partido Popular Democrático num Partido Social Democrático. Uma pretensão de entrar no Partido Social Democrático, que nunca foi, aliás, aceite por Willy Brandt.
Foi dar a volta ao bilhar grande para não responder. Ascenso Simões diz que o partido não vai a lado nenhum se não tiver concorrência interna.
Mas tem.
Mas que não se assume. Quem é a concorrência interna?
Dá-me licença? Se há um partido que nunca deixou de ter disputa interna e debate interno, foi o Partido Socialista.
Ascenso Simões diz: ‘José Luís Carneiro ao fazer um congresso que é um congressozinho, demonstra medo. O PS não tem condições para ir a eleições nos próximos anos’. O que lhe apraz dizer das críticas do seu camarada?
Não estou de acordo com isso, se é que essa frase é dele. É tão simples como isso, não há nada como falar português correto. Nem acredito que ele possa ter dito isso.
Os críticos dizem que o PS não vai a lado nenhum com José Luís Carneiro.
Isso é injusto, porque o José Luís Carneiro tem um percurso, em larga medida, intocável. Um dos dramas do nosso tempo é que não há memória para coisa nenhuma. José Luís Carneiro foi um belíssimo autarca, em Baião, e quando se fala em Baião está-se a falar do que ele fez como autarca.
Foi eleito com 70 e tal por cento.
Uma coisa que eu disse muitas vezes ao Costa, quando ele foi a ministro do Guterres, foi: ‘Epá, é mau assentares praça em general’. Ele foi secretário de Estado e ministro do Guterres e depois foi ministro do Sócrates. Agora, o percurso do José Luís Carneiro desse ponto de vista é exemplar. É uma coisa que sempre defendi: não é por eu próprio ter feito, mas também fiz esse percurso, que é aquilo que eu chamei sempre o bom exemplo dos franceses. Os franceses têm muitos defeitos no sistema político deles. Mas não tem ninguém em França, desde o tempo do De Gaulle, que é chamada a 4.ª República, que não tenha tido vida autárquica. Nós, como sabe, éramos muito influenciados pelos franceses. A França era a grande referência da geração do meu pai. O De Gaulle é um bom exemplo. Só aceitou nomear dois ministros que não tinham legitimidade eleitoral local, ao nível das autarquias. Você não tem, até hoje, com exceção do próprio De Gaulle, um tipo que tenha chegado a ministro ou a primeiro-ministro ou a Presidente da República sem ter tido uma legitimidade local como presidente de uma câmara. O Mitterrand foi eleito por uma câmara antes de ser ministro. O Costa, e muitos outros, foi secretário de Estado sem ter sido autarca. O próprio Ascenso, penso que nunca foi presidente de uma câmara.
António Costa foi autarca antes de chegar à liderança do partido.
Foi e ainda bem que fez isso, pois fez-lhe bem. Ficou com outro conhecimento com a realidade local que é uma coisa completamente diferente. E com a legitimidade direta do contacto com as pessoas. Não há nada, não há nenhum cargo público que tenha a proximidade com as pessoas que têm as autarquias. Eu quis sempre ser autarca. Digamos que a minha vontade mais clara e mais publicamente expressa foi ser autarca em Lisboa, por causa da paixão pelo trabalho autárquico.
O facto de José Luís Carneiro ter sido autarca em Baião dá-lhe o estatuto para...
Ele foi um belíssimo autarca em Baião. Fez três mandatos ou quatro porque nessa altura ainda não havia o limite dos três. Depois foi parlamentar, e aí conheci-o melhor. Depois foi secretário de Estado das Comunidades Portuguesas no primeiro Governo do Costa, de que eu também fiz parte, como ministro da Cultura. E foi um belíssimo secretário de Estado. Não há ninguém que tenha paralelo com o trabalho que ele fez. Ainda hoje se percebe o que ele faz como secretário-geral na visita à Venezuela. Compreendo e estou solidário com essa viagem. A direita está a construir uma narrativa, dizendo que ele é cúmplice do regime da Venezuela. Não é e nunca foi. Nenhum socialista pode ser cúmplice de um regime daqueles. Pudessem a direita e a extrema-esquerda orgulhar-se do mesmo. Mas as visitas que fez a todas as comunidades portuguesas um pouco todo o mundo têm que ver com esse rasto do trabalho que ele fez. E depois foi um belíssimo ministro da Administração Interna. E eu sou indefetível do PS, mas nem sempre digo isto, porque penso pela minha cabeça, que os melhores são os do PS. Mas, que me lembre, ele foi o melhor ministro da Administração Interna do Partido Socialista, incluindo o próprio Costa.
Qual a razão para os barões do PS estarem quase todos contra ele?
É bom sinal, e a expressão barões é sua, não é minha. Faça o favor de explicar. Mas se você diz que os barões estão contra ele, republicano como ele é e eu sou, só pode estar bem. Estou farto de aristocratas em todo o lado. Acho que o Salazar terá dito, quando entrou aqui, ilegalmente, clandestina, mas sem que eles soubessem quem era, uma senhora que eu conheci, amiga do meu pai, que era a Dona Maria Pia de Bragança, que dizia que era herdeira, que era filha, provavelmente terá sido filha ilegítima de Dom Carlos, o Salazar terá dito, ‘ponham-na na fronteira’. Ela esteve presa em Caxias uma noite, com as presas do topo da hierarquia do PC na altura. E com uma senhora que eu conheci também bem, não sei se o meu pai foi advogado dela, que era a Julieta Gandra, que tinha sido médica em Angola e tinha sido deportada para cá. E também esteve muitos anos presa e estava próxima do PC nessa altura. Conhecia essa história contada pela Julieta Gandra e depois por uma ou outra presa que lá estava nessa sala. Maria Pia, às onze da noite, é lançada numa cela de Caxias, onde aparece com um casaco de peles, vison, a dizer que é filha de Dom Carlos. A Julieta Gandra dizia que aquilo foi uma coisa curiosa para todos, porque a tendência das pessoas, e então as do PC, foi de pensar que aquilo era uma provocação da PIDE. Mas, ao mesmo tempo, era uma provocação tão estúpida feita pela PIDE, às onze da noite, uma senhora de casaco de vison dizer que é filha de Dom Carlos. Até que a certa altura perceberam que a senhora estava a dizer o que pensava que era verdade, que era filha de Dom Carlos. Aliás, foi expulsa no dia seguinte. Isto era a propósito dos barões, e que o Salazar terá dito, numa das reuniões com o Silva Pais, metam-na na fronteira sem chatices, pois já cá basta o outro, que era o pai do nosso Dom Duarte, que estava em Santar.
Não acha estranho Duarte Cordeiro, Fernando Medina, Ana Catarina Mendes ou Mariana Viera da Silva estarem todos contra, e nem um se chega à frente?
Duarte Cordeiro e Fernando Medina é uma coisa, Ana Catarina Mendes e o resto é outra. O que estou a dizer é isto, no PS sempre houve liberdade de as pessoas se candidatarem.
Qual a razão para ninguém ter avançado?
Pergunte aos próprios. Eu candidatei-me contra o Sócrates, pouca gente se lembra, mas fui dos poucos, sabia muito bem o que me ia acontecer, mas candidatei-me contra e tenho orgulho nisso. Só que agora não deito pedras para cima do Sócrates, ao contrário do que acontece com aqueles que foram todos devotos do Sócrates, durante muitos anos, e depois começaram a deitar-lhe pedras ou lhe viraram as costas. Eu não viro as costas às pessoas. Por isso é que não virei as costas ao Laplaine, com quem não tenho afinidade política nenhuma, mas que conheci em termos de trabalho quando ele era funcionário do Sampaio.
Mas disse que põe as mãos no lume pelo Laplaine. O que o leva a dizer isso sobre uma pessoa com quem não tem assim tanta afinidade?
Não disse isso. Disse que ponho as mãos no lume pelo amor à pátria, e pela honradez. É uma coisa diferente. Não ponho as mãos no lume até porque já tive que enfrentar vários incêndios.
Então não põe as mãos no lume por Laplaine?
Não disse nada disso. Não brinque com coisas sérias.
O que o leva a ser tão emotivo às vezes? Por exemplo, quantos posts põe no Facebook só na parte da manhã?
De manhã, faço alguns.
Alguns vinte!
Estou a ler agora uma obra notável que me mandou, e eu fico desvanecido com isso, a Yvette Centeno, que admiro muito, e mandou-me através de um neto que é amigo de um filho meu. Nós temos que constituir um registo de memória em relação àquilo que fazemos, em relação àquilo que vimos e em relação àquilo a que assistimos. Sob pena depois de estarmos com uma generalidade de cidadãos dos países do mundo completamente destituídos de memória.
A pergunta é por que é tão emotivo?
Emotivo não.
Então qual a razão para ter defendido logo Laplaine?
Isso defendo, sou amigo.
Mas como é que sabe se é culpado ou não?
Mas eu não disse nada disso. Se é ou não é. Frequentei a faculdade de Direito de Lisboa, como o Laplaine e como outros. E, portanto, não cometo esse tipo de erros. Não é porque tenha desconfiança nenhuma, é porque sou um gajo prudente. Ao contrário do que você diz, sou prudente.
É óbvio que é emotivo. Acha que é um bom sinal os barões, e a palavra é minha, não apoiarem José Luís Carneiro?
Não vi nenhum barão. Mas quem são os barões que não apoiam?
Acabei de dizer, mas posso acrescentar Augusto Santos Silva, além de Mariana Vieira da Silva, entre outros.
Eu até hoje tenho dado alguns títulos a pessoas. Tinha um casal de amigos, infelizmente, ele já morreu, e dei-lhes o título de condes. Aquilo que você trata por barões, e está a falar do Santos Silva, que é um tipo por quem tenho respeito intelectual, que é um homem culto e inteligente, está fora de causa.
Que fez o percurso todo socrático.
Que começou por dizer que o atual Presidente da República não tinha as condições mínimas e depois acabou por dizer que, afinal, parece que já tinha ou tem. E obviamente que ia votar nele. Não sei se votou se não. Desejo que tenha votado bem. As pessoas às vezes precipitam-se nessas avaliações e nesses juízos. Tenho orgulho nessa matéria.
José Luís Carneiro será um bom secretário-geral do PS?
Tem sido um bom secretário-geral do partido. É um homem profundamente trabalhador. É um homem culto, inteligente, que tem a humildade de procurar aprender cada vez mais. Que ouve as pessoas. Que é um homem que tem uma energia que não passou ainda para a opinião pública, a energia física que tem. Porque o tipo está permanentemente em todo o lado do país. Tenho tido a sorte de me cruzar com o José Luís Carneiro em muitos sítios e tenho visto um empenho e o cuidado com que ele se envolve nas várias batalhas que o líder do partido tem que tomar.
É normal o PS não ter nenhuma alternativa ao atual secretário-geral? Penso que nem no tempo do seu pai isso aconteceu.
Não é verdade. O [António] Campos já disse isso, e eu tenho um grande respeito pelo Campos. Mas houve momentos em que o meu pai não teve nenhum adversário a secretário-geral do PS. Mesmo em momentos muito acirrados. Quando foi a crise do ex-secretariado, em 1980, eles não apresentaram nenhum candidato a secretário-geral. E o Guterres já disse, e outros já disseram, que eles gostavam de ter apresentado o Zenha, que não se quis apresentar. Atenção. Isso é não ter a tal memória que é preciso ter. Como, aliás, o Constâncio não teve nenhum candidato da segunda vez que se candidatou a secretário-geral, e que se sentiu inseguro depois de ter sido eleito. E depois acabou por ele próprio, como homem inteligente que é, perceber que era um erro de casting e foi-se embora. Não teve candidato contra ele. Não apresentámos nenhum candidato para secretário-geral porque o Jaime Gama não quis.
Mas, dos nomes que se falam, alguns têm bases, têm apoios.
Quais?
Duarte Cordeiro, por exemplo.
O Duarte Cordeiro é outra coisa.
A Mariana Vieira da Silva não tem tropas? Diz-se que Medina, teoricamente, não as tem.
O teoricamente é uma coisa, o ter ou não ter é outra. Tenho muito respeito pelo Duarte Cordeiro e pelo Fernando Medina e também pela Mariana Vieira da Silva. Aliás, não tenho falta de respeito por ninguém. Mesmo pelo Santos Silva, não tenho nenhum problema. Embora não ache que eles tenham dito, a Mariana não disse, o Duarte Cordeiro nunca disse, e o Medina também não. Duarte Cordeiro, por contrário, até apoiou o Seguro, e penso que apoiou também o José Luís Carneiro. Tem que se ter o sentido da realidade e das coisas.
Não é por, supostamente, faltarem três anos e meio que ninguém quer avançar?
Não creio que haja alguém que se sinta com condições para avançar. Mas é verdade que já houve momentos em que as pessoas deviam ter avançado e não avançaram. É o caso do António Costa em relação ao António José Seguro. António Costa teve duas ou três oportunidades de avançar como alternativa ao António José Seguro e não avançou. Não cumpriu os calendários eleitorais e depois forçaram o calendário que deu origem a uma coisa que é pioneira, que foi o António José Seguro que fez um referendo interno aberto às pessoas que se identificavam em termos eleitorais com o PS, mesmo quando não tinham o cartão de militante no bolso, porque, evidentemente, eles queriam a liderança do partido para poderem exercer, para poderem ter a responsabilidade do governo. Foi tão simples como isso. E eu sempre disse isto e fiz parte desse Governo, o primeiro Governo do António Costa. Sem me arrepender disso, pelo contrário. Aliás, ao contrário de outros, não só não tenho nenhum problema...
Mas não tem passado socrático e entrou...
Não, não, mas não tenho problema nenhum em ter feito parte de um Governo que beneficiou do apoio parlamentar daquilo que é a chamada extrema-esquerda. Isto é, do PC e do Bloco, pelo contrário. Eu era dos que tinha sempre defendido entendimentos à esquerda. E o Jorge Sampaio fez, em 1989, quando foi candidato à Câmara de Lisboa e venceu, e me levou a mim como número 2. O Jorge Sampaio fez uma política que ele tinha dito que era impossível. Quando eu defendi que ela se fizesse comigo como candidato. Foi a política de entendimento à esquerda. Aliás, se houvesse a tal memória que falta muito na nossa vida política, as pessoas lembravam-se da primeira vez que, num quadro democrático, os votos à esquerda convergiram todos numa candidatura.
Quando alguém teve que engolir um sapo!
Quando Mário Soares foi candidato à Presidência da República.
Foi quando o PCP teve que fechar os olhos.
Não, tiveram que tapar a cara, mas puseram a cruzinha. Isso é, de facto, a coisa simbólica mais bonita. E é preciso reconhecer aí, não só a qualidade do Mário Soares, eu sou suspeito sendo filho dele, não é que as qualidades dele tenham passado para mim, não estou a insinuar nada disso, e a qualidade do Álvaro Cunhal. Ainda agora para o centenário do meu pai, e para os 50 anos do 25 de Abril, participei em dezenas de sessões, em todo o país, de norte a sul, exceto nas Regiões Autónomas, percebe-se que, de facto, aquilo tinha uma qualidade diferente. Fui rever duas vezes, por razões que tinham a ver com esse tipo de encontros, o debate Soares-Cunhal, em novembro de 75.
Olhe que não, olhe que não.
Uma hora e meia de debate. Ainda é impressionante, emocionante ouvir aquilo, e ao mesmo tempo perceber que são dois homens que estão tão profundamente em desacordo, mas que se tratam com grande dignidade. Mas as pessoas não têm memória para essas coisas.
Já foi convidado por António José Seguro para ser conselheiro de Estado?
Tenho um handicap sério. Quer dizer, tenho idade para poder dizer isto. Eu não quero nada. Quando digo que não quero nada, é mesmo nada, não é treta. Sempre que quis alguma coisa disse-o. Quis várias coisas na vida pública portuguesa, nomeadamente ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa, talvez a batalha mais séria que travei e que teve mais consequências, até no plano do Partido Socialista. Olhe, ajudou o Sampaio a ser Presidente da República, depois mais tarde. Eu quis e disse que queria. Está a ver? Depois que o meu pai deixou de ser secretário-geral do PS. Agora não quero rigorosamente nada.
Mas se for convidado?
Isso é uma coisa que você tem que perguntar às pessoas que podem convidar.
Mas se for convidado? Não quer dizer...
Você não me ponha a dizer o que você quer que eu diga.
Eu não quero nada.
Se você quer ouvir o que eu quero dizer, digo-lhe alguma coisa. Já falei com o senhor Presidente da República, desde que ele foi eleito, e ele sabe que não quero nada. Não sou daqueles que dizem que não quero nada e depois no dia seguinte querem três coisas.
Resumindo, não quer ser conselheiro de Estado?
Não, vou dizer-lhe uma coisa. Já fui conselheiro de Estado, três anos e tal, com o Sampaio como Presidente. Com todo o respeito, não quero faltar ao respeito.
E achou uma chatice?
Eu não disse isso e não me vai pôr a dizer o que não quero. Olhe, por exemplo, assisti e participei nas reuniões de Conselho de Estado em que se discutiu, e podia-lhe contar isso, que já não há reserva, o Jorge Sampaio tinha um medo terrível do então conselheiro de Estado, que, aliás, não exerceu, pois abandonou o mandato a meio, por causa desse temor que o Sampaio tinha dele, que era o Marcelo Rebelo de Sousa.
Sampaio tinha medo que Marcelo falasse?
Não me ponha a mima dizer coisas. Eu disse o que disse. Mas não me põe a dizer mais do que disse. Sabe quem era o secretário do Conselho de Estado? Era o doutor Alberto Laplaine Guimarães, de quem sou amigo. Que era um grande quadro da Câmara Municipal. A discussão mais interessante que eu assisti nesse Conselho de Estado, sob a presidência de Jorge Sampaio, que, aliás, sentiu-se obrigado a convidar o João Cravinho, quando ele soube que eu ia para o Conselho de Estado, proposto pelo Guterres, que era o líder do partido e primeiro-ministro, Sampaio quis lá meter o Cravinho porque achava...
Por causa das diferentes alas do PS?
Não vale a pena falar disso. Isso não tem interesse. É o mesmo que a gente estar a discutir se o sargo que comemos foi pescado nas Azenhas ou no Cabo da Roca. Se quiser perguntar-me coisas que me deram gozo fazer, em que senti que era útil ao país, posso dar-lhe três ou quatro coisas que fiz. Que foram boas.
O Conselho de Estado não foi uma delas?
Não, não foi uma delas. Mas participei com gosto e com honra.
E o que lhe deu gozo então fazer?
Várias coisas. Gostei muito de estar na Assembleia Parlamentar da OSCE. Foi uma coisa que eu construí por mim próprio, e com o apoio do doutor Nuno Paixão, que era e continua a ser um grande quadro. Nós não tínhamos presença na Assembleia Parlamentar da OSCE. Era o António Reis que lá tinha estado e não ligava muito àquilo. Eu gostei imenso daquilo. Apaixonei-me. E conheci aquele universo que nós, portugueses, conhecemos mal, que é o antigo universo ex-soviético e os países todos que saíram dos Balcãs, da antiga Jugoslávia. Fiquei a conhecer aquilo tudo, deve haver poucos tão bem informados. Estávamos a falar da Ucrânia, eu fui à Ucrânia, no total, dez vezes ou onze vezes. Duas depois de começar a guerra. Graças à Assembleia Parlamentar da OSCE. Conheci-os todos. Os protagonistas. Na Rússia conheci muito bem o Lavrov. Não conheci o Putin porque não calhou. Também nunca fiz nenhum esforço. Como, aliás, também não fiz com o Lukashenko, Presidente da Bielorrússia. Mas conheci aquela tropa fandanga. A história que se conta da Ucrânia é quase toda treta.
Porquê?
Por uma razão simples. Porque a Ucrânia tem uma identidade própria. A Ucrânia negociou sua independência e as suas fronteiras entregando, que é uma coisa que ninguém fala, ou raramente se fala, entregou as armas nucleares todas à Rússia. E com aquelas fronteiras que ficaram ali definidas. E depois o problema é que os russos não aceitam a ideia de que a Ucrânia exista, porque acham que aquilo é uma província subalterna. E estou a falar do gajo do KGB que é uma outra coisa que as pessoas esquecem. Estou a falar do Presidente Putin, que foi um alto oficial do KGB durante muitos anos. Até nas nossas antigas histórias colónias, nomeadamente Moçambique, meteu a pata.
Qual a ideia que tem de Zelensky?
Não posso dizer que o conheço. Estive com ele num almoço que ofereceu ao Marcelo, em Kiev, em que falámos todos. O Marcelo tinha dito que ia dar a ordem da liberdade ao Zelensky e acabou por dar. Eu disse na RTP que achava muito bem, porque o combate de Zelensky, por muito que isso desagrade a algumas pessoas com quem me dou bem, tem envergadura, se quiser, não estou a comparar, mas aquilo é uma coisa parecida com o Churchil.
Já me disse que não tem muita paciência para os rituais da maçonaria, apesar de ser um dos mais velhos. Há alguma coisa que gostasse de fazer?
Deixe lá isso. Já agora quero acrescentar uma coisa, já que me lembrei do Eça, tenho um velho plano que ainda não cumpri. Já fui várias vezes ao Médio Oriente, àquela zona que agora está a viver mais uma vez uma situação dramática, que é Israel, a Palestina e o Líbano... Tenho um velho projeto que ainda não pus em prática, mas vou pôr. Muito mais do que reuniões do Conselho de Estado, quero uma tradução trilingue, o original é português, do Eça de Queiroz, de A Relíquia. Uma tradução em hebreu e em árabe. E quero arranjar e já tenho quem possa eventualmente patrocinar uma edição de 100 ou 200 mil exemplares para ir distribuir para Israel, Palestina e para o Líbano. Talvez aquilo ajudasse a amainar um bocadinho que aquele conflito religioso é uma coisa que me faz imensa confusão. Sempre me dei muito bem com os tipos de Israel aqui. Sou dos poucos que defendeu sempre o direito de Israel existir. Agora, acho que o Netanyau passou todos os limites, não engulo aquilo em circunstância nenhuma, aquilo que ele está a fazer é um crime completo e parte das imbecilidades do Trump têm vindo dele. Mas uma edição trilíngue d’A Relíquia talvez pudesse fazer bem àquilo.