Mundo em tensão: o que dizem os candidatos

O que pensam os candidatos presidenciais sobre a situação de instabilidade e incerteza no mundo? E qual deve ser o papel do Presidente da República? Como alerta o chanceler alemão, "podemos não estar em guerra, mas também já não estamos em paz".
Mundo em tensão: o que dizem os candidatos

A Rússia está à nossa porta e pode querer entrar. A China tem realizado grandes exercícios militares em torno de Taiwan. A tensão entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul intensificou-se com testes de mísseis balísticos. No Mar Vermelho e no Golfo de Áden, os ataques dos Houthis a navios comerciais transformam uma crise regional numa ameaça direta ao comércio global. Resultado, o confronto direto dos Estados Unidos com o Irão pode estar por horas. A instabilidade no Médio Oriente está longe do fim. No início do ano, Donald Trump atacou a Venezuela e mandou deter Nicolás Maduro e a sua mulher, que foram levados para uma prisão em Brooklyn. E ameaçou ainda a Colômbia, Cuba e até o México. Hastear uma bandeira americana na Gronelândia poderá ser o próximo fetiche do dono da Casa Branca.

Como resume Paulo Sande, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, "estamos perante uma situação profundamente instável e incerta". Também os candidatos presidenciais com quem o Nascer do SOL falou têm plena consciência deste contexto. Mas não se comprometem perante um futuro potencialmente mais bélico.

"A Europa é o próximo alvo da Rússia", avisou Mark Rutte, numa intervenção a 11 de dezembro de 2025. O chanceler alemão, Friedrich Merz, acrescentou: "Não estamos em guerra, mas também já não estamos em paz".

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, fala em "guerra híbrida", citando ataques cibernéticos que colocam aviões comerciais no chão, cortes de cabos submarinos, drones que sobrevoam países como a Dinamarca, Alemanha, Polónia, Roménia e Bélgica, ou apagões em amplas zonas urbanas, como já aconteceu em Berlim.

Pode a Europa sobreviver sem os EUA?

Uma das grandes questões que se colocam é a sobrevivência do Velho Continente sem o apoio dos EUA. Os candidatos a Belém partilham visões distintas. "Vivemos tempos desafiantes. Neste momento, a defesa da Europa está muito dependente dos EUA", afirma Henrique Gouveia e Melo ao Nascer do SOL, acrescentando que existem mais de 7.000 militares norte-americanos na Europa, bem como vastos meios e equipamentos militares.

Marques Mendes considera que a Europa tem de se preparar para alcançar autonomia estratégica em matéria de segurança e defesa. "Agir por si própria, independentemente dos EUA", mas não vai mais longe.

Para Catarina Martins, esse apoio já não existe. "A defesa militar da União Europeia não só não tem o apoio dos EUA, como a atual administração norte-americana já ameaçou um Estado-membro da União: a Dinamarca".

Jorge Pinto defende que a melhor forma de unir esforços passa pela "constituição de uma Comunidade Europeia de Defesa, com os devidos instrumentos de controlo e fiscalização democrática".

E os jovens: o que pensam da guerra?

A França anunciou recentemente um novo programa de serviço voluntário para jovens, entre os 18 e 19 anos, com vista a reforçar as forças armadas, estimando-se que milhares de jovens sejam treinados até 2035.

Do lado dos jovens, João Perestrello, presidente da SEDES Jovem, afirma ao Nascer do SOL que o conflito é uma preocupação dos jovens portugueses — e dos europeus em geral. "A ameaça russa é uma ameaça de longo prazo à segurança e à paz na Europa e ao Estado de direito tal como o conhecemos".

Portugal tem vindo a aumentar os seus gastos em defesa e a aproximar-se do objetivo de 5% do PIB recomendado pela NATO, apesar de ainda estar entre os aliados com menor percentagem.

António José Seguro afirmou, numa recente entrevista na CNN, que o preocupa o investimento que o país vai fazer de 5,8 mil milhões de euros em equipamento militar. "É dinheiro que vem da Europa, através de um empréstimo que o Governo português vai contrair e, devido à urgência, as regras europeias dispensam a realização de concursos públicos, permitindo adjudicações diretas. É muito dinheiro, e o dinheiro público tem de ser sujeito a um escrutínio mais exigente".

Para Gouveia e Melo, o importante é que o investimento na defesa seja feito "sem comprometer a coesão e o Estado social e, se possível, ajude a dinamizar a economia nacional".

Marques Mendes sublinha que Portugal tem compromissos, designadamente no quadro da NATO: "Um Presidente da República não pode deixar de acompanhar e viabilizar as decisões internacionalmente assumidas por Portugal".

Catarina Martins procura assegurar que as obrigações sociais, o investimento público e a política de inovação não são sacrificados em benefício de uma corrida às armas que "apenas tornará o mundo mais perigoso".

Jorge Pinto deixa claro que o investimento em defesa não pode, em circunstância alguma, "significar um desinvestimento no Estado social".

António Filipe considera que o investimento na defesa é necessário para "garantir que as Forças Armadas cumpram o seu papel constitucional".

Se a guerra chegar, o que fará o Presidente?

Um cenário de guerra na Europa parece cada vez menos distante, mas aquilo que cada candidato tenciona fazer perante essa eventualidade diverge. Gouveia e Melo assegura que estará disponível para servir o país através dos seus «conhecimentos geoestratégicos e militares».

Alguns candidatos recusam pensar em cenários hipotéticos, como é o caso de João Cotrim de Figueiredo e de Marques Mendes. "Vale a pena responder com base neste cenário? Não", diz Cotrim. E Marques Mendes também se reserva: "Não devo fazer cenários em público. Muito menos cenários tremendistas. Nestas matérias, é preciso serenidade e contenção".

Catarina Martins considera que a Europa se uniu no auxílio à Ucrânia, "mas muitos dos governos apoiaram o genocídio em Gaza e a Comissão Europeia manteve o mesmo nível de relações com Israel». Acrescenta que esta inconsistência «contribui para o descrédito das instituições europeias".

Jorge Pinto acha que os adversários, onde quer que estejam, têm de perceber que "a Europa leva a sua defesa a sério e que qualquer ataque seria uma péssima ideia para quem o tentar".

O caso Venezuela

A instabilidade internacional não se limita à Europa. A situação na Venezuela, onde vive uma das maiores comunidades portuguesas no estrangeiro, levanta também questões sobre o papel do Presidente da República na proteção dos cidadãos portugueses fora do país.

Sobre este tema, Gouveia e Melo afirmou, a 6 de janeiro, no debate na RTP com os outros candidatos, que Portugal, enquanto país de média dimensão, deve ter no direito internacional o seu principal escudo: "A coisa que mais nos protege é o direito internacional. E devemos ser claros, mesmo com os aliados. Esta intervenção foi claramente ilegítima".

Marques Mendes classificou a situação como "muito delicada" e considerou que a intervenção ocorreu à margem das regras do Direito Internacional. António José Seguro sublinhou tratar-se de um "momento decisivo para a geopolítica mundial". Já André Ventura considerou importante que um "tirano" e "narcotraficante" possa "acabar na cadeia". João Cotrim de Figueiredo afirmou ser possível celebrar a queda de um "ditador sanguinário", mas também "condenar a forma como foi feita". Catarina Martins defendeu que a segurança da Europa "não pode estar nas mãos dos Estados Unidos". Enquanto Jorge Pinto destacou que, perante uma "invasão ilegal", ninguém "pode estar confortável". E António Filipe considerou que "não compete a um Estado interferir noutro Estado".

E se Trump avançar?

Mas os candidatos não se ficaram apenas pela Ucrânia ou pela Venezuela, até porque esse não é o único problema. Donald Trump afirmou, na terça-feira, dia 6, que ele e a sua equipa estão a discutir opções para adquirir a Gronelândia, admitindo mesmo a possibilidade de recorrer à força militar. Como ficará a Europa caso isso aconteça? O que será da NATO? A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, avisou que um ataque norte-americano a um país da NATO "seria o fim de tudo".

Os candidatos também expressaram preocupação. Henrique Gouveia e Melo destacou que o "sistema internacional está muito quente". Para António José Seguro, "é importante prevenir mais do que reagir" no caso da Gronelândia. João Cotrim de Figueiredo teme que os "mesmos argumentos usados para a Gronelândia possam ser usados para os Açores". Jorge Pinto segue a mesma linha: "Ontem foi a Venezuela. O que será amanhã? A Gronelândia está na lista e quem nos diz que não serão os Açores?". "Se Trump decidir anexar a Gronelândia, quem vai acionar o artigo 5.º da NATO?", questionou Catarina Martins. António Filipe sublinhou que "as ameaças feitas em relação à Gronelândia devem alarmar a comunidade internacional".

A preocupação e o alarmismo estão presentes mas, de forma geral, os candidatos presidenciais mantêm-se vagos quanto ao futuro da Europa no que toca à defesa. Paulo Sande conclui: "Comprometer-se em excesso pode ser problemático".