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O Governo da AD, liderado por Luís Montenegro, precisou de dois anos para atingir o ambiente de fim de ciclo que ao Governo do PS, liderado por António Costa, levou oito a construir. E a ideia deixa os sociais-democratas em brasa.
O PSD está a arder, o Governo tenta confinar o incêndio e eliminar os focos remanescentes, e o Ministério da Administração Interna está devastado pelo fogo posto de Luís Neves – fogo que teve a sua ignição numa primeira reportagem publicada por este jornal, em que um tanque se confundia com uma piscina, sendo essa a mais inofensiva das ilicitudes atribuídas a Luís Neves, agora, sem sombra de dúvida, sob investigação do Ministério Público, que afastou a Polícia Judiciária (PJ) do processo – também porque a instituição parece incapaz de agir com imparcialidade neste caso concreto: apurar em que circunstâncias o atrelado apreendido na Lourinhã, ligado à produção de cocaína, apareceu em Barcelos, perto do armazém do empreiteiro amigo de Luís Neves.
Ao SOL, um ex-operacional da PJ considerou que está em curso uma vendetta contra o ex-diretor — que, diz a mesma fonte, «cortou demasiado a direito» –, mas que agora se vê ferido na sua «dignidade e idoneidade», num processo que classifica como de autoflagelação. Também ao SOL, uma fonte do Governo deixou escapar que a situação de Luís Neves é insustentável, uma vez que o fluxo de informação sobre o ex-diretor nacional da PJ ainda não acabou.
Apesar de ser um outsider – um independente que fez trinta anos de carreira na Polícia Judiciária, nos últimos anos com o apoio dos governos de Costa e Montenegro –, Luís Neves nunca esteve isolado: era tratado, entre os ministros, com alguma bonomia e bom humor, como «Chuck Norris», personagem que a cultura popular tornou maior do que o próprio ator que lhe deu corpo, «o medo tem medo de Chuck Norris», dizia-se de «Walker, o ranger do Texas». Mas esse estado de graça desapareceu, e é claro que Neves não está hoje no mesmo plano dos outros dois ministros problemáticos do momento – o ministro da Educação, Fernando Alexandre, e o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Miguel Pinto Luz. Por contraponto: estes dois são para agarrar; Luís Neves é para cair. Dito de outro modo, dificilmente se aguentará no Governo, e há a sensação de que a saída do MAI – por mais contraproducente que possa parecer, sendo já o terceiro ministro da pasta em dois anos – é mais vantajosa do que a permanência no cargo. Sairá Neves do Governo nos próximas dias, ou, no limite, nos próximos meses, empurrado pelo primeiro-ministro, ou sairá por iniciativa própria, com uma carreira e uma reputação destruídas – ele que era visto como um dos ministros mais capazes, e o mais popular, do Governo de Montenegro? Não é uma decisão fácil, e o nervosismo do ministro nas suas agora raras e breves aparições mediáticas dá sinais disso mesmo.
Os sociais-democratas que ocupam espaço mediático evocam o precedente de Miguel Macedo – que se demitiu do cargo de ministro da Administração Interna em novembro de 2014, na sequência da Operação Labirinto, investigação relacionada com os ‘Vistos Gold’; não tendo sido arguido nem acusado de qualquer crime, entendeu que não podia continuar no Governo e demitiu-se, vindo a ser absolvido de todas as acusações em 2024 –, mas fazem-no sem, ainda assim, condenar abertamente Luís Neves. O caso mais paradigmático foi o de Pedro Santana Lopes que, no início da semana, no espaço Now, afirmou: «Vivemos num circo permanente de tiro ao ministro»; acrescentando: «Tem de haver uma explicação, caraças!».
Também Pedro Duarte, um dos vice-presidentes do PSD, disse no Princípio da Incerteza, da CNN Portugal, que o caso do ministro da Administração Interna «obviamente que tem de ser esclarecido», sendo preciso separar «aquilo que são mesmo suspeitas» de «questões que são evidentemente menores para aquilo que é a integridade de uma pessoa no exercício de funções». E atirou: «Alguma coisa de bem ele está a fazer para incomodar tanto o Chega» – partido que, segundo Duarte, tenta «de forma desesperada» derrubar Luís Neves, do qual já tinha pedido a demissão quando este ainda dirigia a PJ, incomodado com a dissonância entre a narrativa do Chega e a relação direta que o partido procura estabelecer entre imigração e criminalidade. Essa foi também, numa primeira fase, a narrativa tentada pelo próprio Governo, mas que, pouco a pouco, se foi dissipando: nem Hugo Soares, secretário-geral do PSD, nem Sebastião Bugalho, porta-voz do partido, fizeram de Neves a defesa perentória, mesmo que em dissonância com a realidade, que fizeram de Alexandre, a quem procuraram justificar o caos da digitalização dos resultados dos exames atribuindo as falhas mais ao processo do que ao ministro, reforçando o argumento de que o futuro passa pela digitalização. «O pior já passou», disse o primeiro-ministro sobre o assunto.
«Até fizemos uma transição bastante gradual e conservadora», disse Bugalho em entrevista à Antena 1, prosseguindo, fiel ao seu estilo: «Não vou usar a palavra sabotagem, mas é muito diferente ter uma agenda reformista quando se está no poder há dois anos, depois de o partido adversário ter estado no Estado durante nove», concluindo que, também por isso, «é mais difícil acertar à primeira».
Quanto a Miguel Pinto Luz, envolvido num negócio discutível ligado à construção de um hotel e de apartamentos de luxo na Linha de Cascais, deu esta quarta-feira boas notícias – e assegurou, de caminho, a sua sobrevivência política – ao apresentar o projeto do novo Aeroporto Luís de Camões... para 2036 ou 37.
Temos, assim, Alexandre e Pinto Luz poupados, e Neves mais exposto, sujeito a todas as explicações.
Montenegro não vai ao Pontal
A última Festa do Pontal ficou de má memória para o primeiro-ministro: ninguém entendeu como se podia celebrar, em festa, a rentrée partidária de agosto, quando o país estava a arder. O SOL sabe que essa memória continua tão presente que Luís Montenegro fez saber que deixaria a Hugo Soares, secretário-geral do PSD, as honras de anfitrião, não estando ele próprio presente. Esta semana, porém, uma nota do gabinete do primeiro-ministro veio esclarecer que Montenegro não terá as habituais férias de verão, e que o presidente do partido estará presente nas duas atividades anuais do PSD: a Festa do Pontal (14 de agosto) e a Universidade de Verão, em Castelo de Vide, de 24 a 30 de agosto.
Há também quem especule que o primeiro-ministro decidiu não tirar férias porque pode vir a ter de acumular, uma vez mais, as funções de primeiro-ministro com as de ministro da Administração Interna – tal como fez quando Maria Lúcia Amaral fechou a porta entreaberta. Desta vez, Montenegro conta, dizem-nos, com a cumplicidade discreta do Presidente da República que, não estando satisfeito com nada do que vê, opta, prudentemente, por não abrir mais uma frente num incêndio que o Governo tenta circunscrever – também porque se trata de um ministro relevante, num momento particularmente sensível.
O mesmo estado de alma atravessa o PS de José Luís Carneiro, mas este silêncio é ruidoso e coloca Neves sob grande pressão e, por arrasto, Montenegro.