quinta-feira, 16 abr. 2026

Montenegro antecipa Passos

Luís Montenegro lançou um desafio público a qualquer dirigente com um ‘caminho diferente e alternativo’ para se candidatar às diretas antecipadas de maio, numa tentativa de controlar a narrativa e neutralizar Pedro Passos Coelho – mas que, paradoxalmente, pode revelar mais fragilidade do que força na liderança do partido.
Montenegro antecipa Passos

«O senhor primeiro-ministro gosta de antecipar o tempo político», disse esta quinta-feira, nas últimas horas do seu mandato como Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, aos jornalistas, sentado ao lado do primeiro-ministro, Luís Montenegro. Quando questionado de forma mais direta sobre a relação entre o antigo líder do PSD, Pedro Passos Coelho, e o atual, Luís Montenegro, o ainda Presidente andou às voltas. Admitiu que «é difícil sair de cena», mesmo para um político, falando sobretudo de si próprio e evitando referir-se diretamente a Passos, que voltou a entrar em cena – algo que não está a ser fácil para Montenegro.

Alguém sussurrou ao ouvido de Luís Montenegro o conceito de stealing thunder, e o presidente do PSD e primeiro-ministro gostou da ideia – que poderia ter usado quando os media começaram a falar da casa de Espinho ou da Spinumviva – e desafiou publicamente, a partir do Conselho Nacional do partido, a meio da semana, qualquer dirigente com um «caminho diferente e alternativo» a apresentar-se às diretas antecipadas para maio.

É a mensagem menos encriptada da história política recente, de um óbvio ululante, e destina-se a Pedro Passos Coelho, que muito recentemente foi cristalino quando afirmou: «Quando eu me quiser candidatar, candidato-me e anuncio que me vou candidatar».

Vamos supor que quem sussurrou o conceito ao ouvido de Montenegro – o conceito de stealing thunder, que, para quem não está familiarizado com a expressão, e simplificando, passa por assumir por antecipação aquilo que poderá ser usado contra nós, controlando a narrativa e reduzindo o impacto crítico – o tenha advertido para o risco que a estratégia acarreta.

Controlar a narrativa e transformar o evidente movimento crítico protagonizado por Passos Coelho numa decisão clara – ou há candidatura alternativa, ou não há – pode não ser suficiente para iludir a perceção externa de que o partido é feito de várias sensibilidades e que nem todos são ‘montenegristas’. Aliás, convém aqui notar o que se passou recentemente na distrital de Braga do PSD, em que concorreram duas listas: a lista B, liderada por Carlos Eduardo Reis, figura salpicada com o caso Tutti-Frutti, em Lisboa, venceu a lista A, de Paulo Cunha, próximo de Luís Montenegro e de Hugo Soares, que se recandidatava.

Os mais benevolentes dirão que o PSD é feito de uma multidão de gente com pensamento próprio, mas também é notório que a dupla Montenegro-Soares não consegue debelar o «taticismo político», usando as palavras do líder parlamentar, de muitos dos dirigentes. E, se Pedro Passos Coelho é a figura mais visível do dissídio ou mal-estar interno, não é o único. Montenegro desdramatiza, dizendo que a clarificação interna nos partidos é «um contributo para a estabilidade, porque é sempre uma oportunidade de clarificação, e a clareza é também um eixo fundamental da estabilidade».

 

Ou vai, ou racha

A tentativa de neutralizar Passos Coelho e controlar a narrativa – ou, se quisermos, os tempos políticos – pode ser contraproducente, porque se há coisa que o antigo líder do PSD já enfatizou é que tem absoluto controlo sobre o seu tempo político. Nesse caso, a atitude de Luís Montenegro pode ser interpretada como a assunção de que Passos o encostou à parede. Montenegro, ao tentar evitar a sensação de acosso, mostrou-se acossado. Politicamente, é pouco avisado: não revela força, mas fragilidade. Montenegro pode não levar Passos a clarificar a sua posição de forma aberta, numa disputa interna, mas a ausência de adversário não lhe dará a vitória; deixará antes a sensação evitável – ou inevitável – de derrota.

Luís Montenegro é racional, mas também é instintivo – ou «intuitivo», nas palavras do ainda Presidente. Houve momentos da sua carreira política em que o instinto funcionou, as circunstâncias foram favoráveis e o jogo correu de feição. Provavelmente, foi racional quando decidiu manter a neutralidade nas últimas eleições presidenciais, deixando dirigentes e militantes à vontade para tomarem as posições que considerassem mais adequadas no espaço social-democrata. A escolha recaiu maioritariamente no homem da «esquerda moderna e moderada», o Presidente eleito António José Seguro, e Montenegro abriu as janelas por onde agora se fazem sentir correntes de ar de alguma divisão ou, pelo menos, de tensão interna.

Complementando a entrevista que nos deu, Miguel Poiares Maduro, em comentário aos mais recentes acontecimentos, disse-nos: «Acho que Pedro Passos Coelho foi muito claro ao dizer que só se colocaria a hipótese de um seu regresso em circunstâncias excecionais e que representariam que o partido e o país tinham falhado. Por isso, não acho que o gesto de Luís Montenegro possa ser visto como dirigido a Passos Coelho; antes me parece dirigido ao ruído mediático em torno da participação pública de Passos Coelho, procurando eliminar do espaço público a ideia de que Passos Coelho possa querer disputar com ele a liderança do mesmo espaço político».

«O país tem um gigante a falar longa e competentemente dos seus problemas estruturais e da forma de os debelar e um anão a pensar em preservar o seu lugar. Em vez de abraçar o privilégio de ter os contributos de Passos Coelho, Montenegro está preocupado com o prejuízo do seu poder», escreveu Pedro Gomes Sanches num post no Facebook, numa formulação elaborada da ideia que partilhou com o SOL.

Gomes Sanches, que não sacode o rótulo de passista – antes pelo contrário – disse-nos que Passos Coelho é «o político mais lúcido, mais competente e mais exigente com a governação do país», e que «aparece duas ou três vezes, com longas e sustentadas declarações» sobre os grandes problemas que afetam o país, entre o diagnóstico e as soluções. Isso não deve ser confundido com uma «reforma ideológica», mas visto como um pedido sério de reformas, vindo de alguém «que não tem uma visão taticista da conquista do poder» e que deve ser ouvido.

Gomes Sanches é razoavelmente crítico da liderança de Montenegro, mais ainda do que chama de liderança bicéfala de Luís Montenegro e Hugo Soares, e não tem pudor em falar de «António Costa 2.0», para se referir a Montenegro – expressão que vai ficando mais audível, e visível, a cada dia que passa entre os sociais-democratas.

 

Passos ensombra Ventura

Passos Coelho não ensombra apenas o líder do PSD. O espaço público e mediático que tem vindo a ocupar – e ainda por cima de forma responsavelmente argumentativa – tem perturbado André Ventura, atirando para a sombra o papel que vinha reclamando como seu e desviando Montenegro do caminho: o de líder da direita. É demasiado evidente que é mais difícil para Ventura desviar Passos Coelho desse caminho que quer percorrer com um terço do eleitorado – muito para Ventura, mas não o suficiente para liderar a direita e o país. Em quase sete anos, André Ventura fez imenso como líder partidário, mas não fez tudo, e pode ter atingido um patamar a partir do qual pouco ou nada poderá progredir.

E é aqui que Passos Coelho também faz a diferença: ele é o único que parece «capaz de federar uma direita ainda maioritária, não toda a direita, mas uma maioria de direita», disse-nos Gomes Sanches. Mais ainda: «Passos Coelho é o único que pode trazer André Ventura para dentro do sistema, responsabilizando-o».