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A demissão da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, tinha tudo para ser uma não-notícia, de tão evidente. Relevantes são os passos seguintes do primeiro-ministro, a começar pelo nome escolhido para o Ministério da Administração Interna (MAI), que — independentemente de duas más escolhas de Luís Montenegro — tem sido uma máquina de triturar ministros.
Numa altura em que todos comentam o assunto, pede-se um peso pesado para o MAI, um ‘buldózer político’. Mas isso faz lembrar o tempo em que Estaline escolhia um homem para liderar o então GPU/NKVD que, invariavelmente, acabava executado às suas ordens. Ou seja, os pesos pesados do ‘montenegrismo’, quando se trata do MAI, tornam-se invisíveis. E não por acaso foi o próprio primeiro-ministro quem assumiu transitoriamente a pasta.
Entretanto, ficou a ideia de que a saída da ministra não ocorreu no tempo dele, mas no tempo dela: foi ela quem pediu a demissão, já na semana passada, alegando — nas palavras da Presidência — não dispor das «condições pessoais e políticas indispensáveis para o exercício do cargo».
Outra originalidade foi a forma como o país soube da saída de uma ministra que já exercia funções «em contexto de invisibilidade»: ao final do dia, através do site da Presidência, quando Marcelo Rebelo de Sousa se afastava dos jornalistas para participar no jantar restrito da entrega do Prémio Pessoa a Lídia Jorge. Antes, tivera uma conversa com o primeiro-ministro, que lhe falara, em termos genéricos, da possibilidade de mexidas no Governo — para quando a chuva passar e o sol voltar, o que pode acontecer já este fim de semana. Marcelo ter-se-á remexido na cadeira e empurrado o assunto, entre a teimosia e a cortesia, para março. Para Seguro.
Um dia perceberemos como Marcelo colocou o poder nas mãos de Montenegro, um primeiro-ministro de quem nunca gostou.
Entretanto, no início de março termina o mandato do general José Nunes da Fonseca como chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA). Será interessante perceber como o Governo articulará esta questão com o Presidente em funções e com o Presidente eleito. O CEMGFA exerce funções desde 1 de março de 2023, nomeado pelo Presidente da República após proposta do Governo liderado por António Costa. Até agora, não há informação pública sobre qualquer processo de sucessão.
Aproveitará Montenegro a demissão (in)conveniente de Maria Lúcia Amaral para mexer as peças do tabuleiro governativo? Ou ficaremos por aqui, numa troca simples de peças? O que sabemos é uma gota, o oceano está na cabeça de Montenegro.
Paulo Rangel - Estado e Negócios Estrangeiros
Se o Governo fosse uma história da Marvel, Rangel seria um dos “Quatro Magníficos”, ao lado de Miranda Sarmento, Leitão Amaro e Castro Almeida — o núcleo duro de Montenegro. Cada um enfrenta os seus próprios desafios, mas Rangel distingue-se pela estabilidade do seu desempenho e pela reputação que construiu além-fronteiras. É, entre todos os ministros — primeiro-ministro incluído — o mais conhecido no exterior. Em situações de crise, mantém-se firme, argumentativo e estratégico, uma presença segura, capaz de traduzir a política externa dentro das suas limitações. Portugal procura afirmar-se, mas continua sem conseguir uma voz autónoma na política externa, alinhando frequentemente com as posições dos parceiros europeus.
Joaquim Miranda Sarmento - Estado e Finanças
O Governo não tem razões de queixa do ministro, pelo contrário, é Miranda Sarmento quem tem motivos para se queixar de um Executivo que, entre trapalhadas próprias e outras que lhe são alheias, coloca em segundo plano o excelente trabalho que tem realizado no Ministério das Finanças. Consistente nas políticas e no equilíbrio orçamental, mantém o país alinhado com os compromissos da União Europeia. O ‘relógio suíço de Montenegro’ vive um estado de graça, entre bons resultados e múltiplos elogios, mas avizinham-se dias difíceis: é pouco provável que as ‘contas certas’ sejam poupadas às sucessivas tempestades que têm assolado o país. O ‘cataclismo’ que temia chegou.
António Leitão Amaro - Presidência
Na sombra do primeiro-ministro — ou como primeiro-ministro-sombra — o ministro da Presidência dificilmente será apagado do Governo, ao contrário do vídeo nas redes sociais em que procurou encenar um dinamismo pouco convincente em situação de catástrofe. ‘Torre de Controlo’ é o nome da operação da Polícia Judiciária que envolve helicópteros de combate a incêndios, contratos no valor de cerca de 100 milhões de euros e a empresa Gesticopter Operations Unipessoal, ligada ao cunhado, Ricardo Machado. O ministro já garantiu não ter qualquer envolvimento no processo, mas o caso poderia tornar-se um engulho se viesse a ocupar — ou a acumular — a pasta da Administração Interna, que não quer. Uma hipótese, aliás, que parece estar definitivamente afastada.
Manuel Castro Almeida - Economia e Coesão Territorial
É o adulto na sala que, com frequência inusitada, comete as gafes de um adolescente — deslizes de comunicação que rapidamente são enquadrados na ‘margem de erro’. Um homem do partido, um ministro que faz política à moda antiga, mas que se mantém como um dos mais experientes do Governo, com a gestão do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), um pacote financeiro superior a 20 mil milhões de euros. Numa governação em rede, que passa por manter e, se possível, alargar a base eleitoral do Executivo, este destacado mendista é um homem indispensável ao primeiro-ministro, pelo respeito que colhe dentro e fora dos partidos da AD.
Gonçalo Matias - Adjunto e Reforma do Estado
Um outsider por quem passa uma das mais importantes reformas do Governo. Se não deixar mais nada, Montenegro quer deixar marca na Reforma do Estado. Matias está consciente da tarefa e da ligação privilegiada com o PM, mas também é visto como alguém cheio de si, vaidoso. Num ambiente hostil, tem igualmente de estar consciente de que não é político: está a fazer-se e, pelo caminho, pode ser engolido. Recentemente, teve de assumir a polémica contratação de Frederico Perestrelo Pinto, irmão do chefe de gabinete de Montenegro — um processo da responsabilidade de António Vicente, coordenador-geral do grupo de trabalho da Reforma do Estado, que depende de Leitão Amaro, e que está no Governo, pago pela Comissão Europeia, a ganhar mais do que o primeiro-ministro.
Carlos Abreu Amorim - Assuntos Parlamentares
Não há muito a dizer sobre um ministro que, por definição, tem um discreto trabalho de bastidores na ligação entre o Governo e a Assembleia da República, tarefa que Abreu Amorim tem visto facilitada — ou dificultada, depende da perspetiva — pelo facto de, no Parlamento, estar Hugo Soares, a verdadeira ponte com o Governo e, mais intimamente, com o primeiro-ministro. Aliás, não raras vezes Soares sai do Parlamento para falar em nome do Governo. Noutros governos e com outros ministros, o titular dos Assuntos Parlamentares acumulava a pasta com a Comunicação Social ou com o Desporto, não é agora o caso. Abreu Amorim prossegue tranquilamente na sua tarefa, até agora sem sobressaltos.
Nuno Melo - Defesa
Esta semana, o país assistiu, atónito e pela primeira vez, a uma conferência de imprensa dos três ramos das Forças Armadas — Estado-Maior-General incluído — a pedido do comandante supremo, o Presidente da República, que entendeu que os comunicados não são suficientes para explicar o que se passou com a resposta dos militares à catástrofe. E assim chegamos ao ministro da Defesa, o líder do CDS, parceiro de coligação da AD. Numa altura em que, na lista de prioridades do primeiro-ministro, não está qualquer dissídio com o CDS e o seu líder — até porque a marca AD é para manter — o ministro é inamovível, mas está sob forte pressão, com um Presidente eleito que, em campanha, afirmou que vai estar muito atento a tudo o que se passa na Defesa.
Rita Alarcão Júdice - Justiça
Não é uma ministra fácil, está relativamente isolada no Conselho de Ministros por vontade própria, uma vez que privilegia a relação com o primeiro-ministro, que é muito boa. Apesar disso, não há reforma que se veja, num setor em que os problemas se eternizam. A ministra não trouxe nada de novo, não é muito diferente de outros ministros que ocuparam o cargo, também porque a Justiça é uma daquelas áreas que ‘não se governa e não se deixa governar’, assente numa cadeia de elos fortes de um sistema corporativo impenetrável, que fragiliza qualquer ministro. E se Júdice considera que é capaz, é provável que venha a ter uma enorme deceção. A reforma da Justiça, consensualmente reconhecida como uma necessidade, tem sido e continua a ser sistematicamente adiada.
Maria Lúcia Amaral - Administração Interna
Foi das escolhas mais elogiadas pelo comentariado da nossa praça no momento em que Luís Montenegro apresentou o seu novo Executivo. Aliás, foi mesmo dada como exemplo da capacidade de recrutamento do primeiro-ministro e líder da AD. Mas acabou por ser substituída no Ministério da Administração Interna ainda antes de o ter sido no cargo que deixou vago para ingressar no Governo, o de Provedora de Justiça, para cuja nomeação o Parlamento ainda não conseguiu reunir o indispensável consenso. Académica e jurista de invejável currículo, Maria Lúcia Amaral cedo revelou não ter as condições mínimas, pessoais e políticas, para funções operacionais e comunicacionais tão exigentes. Razões que acabou por invocar para obrigar o PM a aceitar a sua saída com o país em estado calamitoso.
Fernando Alexandre - Educação
Trouxe tranquilidade a um setor turbulento, mérito que acrescenta a um currículo sólido e a uma gestão capaz — muito diferente da que teve quando passou pelo MAI como secretário de Estado, período em que foi acusado pela PSP de sobranceria e de falta de sensibilidade, algo que, diga-se, não perdeu por completo.
Em dezembro de 2025, tornaram-se virais declarações do ministro sobre residências universitárias e estudantes desfavorecidos. As afirmações foram descontextualizadas, mas o ministro acabou confrontado com atitudes discriminatórias. Usou da tal sobranceria quando considerou a FCT ‘desfasada dos desafios atuais do país’ e decidiu pelo seu fim sem falar com quem dela precisava. Mas o seu trabalho é incontestado e a sua permanência no Governo inquestionável.
Ana Paula Martins - Saúde
É uma tem-te-não-cais do Governo há tanto tempo que se normalizou. Por estes dias, com o país concentrado nas catástrofes decorrentes das tempestades, a ministra poderia ter um tempo de paz relativo se não tivesse entrado em guerra com o INEM, uma estrutura com que quer acabar — e já tentou — mas que se mostra mais difícil de desmontar do que parece. Além disso, corre o risco de substituir o INEM por algo ainda pior, aí, sim, tornar-se-ia insuportável para o primeiro-ministro, que, claramente, a tem mantido ligada ao poder mesmo em situações extremas. A ministra compensa tudo isso com muito trabalho e empenho, embora os resultados demorem a aparecer. Entretanto, a caminho de Belém está um Presidente que tem na Saúde uma causa assumida.
Maria Rosário Palma Ramalho - Trabalho, Solidariedade e Segurança Social
Uma das mais difíceis ministras do Governo no que toca ao trato pessoal, hipercontroladora, com dificuldade em delegar. É uma prestigiada académica, mas com problemas de comunicação interna e externa, que acabou por arrastar o Governo — e o primeiro-ministro deixou-se arrastar, pela pressa de apresentar reformas — para uma reforma laboral necessária, mas mal conduzida desde o início, como anteprojeto. O ‘pacote laboral’, e tudo o que contém, entre reformas e contestação, está tão agarrado à pele da ministra que qualquer cedência se torna uma questão de princípio. Para Palma Ramalho, essas cedências devem ser inaceitáveis — verdadeiros pregos no caixão de uma ministra que tem tudo para chegar ao fim deste processo politicamente enterrada.
Maria Graça Carvalho - Ambiente e Energia
Em tempo de tempestades, a ministra trouxe alguma bonança ao Governo. Demonstrou conhecimento técnico e ponderação, associados a uma boa comunicação: acolhedora, empática, ponderada e segura. Dito isto, a candura da ministra pode não ser suficiente para ultrapassar os desafios do Ministério do Ambiente — onde já caíram ministros como António Costa — e a tensão com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que tem sido um entrave a reformas importantes. O relacionamento com as autarquias também não se prevê fácil. Há ainda a gestão do PRR para a resiliência climática, a executar até 2030, e eventuais bloqueios parlamentares. Não é uma ministra em causa, mas as causas da ministra não são fáceis.
Margarida Balseiro Lopes - Cultura, Juventude e Desporto
Cultura e Desporto não é uma associação consensual. Se a isto se juntar a Juventude, ou a ministra tem uma superequipa, ou, mais dia menos dia, as insuficiências tornar-se-ão óbvias e poderão pôr em causa um dos elementos mais prometedores do chamado ‘montenegrismo’, que tem com o primeiro-ministro uma relação muito próxima. Margarida Balseiro Lopes é dos poucos ministros que, volta e meia, chama Montenegro à realidade ou introduz alguma ponte entre a realidade e a ação governativa. Está obviamente assoberbada, ainda que imparável, e é provável que o ministério multitemático que dirige venha a ser reconfigurado, talvez com a Cultura a ter autonomia e ministério próprio.
José Manuel Fernandes - Agricultura
Por estes dias, seria de esperar que se ouvisse falar do ministro com a produção agroindustrial do centro do país arrasada. O homem que veio de Bruxelas, com talento e experiência, para cuidar da agricultura nacional, desapareceu com o vento das tempestades, para reaparecer esta semana no Parlamento, para esclarecimentos sobre um polémico vídeo publicado em janeiro — uma trapalhada que envolve dirigentes do ICNF e expressões como ‘mentirosos’, ‘covardes’ ou ‘radicais’. Defendeu-se com a Constituição e disse que «há gente que quer inverter o Estado de Direito e pensar que é a administração que manda no Governo». Não é um ministro em causa, mas não está garantido que tenha sido uma boa escolha.