Todos os dias há declarações de militantes do PS que merecem reações de outros militantes. O mais recente diz respeito à disponibilidade demonstrada por Mariana Vieira da Silva de um dia se candidatar à liderança do PS. Ascenso Simões não demorou a responder. O PS está a implodir?
Não. O PS está vivo. É plural, com milhares de militantes e uma multiplicidade de opiniões que são de salutar. E felizmente tem quadros bons a quem os jornalistas acham interessante perguntar se sonham mais alto. Era só o que mais faltava que isso fosse um problema. Pluralidade não é implosão e unanimismo não é coesão. O importante é saber fazer a síntese dessas ideias e desses perfis para enriquecer a nossa propositura. Acabámos de eleger um líder com esse mesmo objetivo.
Há uma ‘guerra’ aberta entre a ala mais esquerdista, a mais liberal e a mais católica? Os Costistas e Nunistas não desistem do poder?
O único “ista” que nos deve interessar ser é socialista. O único poder que nos deve interessar é transformar o país. Aliás, o grande erro da nossa família política é andarmos com o esquerdómetro apontado uns aos outros – ora uns são demasiado ao centro, ora outros demasiado à esquerda. O que nós precisamos são de ideias e de trabalho no terreno a reconstruir a relação de confiança com os portugueses.
Não há uma certa contradição entre o ‘desnorte’ do partido e as sondagens que dão o PS à frente nas intenções de voto?
O Governo está a atravessar um momento muito difícil – respondeu mal às intempéries, não está a responder à inflação e anda a arrastar o pacote laboral que já toda a gente percebeu ser péssimo. Passados dois anos de Governo, o que é que está melhor? As promessas de campanha saíram goradas. Esse descontentamento é visível nas sondagens. Mas para essa vantagem ser durável e o PS poder regressar ao poder é preciso mais do que demérito do adversário. É preciso que as pessoas voltem a entusiasmar-se com a mensagem de esperança que o PS tem para oferecer ao país.
Na sua moção apresentada em Viseu defendeu que o PS não deve procurar pactos com o PSD, nem estar «em cima do muro do nim», mas sim apresentar soluções. José Luís Carneiro não o tem feito?
Tem sido cada vez mais afirmativo. E deve procurar pactos com o PSD, em matérias de soberania e não só. Para reformar o país, não para nos corresponsabilizar pela governação deles. A estabilidade não é um fim em si mesma. Eu não quero que as pessoas olhem para o PS e pensem: que bons são a negociar com o PSD. Quero que pensem: eles sabem o que querem para o país. Temos de estar cá para dar soluções ao custo de vida que esmaga a classe média, para resolver a crise da habitação, para transformar o perfil competitivo da nossa economia. E as soluções não podem ser mais do mesmo. Os problemas novos exigem soluções novas e para problemas antigos, ninguém acredita em soluções antigas. É preciso arrojo, audácia, ambição.
Com estas ‘guerras’ todas imagina-se líder do PS?
Nem vale a pena perder tempo com ‘guerras’ que, já agora, não me parece que existam. A política deve-se fazer com ideias e muito trabalho. É isso que me anima e me ocupa.
Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro eram bastante próximos, mas o divórcio é evidente. Com qual se identifica mais?
Refuto esse divórcio. Trabalhei com os dois. E espero continuar a trabalhar.
Acredita que Pedro Nuno Santos poderá fazer um novo partido, numa aliança com o BE e o Livre? Apoiaria esse eventual partido?
O partido do Pedro Nuno Santos é o PS. Tenho muito orgulho em ser militante do PS. Não vejo razão para haver outro. É um partido com muita história, com muitos desafios mas - garanto-lhe - com muito futuro.
Pedro Nuno Santos e a extrema-esquerda foram os mais castigados nas últimas eleições legislativas. É possível a receita apresentada ter sucesso no futuro?
Nas últimas eleições, os portugueses deram um sinal que temos de perceber e que foi o de dar tempo à alternância democrática. O PS governou 8 antes disso. Temos de respeitar, refletir, aprender e voltar a criar uma alternativa que traga esperança aos portugueses. Mas, como já disse, as pessoas estão mais preocupadas em saber quem responde aos seus problemas do que em fazer medições de esquerdómetro.
O PS devia apresentar alguma proposta de alteração à lei laboral?
O PS deve apresentar sempre qual é a sua alternativa. Não acho é que o Governo dê mostras de razoabilidade nesta discussão. E o sentido da reforma é o contrário do que é necessário. É um regresso ao passado de precariedade, quando o futuro é a economia da inovação. O que vemos nas empresas mais inovadoras? Salários altos, conciliação da vida pessoal e profissional e vínculos estáveis. Porque a qualidade do emprego é um estímulo à fixação de capital humano. Mesmo olhando para os desafios da inteligência artificial e da robotização, ou até das alterações climáticas, o pacote laboral não nos prepara para o futuro.
Tem 31 anos, quase a fazer 32, e já está na política desde os 14. É um dos novos rostos do PS e foi dos mais críticos no último Congresso. Pensa que é uma mais-valia ter estado quase sempre na política, já que só trabalhou no privado oito meses?
A política para mim não é uma profissão. A minha profissão é ser economista. Como é evidente, fiz escolhas. Depois do meu percurso académico, de uma breve experiência no privado e de ter sido recrutado para o Ministério das Finanças por concurso público, escolhi o serviço público e o sentido de missão. Tem sido uma experiência muito gratificante. No Gabinete do Primeiro-Ministro e, depois, na Assembleia da República, com conquistas que muito me orgulham, como a Lei de Bases do Clima, o Direito ao Esquecimento, a regulação das comissões bancárias e do teletrabalho, entre tantas outras propostas. Mas, profissionalmente, serei sempre economista e, por isso, estou a tirar o doutoramento em economia. Agora, quero-lhe dizer que não podemos exigir aos partidos que tenham representação jovem e, ao mesmo tempo, exigir aos jovens um percurso impossível. Ter 31 anos, experiência política, carreira profissional longa, com uma passagem lá fora, obra feita e ainda não ter começado cedo demais. Isso é uma contradição. É preciso valorizar quem se entrega a estudar e construir as políticas públicas porque a sua qualidade depende de as trabalharmos aprofundadamente.
São muitos os que criticam as juventudes partidárias. Como encara essas críticas?
São, muitas vezes, injustas. Quantos jovens seriam eleitos autarcas, seriam eleitos para o Parlamento sem as juventudes partidárias? Foi numa juventude partidária que percorri o país, que conheci pessoas fora da minha bolha, aprofundei ideias e conhecimentos, tive desafios a liderar equipas e montar projetos. E, sim, pude afirmar as ideias e preocupações da minha geração. Não esperei que alguém me desse a vez. Como todas as estruturas compostas por pessoas, não são perfeitas. Mas são o melhor instrumento que temos para dar voz às novas gerações e capacitá-las para o exercício de cargos públicos.
Estudou no ensino privado, em Portugal, e em Inglaterra, onde fez a universidade em Warwick, Aí fez parte da associação de estudantes, onde criou uma geringonça à esquerda. Acredita que o PS terá de ressuscitar uma geringonça no futuro?
Se houve coisa que aprendi em Inglaterra foi que discordar podia ser saudável e construtivo. Eu não acredito na política como uma arena. Acredito na política que faz coisas e, para isso, é preciso conversar e ter muito bom senso. Penso que se decide melhor quando se pensa em conjunto. Até porque ninguém é dono da razão. Por isso, acho que o PS deve dialogar com outros partidos, sim, mas sem abdicar de quem é - progressista, europeísta, atlantista, a defender uma economia de mercado mas que seja justa e sustentável.
Sente que foi ‘cancelado’ no último Congresso?
Sinto que a nossa moção corporizou o sentimento de uma grande parte dos militantes socialistas e da sociedade portuguesa. O PS saiu das eleições legislativas de 2025 a precisar de fazer uma reflexão. Foi isso que fizemos. Aliás, estou convencido que isso enriqueceu o Congresso e que o próprio Secretário-Geral concorda com muitas das coisas que identificámos na moção. Agora rejeito a premissa que haja algo a ‘cancelar’ - no PS não se cancela ninguém por pensar e sempre se valorizou quem o faz.
Foi acusado, há uns anos, por Sérgio Sousa Pinto de ter tiques estalinistas. Arrepende-se de algumas das suas posições passadas?
Isso foi porque no meu primeiro discurso como líder da JS mencionei alguns anteriores líderes a título de exemplo e não o mencionei a ele. Mas isso não é reescrever a história. Aliás, o Sérgio foi um líder marcante da JS, com conquistas de monta. E é uma cabeça que muito admiro e com quem gosto de falar. Olhe, recuperando a pergunta de há bocado, é um bom exemplo do valor que pode ter um jovem dedicar-se, desde cedo, à política.
Também ficou na memória a sua preferência por Xi Jinping em relação a Trump, embora depois tenha explicado que foi mal interpretado. Hoje, se tivesse que escolher entre um e outro, por quem optaria?
Mas optaria para quê? Se me está a perguntar se prefiro a democracia americana à ditadura chinesa, a resposta é óbvia. Agora acho inconcebível como alguns políticos em Portugal são incapazes de ver como Trump trazia consigo - como agora se consegue comprovar - uma ameaça à democracia americana, aos valores da paz e dos direitos humanos e, sinceramente, à Europa.
Por fim, um dia perfeito para si tem que incluir política? O que lhe dá mais gozo fazer, excluindo a política?
A política realiza-me muito e é verdade que dedico muito tempo ao trabalho. Mas gosto muito de conviver com família e amigos. Gosto muito de poesia, música, uma boa série quando chego a casa à noite. Estou a fazer o doutoramento, como disse, e vou ser pai este verão. Por isso, uma nova etapa está prestes a começar.