Mega-aeroporto e empresas de construção: o mesmo presidente

Mineiro Aires saltou da comissão que propôs Aeroporto em Alcochete para a administração da nova Fundação da Construção. E diz que têm de ser as empresas portuguesas a fazer a obra.
Mega-aeroporto e empresas de construção: o mesmo presidente

O mais alto representante do grupo de professores universitários que recomendou ao poder político a maior obra pública desde o 25 de Abril defende agora os interesses das grandes empresas de construção civil. Em 2022, António Costa não criou apenas a designada Comissão Técnica Independente (CTI) para o estudo da localização do novo aeroporto de Lisboa. Nomeou também uma Comissão de Acompanhamento (CA), com a missão de «garantir a independência» da primeira. O presidente da CA da CTI era Carlos Mineiro Aires. Atualmente, é o administrador executivo da Fundação da Construção. Esta entidade, constituída em julho de 2024, reúne três ordens profissionais – Arquitetos, Economistas e Engenheiros – e 16 grandes empresas: A400, Alves Ribeiro, Betar, Casais, Câncio Martins, Coba, Conduril, Gabriel Couto, Edivisa, HCI, JLCM, Mota-Engil, NRV, Teixeira Duarte, Ventura + Partners e Visabeira.

«Há aqui claramente um conflito de interesses. Se a comissão era independente, alguns dos comissários claramente não são», reage João Paulo Batalha, vice-presidente da Frente Cívica. Esta organização não governamental de luta contra a corrupção aponta o dedo à coincidência entre «a opção da CTI pela construção de um mega-aeroporto» e o facto de o seu mais alto responsável «se ter tornado o porta-voz assumido do setor que vai ser beneficiado por essa grande obra pública».

Contactado pelo SOL, o visado disse não vislumbrar qualquer conflito de interesses e rejeitou fazer outros comentários. No entanto, fez declarações públicas que deixaram patente uma relação direta entre os seus dois cargos. «Se as empresas portuguesas tiverem a oportunidade de fazer um grande aeroporto criam currículo para poder concorrer lá fora a outros aeroportos semelhantes. Não lhes sendo dada essa oportunidade, ficam pelo caminho», afirmou Mineiro Aires, em entrevista dada na semana passada ao Expresso.

 

‘CONTINUA A CONDICIONAR O PODER POLÍTICO’

Esta declaração levanta uma questão crucial: a opção por um aeroporto de raiz, com quatro pistas, a 50 quilómetros de Lisboa – contra a vontade da concessionária, da Ryanair, maior companhia aérea da Europa, e da Confederação do Turismo de Portugal (CTP) – foi determinada pelo interesse nacional, ou pelos interesses particulares do setor da construção civil? «Esses interesses são legítimos. O que não se pode é permitir que levem a um aeroporto megalómano», comenta Sérgio Palma Brito, analista sénior em Turismo e Transporte Aéreo. Do seu ponto de vista, Carlos Mineiro Aires deixou cair a máscara: «Confirma-se o que nós já sentíamos: uma influência grande dos interesses dos construtores e dos projetistas».

«Obviamente, quem defende os interesses dos construtores que querem um mega-aeroporto não pode ter sido imparcial quando teve a missão de acompanhar e fiscalizar o trabalho da CTI», conclui também Pedro Castro. Para este perito em aviação comercial, o anterior Governo cometeu o pecado original de anular um concurso público internacional para o estudo da solução aeroportuária. «A comissão amadora dependente manipulou os estudos, com resultados preparados de antemão, para a solução ser Alcochete», acusa Pedro Castro.

Para indignação dos críticos, Mineiro Aires voltou a usar o argumento do risco de acidente. «O aeroporto tem de sair de Lisboa, é um perigo que está ali», disse ao Expresso. O facto é que muitos aeroportos internacionais estão localizados dentro da malha urbana de cidades como Zurique, Luxemburgo ou Frankfurt. «Essa ideia é descabida. Em Lisboa, é maior o risco de se morrer numa passadeira ao sair de casa do que debaixo de um avião», reage Sérgio Palma Brito. Na opinião de Pedro Castro, o administrador da Fundação da Construção «continua a manipular a opinião pública e a condicionar o poder político, através do medo». Também Nova Iorque tem vários aeroportos rodeados de bairros residenciais. Em 2009, para evitar um acidente, um piloto conseguiu amarar no rio Hudson, «mas ninguém se lembrou de fechar qualquer aeroporto por causa disso». O LaGuardia, de onde descolara esse avião, movimenta 33 milhões de passageiros por ano e acaba de beneficiar de grandes obras de remodelação, no valor de 8 mil milhões de dólares.