domingo, 18 jan. 2026

Máquinas desiguais e um boletim de voto desleixado

A campanha oficial para as Presidenciais 2026 arrancou agora, com os candidatos a fazerem-se à estrada. Ventura tem a vantagem de ter o partido todo empenhado no apoio à sua candidatura. Gouveia e Melo não conta com nenhum aparelho partidário mas tem a experiência das vacinas.
Máquinas desiguais e um boletim de voto desleixado

Henrique Gouveia e Melo, o mais politicamente inexperiente dos candidatos presidenciais com possibilidade de passar à segunda volta, encontra nas ruas, praças, feiras e cafés um terreno que lhe é confortável. O ‘Almirante das Vacinas’ prolonga as memórias de um tempo de pandemia – e de liderança – através do acolhimento que tem junto do eleitorado.

A campanha eleitoral para as presidenciais começou oficialmente a 4 de janeiro e termina a 16. Gouveia e Melo inicia a campanha em Lisboa, no dia 4, com uma visita à Feira do Relógio, de manhã, a que se segue o almoço inaugural no Pavilhão do Bairro da Boavista, que nasceu como bairro provisório no Estado Novo, destinado às classes mais desfavorecidas, mas que tem vindo a ser reabilitado nas últimas décadas, sem perder totalmente as características de um bairro popular. Esta iniciativa sinaliza, de certa forma, o eleitorado que Gouveia e Melo considera poder ser o seu: as classes B e C, de rendimentos médios e baixos

O candidato parte de Lisboa em direção ao Norte — Portalegre, Viseu, Vila Real e Porto. Instala-se no Porto por uns dias, com deslocações a Bragança, Braga, Viana do Castelo e Aveiro. Desce para Sul a partir do dia 13 e termina a campanha nas duas grandes cidades: primeiro no Porto e depois, a 16, em Lisboa.

André Ventura ruma ao Sul, território das mais significativas vitórias eleitorais do Chega, e começa no dia 3 com um jantar-comício em Albufeira. Nos dias seguintes passa por Silves e Sines. Segue para Palmela e depois para Vila Nova da Barquinha, onde está no dia 7. No dia 8 anda pelo distrito de Castelo Branco, a 9 por Sobral de Monte Agraço e a 10 por Portalegre, no que respeita a iniciativas com datas já definidas.

João Cotrim de Figueiredo também começa pelo Sul, com uma visita ao Mercado Municipal de Loulé e à Feira Medieval de Paderne, no dia 3 de janeiro. No dia seguinte já está em Lisboa arranca com a campanha numa corrida na Docas de Belém, segue depois para Santarém. Estará no Porto no dia 8 e, no dia 9, passa por Matosinhos e Aveiro. No dia 13 pode encontrar-se o candidato em Viseu, Coimbra e Lamego. Fecha a campanha a Norte, em Braga.

Luís Marques Mendes vai andar por todos os distritos do país. No dia 2 de janeiro está em Faro; no dia seguinte, em Lisboa; depois, em Viseu. Seguem-se, no dia 4, Leiria, Porto, depois, a 5, Aveiro e Guarda. No dia 6 regressa a Lisboa, mas por pouco tempo: parte no dia 7 para Sul, Setúbal, Évora e Beja. A partir do dia 9 concentra-se nos distritos do Norte, onde se sente mais em casa: Coimbra, Viana do Castelo, Braga e, provavelmente, a cidade que o viu nascer, Guimarães. Depois passa por Aveiro, Viseu e Porto. Prossegue pelo Norte, volta ao Porto no dia 15 e termina a campanha em Lisboa, a 16 de janeiro.

António José Seguro arranca a campanha, como todos os candidatos, ainda em tempo de pré-campanha, na sexta-feira, dia 2, no distrito de Castelo Branco, na terra que é também a sua e que o viu nascer, Penamacor. Depois andará de Norte para Sul e de Sul para Norte, percorrendo todos os distritos do país — as ilhas e a diáspora ficaram para a pré-campanha. O programa de campanha de Seguro organiza-se em dois vértices: o ‘Portugal da esperança’, uma perspetiva positiva de um país de coisas boas, empreendedor e criativo; e o ‘Portugal dos que não têm voz’, onde o Estado falta e faz falta. A campanha termina no Porto ou em Lisboa — teremos de esperar para ver — tal como a participação de José Luís Carneiro, que integrará a campanha em eventos ainda por definir.

É uma campanha desigual no que diz respeito à ação das máquinas partidárias. Ainda assim, só Ventura faz o pleno: nem Marques Mendes conta com toda a AD, nem Seguro com todo o PS, incluindo os ‘costistas’ – ainda os ‘costistas’ – agastados pela forma branda como o candidato tratou o mais recente caso da chamada ‘campanha negra presidencial’ que atingiu, esta semana, Gouveia e Melo. Seguro recusou quaisquer comentários aos alegados ajustes diretos e favorecimentos a uma empresa atribuídos ao Almirante, que estão a ser investigados pelo Ministério Público. Como já tinha recusado comentar as questóes relacionadas com os eventuais conflitos de interesses de Marques Mendes.

A culpa morre no boletim de voto

Os candidatos presidenciais fazem-se à estrada, apostando numa campanha de proximidade com os eleitores, enquanto decorre o voto antecipado para a eleição presidencial de 18 de janeiro de 2026, em mobilidade, para doentes, presos e eleitores da diáspora. O voto antecipado para quem está internado num hospital ou detido num estabelecimento prisional decorre entre 5 e 8 de janeiro; nos dias 6, 7 e 8, os portugueses no estrangeiro podem votar nas embaixadas e consulados; e o voto em mobilidade no território nacional acontece no dia 11.

O voto antecipado tem vindo a crescer de eleição para eleição, com uma adesão significativa — isto é, quem se inscreve vota —, mas o valor da votação global nacional não ultrapassa os 4%, e surge como a explicação para que haja 14 candidatos no boletim de voto, quando o Tribunal Constitucional apenas validou 11 candidaturas. Um facto razoavelmente insólito que levou uma estrada de dois sentidos de acusações entre o Tribunal Constitucional (TC) e o Ministério da Administração Interna (MAI).

Em plena quadra natalícia, o assunto estava longe de se resolver de um dia para o outro, até porque o Tribunal Constitucional informou o MAI e a CNE de que a 3.ª Secção do TC só reuniria a 29 de dezembro para apreciar as reclamações. A CNE justificou que, para que os boletins chegassem aos eleitores que votam antecipadamente, só havia uma possibilidade: os boletins tinham de ser impressos antes de o TC tomar decisões definitivas, autorização que o MAI deu a 24 de dezembro.

O porta-voz da CNE, André Wemans, admitiu à Lusa que «não haverá hipótese» de alterar os boletins de voto, que os eventuais votos em candidatos rejeitados pelo TC serão considerados nulos, lembrou ainda que, se houver candidatos que desistam, o nome continuará no boletim de voto.

Os candidatos reagiram com expressões que vão desde «é um sintoma de desleixo por parte do Estado», disse Marques Mendes, a André Ventura, que pediu ao Governo, em articulação com o TC, que resolvesse a situação para evitar «votos inúteis» e «votos perdidos». Henrique Gouveia e Melo acredita que o erro ainda poderá ser remediado, porque «uma lista com candidatos que estão excluídos é uma lista que confunde o eleitor». João Cotrim de Figueiredo considera que o caso é «uma daquelas consequências infelizes de um processo eleitoral que há muito precisava de ter sido revisto». Catarina Martins considera que «ter num boletim de voto nomes de pessoas que não se candidatam é um absurdo, é uma confusão, não há razão para assim ser». António José Seguro apresentou formalmente queixa junto do Tribunal Constitucional, pedindo que fossem retiradas as «legais consequências», e manifestou a sua «maior perplexidade» por uma decisão tomada com base no que foi «divulgado em diversos órgãos de comunicação social», sem confirmação oficial do TC. António Filipe, meio irónico, afirmou: «Qualquer cidadão que pegue num caixote e o entregue no Tribunal Constitucional consta do boletim de voto».