Luís Montenegro abriu o debate do Estado da Nação com uma intervenção de cerca de 30 minutos que evitou o que, nestes dias, mais inquieta o país: a crise nos exames nacionais e o desconforto ético em torno do ministro da Administração Interna, Luís Neves. O Governo não segue o ritmo das notícias do dia, disse o primeiro-ministro, isso deixa-o aos partidos da Oposição, aos quais dedicou a primeira parte do discurso, cerca de dez minutos, num registo que por momentos pareceu mais o de um líder parlamentar da Oposição - papel que já desempenhou - do que o de quem lidera o Governo.
O debate realiza-se precisamente quando o Governo enfrenta a pior crise política das últimas semanas: os problemas na correção digital dos exames nacionais do secundário, que atrasaram por duas vezes a divulgação das notas e a segunda fase das provas, geraram uma vaga de críticas de sindicatos de professores, associações de diretores escolares e da própria Oposição, com pedidos de demissão do ministro da Educação, Fernando Alexandre, e a possibilidade de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Questionado sobre a confiança nos seus ministros, o primeiro-ministro reforçou-a no Parlamento de forma enfática - extensível a Luís Neves, sob fogo cerrado por um alegado conflito de interesses ao ter contratado, a título particular, para obras num imóvel, um empreiteiro que também trabalhara para a Polícia Judiciária quando o próprio ministro a dirigia. Questionado diretamente se mantinha confiança em Neves, Montenegro disse: «Com certeza».
A segunda parte da intervenção centrou-se na imigração, tema que o primeiro-ministro voltou a usar como explicação para boa parte das dificuldades das políticas públicas - a falta de médicos, a falta de professores, a ausência de mediadores culturais nas escolas para integrar os filhos de imigrantes. A insistência ganha um contraponto incómodo: no mesmo dia do debate, foi divulgado o relatório anual do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais do ISCTE, coordenado pelo ex-ministro socialista Pedro Adão e Silva, que classifica a atuação do Governo nesta área como uma «obsessão com a imigração». Montenegro reforçou os argumentos de que o país «chegou a um ponto insustentável» e que o Governo promove «uma política de regulação» que dignifica a vida dos imigrantes, e que «este Governo resolveu os problemas da imigração em Portugal».
Uma identidade de coligação ambígua
Na terceira parte do discurso, Montenegro procurou definir a identidade do Governo - um Executivo que, consoante os diplomas, governa tanto com o apoio pontual do PS como com o do Chega, os dois partidos que tinha acabado de criticar duramente nos primeiros minutos. Esta equidistância, que o primeiro-ministro reivindica como método desde as legislativas de maio de 2025 - quando a coligação AD venceu sem maioria absoluta, com o Chega a ultrapassar o PS como segunda força parlamentar -, continua a ser fonte de tensão: o diploma de revisão da legislação laboral, negociado com o Chega, acabou chumbado por todos os partidos da oposição há cerca de um mês, uma das derrotas mais significativas do atual Executivo.
Política externa: da ONU às ‘chacras’ de água
Sobre política externa, Montenegro reservou apenas generalidades, mas não deixou de sublinhar o que apresenta como um êxito diplomático: a eleição de Portugal, em junho, como membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o biénio 2027-2028, que já tinha classificado como um ‘dia histórico’ para o país.
Falou de ‘chacras’ - não no sentido esotérico, mas das charcas e pequenas barragens que integram a Estratégia Nacional de Gestão da Água e falou da construção de novas barragens, incluindo o projeto de Girabolhos, no Mondego, retomado depois de ter sido cancelado ainda no tempo de José Sócrates, e a criação de centenas de novas charcas e albufeiras.
Montenegro evocou o mais mal-amado primeiro-ministro dos socialistas, José Sócrates, para dizer que, ao contrário dos Governos socratistas, o que lidera privilegia a substância em detrimento da construção de narrativas.
No conjunto, a intervenção de Montenegro seguiu um guião defensivo: adiar o confronto direto com as duas crises mais quentes do momento - exames e MAI -, transferir a atenção para a Oposição e reivindicar, contra a evidência de um relatório académico divulgado no próprio dia, uma vitória na imigração. Ficou por fazer o discurso que o país esperava: Montenegro refugiou-se nos detalhes para escapar à perceção de que lidera, no seu todo, um Governo em erosão, preso pela determinação de um primeiro-ministro obstinado que insiste que lidera um Governo que «reforma sem medo».