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Acredita mesmo que o Governo vai cumprir a legislatura até ao fim? Com este cenário todo que descreve, que está mal na Saúde, na Educação, na Segurança...
Não estou na posição de um opinion maker, nem de comentador. Aquilo que posso dizer é que o Partido Socialista tem procurado contribuir para a estabilidade política do país e continuará a fazê-lo. E o que isso significa? Significa procurarmos mostrar que temos e que somos uma alternativa de confiança. Isto significa que não somos uma oposição pela oposição. Não somos a oposição do bota abaixo. Não é a oposição para quem está tudo mal. Não é a oposição que tudo crítica, mas sem alternativa. Nós, se reparar, desde que cheguei a esta função, em todas as críticas que formulámos ao Governo, apresentámos soluções políticas alternativas. Neste momento, estou a atacar a política económica do Governo. Mas tenho uma visão económica diferente para o país. E ela é clara. Nós temos de ter uma abordagem económica para o país que incorpore e que valorize dois terços do território que hoje está em inutilidade económica. Temos de ter uma política económica para o país que integre e que valorize os 240 mil jovens, 100 mil que estão no ensino técnico e profissional, fazendo desta vertente uma vertente fundamental para responder aos mais jovens, mas também para a formação de população adulta e para a reconversão profissional. E temos de responder aos 140 mil jovens a quem o país tem de dar uma oportunidade, e que não estudam nem trabalham. Por exemplo, defendo uma política fiscal que acompanhe o esforço das empresas na sua modernização tecnológica, na sua sustentabilidade em termos energéticos, na capitalização, na sua internacionalização, na criação de emprego qualificado. Ou seja, contrariamente à política do Governo, nomeadamente à política fiscal, que foi ir ao IRC e cortar a todos de forma cega. Sempre entendemos que o IRC deve ser um importante instrumento de promoção da nossa economia e até de promoção do desenvolvimento do território. Por exemplo, quando falo dos contratos territoriais de desenvolvimento para promover a coesão territorial do país, eu já fui ministro do Território, quando tive essas funções passadas, que foi beneficiário dessa medida, adotada naquele tempo o governo de Guterres por Pina Moura, ministro da Economia, nós fomos beneficiários do regime fiscal diferenciado para que as empresas se localizassem nesses territórios. Ou seja, nós temos que utilizar a política fiscal como um instrumento de apoio ao desenvolvimento económico e social do país. Quando nós avançámos com as medidas para o custo de vida, nós fizemo-lo porque já o tínhamos feito na crise pandémica e tínhamo-lo feito na crise da inflação por altura da guerra da Ucrânia. Avançámos com várias medidas, nomeadamente em relação ao custo com os combustíveis, aos custos com a eletricidade, aos custos com os bens alimentares e quero garantir que as propostas que levarmos ao Orçamento, quando ele for apresentado, serão propostas que terão uma preocupação cimeira: garantir a solidez das contas públicas. E que o país é capaz de honrar os seus compromissos. Porque isso é um compromisso para as gerações presentes e é um compromisso para as gerações futuras.
Acredita que o PS já ultrapassou o Chega neste momento?
Olho para os estudos de opinião como um retrato de um determinado momento e de uma realidade que é dinâmica. Tivemos um milhão e oitocentos mil votos nas eleições autárquicas. O Chega teve três câmaras municipais. Estamos a falar de realidades muito diferentes no nosso país. Não comparemos aquilo que é incomparável. Há quem o queira fazer. Quero também dizer aos eleitores descontentes com a sua vida, com as condições de vida, a quem muitas das vezes a vida não sorriu, por razões diversas. Conheço muitas pessoas, algumas que já votaram noutros partidos. Votaram no PCP, outros votaram no PS, outros votaram no PSD. Aquilo que lhes quero dizer é que tenho estado a procurar construir uma alternativa que seja capaz também de responder a questões fundamentais que têm a ver com a melhoria das suas condições de vida.
Não fala para os que votaram no Chega?
Estou convencido que há eleitores que votaram nas eleições legislativas no Chega que poderão vir a votar no Partido Socialista. Eu queria sobretudo que todos entendessem que o PS...
Parece-me óbvio que se o Chega nas legislativas teve quase dois milhões de votos, e se nas autárquicas ficou muito longe, esses votos foram para algum lado, não foi tudo para abstenção.
Sim, pois com certeza, foi aquilo que eu disse, o voto de descontentamento muitas das vezes também é o resultado da instrumentalização das bolsas de descontentamento que levam a perceções sobre a realidade. Isso está demonstrado também hoje em estudos que são realizados internacionalmente. Isso aconteceu nos Estados Unidos, no Brasil, em Itália, a partir dos anos 2008, na Hungria, na Polónia, está a acontecer em Espanha, em França. É uma tendência de hoje, as redes sociais, na medida em que dispensaram a intermediação dos jornalistas, da comunicação social, dos editores, criaram um campo novo de comunicação. E bem sabemos que, particularmente junto dos mais jovens, tem havido instrumentalização de mensagens com recurso à própria inteligência artificial, com o recurso a perfis falsos, que criam, digamos, perceções e tendências que mobilizam o voto num determinado sentido. Mas, com o tempo, os cidadãos, formulando o seu juízo crítico, têm vindo a reconstituir a sua relação de confiança com o PS. E quero dizer que quando os cidadãos das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, da Península de Setúbal, ou os cidadãos do Algarve ou do Alentejo, ou os cidadãos de Santarém, de Leiria, da Covilhã, ou de Castelo Branco, enfrentam as dificuldades nos transportes, na mobilidade, nas condições de acesso ao emprego, nas condições da sua remuneração, nas condições de vida, quero que sentiam que o secretário-geral do PS está a trabalhar numa proposta política que procure ter em consideração todos os estratos sociais e todo o nosso país. Quem está no território continental, nos Açores, na Madeira, no estrangeiro, nas comunidades portuguesas, e é dessa abordagem global que estamos a falar. Muito gostaria, com toda a humildade democrática, que muitos desses cidadãos, que outrora estiveram descontentes com o Partido Socialista, que voltassem a confiar no Partido Socialista. Peço-lhes confiança, confiem em mim, e confiem no PS, e confiem na equipa de muitos independentes, muitos cidadãos que estão a participar connosco. Pessoas que são democratas-cristãos, sociais-democratas, que são humanistas, que são do grande campo da democracia.
Vamos imaginar que o Chega ganha as próximas eleições legislativas. O PS alguma vez dará posse ao governo, ou votará contra?
Sendo uma pessoa que tem uma imaginação bastante pródiga, não consigo ter imaginação para tanto.
Mas se o Chega ganhar as eleições?
O Chega é um partido de protesto, é um partido que tem o André Ventura e quem mais? Ou seja, não tem equipa, não tem quadros, não tem programa. As propostas que o Chega apresentou, só no Orçamento para 2026, representariam 12 mil milhões de euros. Como é que o Estado pagava esses 12 mil milhões de euros de propostas irresponsáveis que apresentou o Chega na Assembleia da República? Vou dar um outro exemplo, esta merece a atenção e as campainhas de alerta lá em casa. Se nós fizéssemos aquilo que o doutor André Ventura propôs para as pensões, que era reduzir para os 65 anos, passar dos 66 anos e 9 meses para 65 anos, isso significava um corte de 12% nas pensões a pagamento presentes e futuras. Ou então, em alternativa, era pôr as empresas a pagar mais contribuições para a Segurança Social e pôr os trabalhadores a pagar mais contribuições para a Segurança Social. O que estamos a falar é dessa oposição pela oposição. Nesse circo, o doutor André Ventura é mesmo o único capaz de montar a tenda, desfazer a tenda e de lançar os foguetes, apanhar as canas e não lhe pedirem responsabilidades. Porque se lhe pedissem responsabilidades e se exigissem tanto a esse partido como exigem, nomeadamente ao PS e também ao próprio PSD e à própria AD, não passava no crivo dessa exigência que se tem colocado em relação ao PS e ao PSD. Chamo a atenção para aquilo que se está a passar com a Câmara que acabaram de ganhar no Algarve [Albufeira]. É ver o que se tem passado publicamente ao fim de seis meses de desempenho de funções nessa mesma autarquia. Mas poderia dar-lhe os exemplos, são públicos, do que se tem vindo a passar.
Também já disse que se o PSD fizer uma aliança com o Chega, que morre. Então qual a razão para o PSD ter votado tantas vezes ao lado do Chega, como foi o caso do fim das portagens?
É ao contrário. Peço que vão ler os programas eleitorais. E se forem ler os programas eleitorais, verificarão que as propostas que o Partido Socialista tem votado na Assembleia da República correspondem às propostas que apresentou nos programas eleitorais. Depois, é evidente que nessas votações muitas das vezes há convergência de votação. Mas o PS tem assumido a sua proposta política. Vou-lhe dar um exemplo. Aprovámos há dias na Assembleia da República a carreira dos médicos-dentistas. Foi proposta do PS. Ela foi beneficiária também do apoio de outros partidos. Dou um outro exemplo. Estive na origem do programa Voltar a Casa, que é um programa, olhe, para responder às questões da saúde, dos chamados falsos acamados que estão nos hospitais, pessoas, em regra, idosos, sem retaguarda familiar, que hoje poderá andar entre os 2 mil e os 3 mil idosos que estão desamparados nos hospitais, em camas que são essenciais para a resposta hospitalar. Trabalhei com a Confederação Nacional das Instituições Particulares de Solidariedade Social, com o Padre Lino Maia. Trabalhámos numa proposta também com o contributo da Ana Mendes Godinho, levámo-la à Assembleia da República. Ela foi aprovada com os votos de outros partidos. Ainda bem que foi aprovada, mas foi uma proposta do Partido Socialista. Em relação às portagens, houve também essa convergência. Se me pergunta se eu sou favorável a que se possa abrir essa porta para o futuro, não, não sou favorável. Porque é evidente que essa porta é uma porta que deve ser avaliada com grande sentido de responsabilidade, porque depois há todas as responsabilidades da manutenção, da conservação, do investimento que deve ser feito no futuro. Mas chamo a atenção que essas, em relação às quais se abdicou das portagens, foram, digamos, portagens que eram SCUTS, não tinham custos para o utilizador, quando foram concebidas...
A Via do Infante não era uma SCUT.
No conjunto daquelas que foram adotadas, foi para aquelas que não deveriam ter custos para o utilizador, só essas e aquelas que tinham impactos particulares nos territórios do interior e nos territórios da denominada coesão territorial e de baixa densidade. E é evidente que nós temos de olhar para esses territórios com um olhar diferente, nomeadamente em relação à política fiscal. Quanto à Via do Infante, no Algarve temos um problema de acessibilidades, aliás esse é um dos problemas que o Algarve coloca, nomeadamente em relação à resposta da urgência hospitalar e da Saúde. E por isso assumi ontem na nossa rentrée política, um compromisso com o Algarve, do estabelecimento do contrato territorial de desenvolvimento, assente num sistema de inovação regional, que integre os transportes e a mobilidade associadas às acessibilidades, que integre a água, recordo que hoje quando se fala da água que une, o programa de eficiência hídrica para o Algarve foi concebido e foi lançado pelo nosso Governo. Quando se fala da dessalinizadora no Algarve, foi planeado e lançado pelos governos do Partido Socialista. Quando se fala do novo hospital do Algarve, em junho de 2024, estava o projeto pronto a ir a concurso e que foi lançado e bem, por este Governo. Mas tem que entrar aí também no Algarve a economia do mar, a economia ligada ao agroalimentar e da inovação. Porque o Algarve tem um sério problema de necessidade de diversificar a sua base económica, para fixar as populações mais jovens. Porque o turismo, que é um dinamizador essencial da economia do Algarve, assim como o imobiliário, requer hoje, não apenas a diversificação da oferta no turismo, para termos turistas mais tempo e que deixem ficar mais recursos no território, mas simultaneamente uma economia mais diversificada, para fixar as populações na região. É um dos compromissos para o futuro do meu governo.
Fala dos governos do PS como se tivessem sido uma coisa magnífica, e que o povo não percebeu assim.
Tivemos maioria absoluta.
Mas depois perderam-na.
Perdeu no seguimento de uma crise política, porque o doutor António Costa se demitiu no seguimento de um caso sobre o qual muito está por esclarecer. Para não dizer mais, muito está por esclarecer. E veja bem que estávamos há dois anos e até hoje não há nada que nos diga que ele teria tido necessidade de apresentar a sua demissão. Mas o doutor António Costa, por uma questão de integridade da sua autoridade, tomou essa decisão e entendo que ele, ao tê-lo feito, fê-lo para salvaguardar o valor da autoridade política do primeiro-ministro.