Foi recentemente eleito líder da JSD, numa organização com uma história de líderes que fizeram carreira na política. De Alexandre Poço, Margarida Balseiro Lopes a Pedro Passos Coelho, Jorge Moreira da Silva, Pedro Duarte, Hugo Soares, qual deles mais se aproxima da forma como vê e sente a política?
Ser líder da JSD é uma honra e uma enorme responsabilidade. É mais de meio século de história, com lideranças que muito nos orgulham – como se vê nos percursos públicos que tiveram. Entre os antigos presidentes da JSD figuram o presidente da Câmara Municipal do Porto, o subsecretário-geral das Nações Unidas, um ex-primeiro-ministro, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto e o secretário-geral e líder parlamentar do partido. Não consigo escolher apenas um.
A sua moção tinha como tema ‘Geração com causas: uma agenda mobilizadora para os jovens portugueses’. Quais são as causas desta geração?
Uma organização política que representa uma geração não pode ter dúvidas sobre o que defende, nem deixar que outros definam a sua identidade. O caminho passa por posições claras e convicções firmes. O eixo central da nossa ação será a emancipação jovem – garantir condições para que cada jovem possa construir o seu projeto de vida com autonomia, previsibilidade e liberdade de escolha. Essa ambição está hoje profundamente condicionada pelo mundo que estamos a construir. A inteligência artificial deixou de ser um tema de futuro para se tornar um fator decisivo do presente: ignorar esta transformação é aceitar perder relevância económica e capacidade de criar oportunidades. Mas nenhuma geração constrói o futuro sem um mínimo de segurança no presente. O sentimento de insegurança e as diferentes formas de violência que afetam os jovens não podem ser ignorados nem relativizados – a violência sexual, em particular, exige uma resposta firme e inequívoca. Também o desafio demográfico nos preocupa, e é por isso que queremos apostar no alargamento do programa Creche Feliz para crianças até aos cinco anos, garantindo que todas as famílias têm acesso a cuidados de infância independentemente da sua condição económica.
É de Portalegre, do interior do país. O eleitorado jovem no interior está a mudar, a que atribui essa mudança?
Sou orgulhosamente de Portalegre e do interior. Não creio que o eleitorado jovem no interior esteja propriamente a mudar – diria, antes, que a demografia tem caminhado num sentido que prejudica ainda mais os jovens destas regiões. É por isso que a coesão social e territorial deve ser uma prioridade nacional. Defendemos o reforço das ligações ferroviárias entre capitais de distrito e o alargamento do Passe Ferroviário Verde ao transporte rodoviário onde a ferrovia não chega.
O eleitorado jovem está a radicalizar-se, a votar nos extremos, sobretudo na extrema-direita.
Em primeiro lugar, há várias leituras sobre o que aconteceu nas últimas eleições, em que a AD disputou a liderança do eleitorado jovem. Mas não deixa de ser verdade que há um crescimento da intenção de voto e do voto materializado nas urnas no Chega. E creio que isso tem a ver com uma falta de respostas e com um sentimento de abandono que o interior tem sentido ao longo dos últimos anos.
Se deixarmos o interior – no litoral, em todo o país –, a tendência é a mesma.
Tem a ver, efetivamente, com a falta de respostas concretas. Mas acho que, nesse campo, o PSD, que lidera o Governo, tem dado um bom sinal à juventude portuguesa. Não me recordo de nenhum Governo que tenha dado esta centralidade à juventude, seja na fiscalidade, seja na habitação. As pessoas, e os jovens em particular, procuram respostas nos partidos radicais quando não as encontram nos moderados. Na JSD, no PSD e no Governo temos de continuar a dar respostas concretas. Há caminho por percorrer, naturalmente – não está tudo feito –, mas foi iniciado um caminho na direção certa.
Concorda que os jovens estão muito zangados com o país, quer os que emigram, quer os que ficam?
Acho que resulta, em grande parte, de anos de governação socialista, que gerou um desencantamento da juventude portuguesa pelas oportunidades que encontra em Portugal. Essa trajetória tem começado a ser invertida, mas os frutos demoram o seu tempo.
Diga-me uma ação concreta deste Governo que possa reverter esse fenómeno?
Temos hoje um regime fiscal específico para os jovens portugueses – o IRS Jovem –, que tem sido criticado por algumas entidades, mas que revela uma prioridade clara: em política, o essencial são as escolhas que se fazem, e este Governo escolheu colocar os jovens no centro. A isso somam-se a garantia pública na compra da primeira habitação, a isenção de IMT e do Imposto do Selo. É um caminho iniciado, que é preciso continuar.
Luís Montenegro foi reeleito presidente do PSD como candidato único. Esta unanimidade corresponde à realidade do partido, ou as estruturas locais dão outros sinais?
O presidente do PSD é primeiro-ministro de Portugal, e o partido está – creio que bem – unido em torno da sua liderança. Enquanto presidente da JSD, não me cabe falar em nome das estruturas distritais ou concelhias do partido. O que posso dizer é que sinto nos militantes da JSD um grande reconhecimento de que não há memória, na democracia portuguesa, de um Governo que tenha dado tanta centralidade política à juventude e feito da nossa geração uma prioridade tão estratégica quanto o Governo que Luís Montenegro lidera.
Como vê as intervenções públicas do antigo líder da JSD e do PSD, Pedro Passos Coelho?
Pedro Passos Coelho já foi líder do PSD e primeiro-ministro. Creio que tudo tem o seu tempo. Este é o tempo de Luís Montenegro.
Quais são os grandes desafios de um jovem social-democrata nos dias de hoje?
A JSD enfrenta um contexto particularmente exigente, que colocará à prova a nossa capacidade de intervenção e afirmação política. O caminho passa por preservar a nossa autonomia e manter uma cultura de exigência e ambição em relação ao PSD e ao Governo – da JSD espera-se, e bem, capacidade de influência na definição das políticas públicas. Estaremos cá com propostas arrojadas, como protagonistas e não como observadores, defendendo a centralidade da pessoa humana, a economia de mercado livre e a justiça social. Mas o desafio de um jovem social-democrata hoje é também não ter contemplações no confronto com radicais e populistas. A posição do Chega na reforma laboral e a proposta de André Ventura de baixar a idade da reforma são uma irresponsabilidade e um ataque direto à nossa geração.