Hugo Soares e Sebastião Bugalho, num indisfarçável jogo de protagonismo, deixam transparecer que é menos o que os une e mais o que os separa. O SOL sabe que esta tensão ultrapassa o partido e pulveriza o Governo, com os ministros a posicionarem-se. Bugalho está longe de ser um ‘maverick’ – nem podia, é o porta-voz, ainda que em tom próprio –, não está sozinho: com ele está Pedro Duarte, presidente da Câmara do Porto e da distrital (eleito com 93% dos votos), e, ainda a norte, há Carlos Eduardo Reis que, aparentemente incólume ao processo Tutti Frutti em Lisboa, foi eleito em março para a distrital de Braga, escapando ao controlo de Hugo Soares – uma derrota em casa para o secretário-geral do PSD. Reis tem na região uma influência que não é despicienda e que muito deve incomodar Soares.
O PSD sempre foi pródigo em dissídio interno, agora mais apaziguado, com o partido empenhado na governação – central, local e das regiões autónomas –, onde, além do primeiro-ministro, há António Leitão Amaro com um papel preponderante na comunicação política, o que também pode ser beliscado pelas intervenções do novo porta-voz do partido e, por arrasto, do Governo.
Uma fonte do PSD com quem falamos garantiu-nos que Luís Montenegro não é António Costa: pode governar com o mesmo pragmatismo, mas é mais novo (há quase uma década de diferença entre os dois) e está para ficar. Não havendo, em torno de Montenegro, ‘um Pedro Nuno Santos’, o controlo que tem sobre os seus e do partido é definitivamente outro. Haja o que houver, afirmem-se as tendências que se afirmarem, a sucessão tem de esperar.
É evidente que, desde que assumiu as funções de primeiro-ministro, Montenegro tem sido fustigado com inúmeros reveses, uns mais relevantes, como o caso Spumviva ou o chumbo do Pacote Laboral, em que partilha o desaire com Hugo Soares, e uma inexplicável negociação parlamentar com o Chega, que fracassou, ou ainda o mais recente caso das viagens para ver a seleção nacional de futebol, que esta semana fez correr rios de tinta – tanto pelas viagens de Falcon para trás e para diante como pelo facto de nenhum outro chefe de Estado ou de Governo europeu ter assistido de forma tão assídua aos jogos do Mundial de 2026: Montenegro esteve presente em três dos cinco jogos, um resultado que incluiu duas vitórias e a única derrota da seleção portuguesa, precisamente a que a fez regressar a casa.
Mas não será por nada disto que Montenegro será posto em causa. Teria de acontecer algo substantivamente grave a partir do interior do Governo e, por agora, não se adivinha o quê. Mesmo que o Orçamento do Estado chumbe no Parlamento, o Presidente da República, Seguro, já disse que não será por isso que o Governo cairá. E o Governo conta com o Presidente.
Soares & Bugalho
O PSD não prevê chamar José Luís Carneiro nem outros ex-ministros do PS no âmbito das audições que vai realizar no Parlamento sobre o aumento da população imigrante revelado pelo INE. A ideia contraria o que Bugalho disse, ou pelo menos insinuou, na sua primeira intervenção na São Caetano à Lapa como porta-voz do partido, quando deixou antever que seria «natural» que o secretário-geral do PS fosse chamado na qualidade de antigo ministro da Administração Interna.
No entanto, a ideia do grupo parlamentar liderado por Hugo Soares nunca foi chamar ex-ministros. O requerimento para as audições, entretanto revelado, não inclui nenhum ex-governante do PS nessa qualidade – algo que nunca esteve, nem está, previsto –, ainda que se enfatize que «a responsabilidade política está apurada há muito: é do PS», como escreveu esta semana o Observador, citando fonte do PSD.
Também esta semana, o PSD forçou o adiamento da votação de um requerimento do PS para que o Parlamento ouvisse o Instituto Nacional de Estatística (INE) a propósito das inúmeras implicações da revisão das estimativas da população em Portugal, que conta agora com 11.424.031 pessoas residentes, das quais 1.597.539 são estrangeiros. O PS pediu a audição do INE para perceber as implicações estatísticas, económicas e orçamentais das estimativas de população residente de 2025, com a revisão das séries de 2021 a 2024.
Enquanto isso, diversos ex-ministros dos Governos socialistas – como Centeno na CNN, ou Duarte Cordeiro e Fernando Medina no NOW – defendem que esta revisão dos números só é surpresa para os mais distraídos: o aumento da receita fiscal, das contribuições para a Segurança Social ou mesmo os números do emprego já davam sinais de que a população portuguesa estava a aumentar, mesmo antes de o INE ter revisto a metodologia estatística. Chamam, aliás, a atenção para o facto de este número estar agora inflacionado, porque não tem em conta os imigrantes que, entretanto, abandonaram o país, como sugerem os mais recentes dados do Instituto da Segurança Social (ISS), segundo os quais, durante 2025, 162.252 trabalhadores estrangeiros deixaram de ter um registo ativo na Segurança Social – podendo ter passado à ilegalidade ou ter abandonado o país.
Mas, mais do que tudo, o que este tema veio revelar é que, entre a São Caetano à Lapa e São Bento – uma distância que se percorre facilmente a pé –, o afastamento é maior do que se pensa. Ou seja, Bugalho e Soares não coincidem sobre o mesmo assunto, uma porta que se entreabre para uma eventual luta pela sucessão na liderança do PSD. A tomada do poder é, historicamente, um dos movimentos mais documentados, e a política portuguesa tem vindo a confirmar a asserção atribuída a Lenine: «Há décadas em que nada acontece; e há semanas em que décadas acontecem».
A crise política
Nas jornadas parlamentares da AD, em Cascais, Nuno Melo disse que «já se antecipa outra crise política» e que, se a Oposição se aliar para derrubar o Governo, pode acabar «com uma outra grande desilusão» nas urnas.
José Luís Carneiro respondeu que o PS «não quer nenhuma crise política» e que espera que a maioria PSD/CDS-PP dê resposta aos problemas das pessoas; acusou ainda o Governo de agravar os problemas na saúde, na habitação e na economia, e de se ‘vitimizar’ cada vez que é escrutinado.
O Chega não reagiu diretamente à ideia de crise política, mas mantém uma pressão insistente sobre o PSD e o Governo. Seja como for, AD e Chega têm uma revisão constitucional agendada para 2027, um processo que definirá, de uma vez por todas, o alinhamento – ou não – dos dois partidos à direita, numa altura em que, no PSD, incluindo o secretário-geral, se insiste que este é um partido de «centro moderado». E Bugalho vai dizendo: «Para a extrema-direita somos socialistas, para os socialistas somos de extrema-direita».