É mais ou menos consensual que os Estados Unidos e a China estão hoje no mesmo patamar. É uma ideia que devemos aceitar sem esforço ou ainda há espaço para alguma interpretação?
Teríamos de ver as imagens da visita anterior, em janeiro de 2017, para termos a certeza de que não estamos a fazer uma interpretação fora do contexto, mas tenho ideia de que não estamos – ou seja, esta visita foi diferente. Houve, de facto, a perceção de um encontro entre iguais. Xi Jinping diz três coisas que convém reter. Primeiro, começa por se referir a two major countries – não está apenas a referir-se a duas superpotências ou a dois países, está a dizer: estamos aqui, os dois principais países do mundo. É, portanto, uma assunção de igualdade. A segunda questão é a chamada armadilha de Tucídides – não vale a pena entrarmos na discussão teórica ou assinalarmos que foi um professor de Harvard que popularizou o conceito...
Tucídides escreveu que ‘foi o crescimento do poder de Atenas e o medo que isso causou em Esparta que tornou a guerra inevitável’...
A potência estabelecida, assustada ao ver uma potência emergente, resolve atacar antes que o facto esteja consumado – antes que as duas estejam em pé de igualdade. É este o conceito a que Xi Jinping se referiu, ao mesmo tempo que está a dizer aos Estados Unidos: sim, vocês são a potência estabelecida, e sim, nós somos a potência emergente – mas não caiam na armadilha de um confronto por medo da nossa ascensão. Este segundo sinal indica que a China se coloca ainda no lugar da potência que está a emergir...
E o terceiro sinal?
É Taiwan. O que a China diz aos Estados Unidos é: não tenham nenhuma reação relativamente a Taiwan que provoque algo disparatado. E sendo isto o que a China quis desta cimeira, percebe-se ao mesmo tempo que é a atitude de uma potência – não é um país pequeno ou médio a falar, é uma grande potência a dialogar com outra grande potência, numa relação ‘construtiva e de estabilidade estratégica’. O que Pequim está a dizer a Washington é: relacionemo-nos enquanto superpotências sem entrarmos em confronto, mantendo uma ‘estabilidade saudável com competição dentro dos limites adequados’, e não se metam naquilo que consideramos uma questão interna – a questão de Taiwan.
O que está a Europa a fazer relativamente a tudo isto?
Costumo dizer que a Alemanha é um navio muito grande, que demora a mudar – mas quando muda, muda mesmo. O problema é que temos 27 navios nesta esquadra: uns são ágeis, outros são teimosos, e não temos um comando único. E não queremos ter comando único. Mas temos de meter na cabeça uma coisa: não nos podemos queixar de manhã de que a Europa não tem uma só voz e à tarde queixarmo-nos de que Bruxelas impõe demasiado contra a soberania dos Estados.
Diria que já há uma identidade europeia?
Acho que vai sendo construída, mas ainda não está completamente alinhada – é diferente para diferentes gerações, e quem governa na Europa ainda não é maioritariamente quem nasceu já dentro da Europa. Com o tempo, acho que a Europa ganhará mais espessura, sem ser impositiva. Porque, se impuser, parte.
Quem lidera a Europa neste momento?
Ninguém. E o curioso é que se perguntarmos quem liderou entre 2019 e 2025, a resposta é clara: foi Ursula Von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia – mas por circunstâncias específicas. Durante a pandemia, os governos ficaram completamente submersos na gestão do dia a dia. A Comissão não tinha de tratar de mortos, de doentes, de médicos, de hospitais – apareceu como um par de mãos livres que veio ajudar a resolver os problemas. Depois veio a guerra da Ucrânia, e Von der Leyen – não tendo competências para tratar do que estava a tratar – foi exímia em entrar em territórios fora da sua esfera de competência. Percebeu o que os europeus estavam a perceber sobre aquela guerra e percebeu o que ela significava para a Europa. E antes que alguém dissesse alguma coisa, falou do lugar da Ucrânia na Europa – foi o primeiro rosto da posição europeia sobre a Ucrânia. E foi muito mais musculada do que a Europa costuma ser. Neste momento, os desafios que estão a ser colocados à Europa são temas de que os Estados não abdicam – segurança, política externa, forças armadas. E os Estados-membros não entregam isso à UE.
Recentemente, Giorgia Meloni pediu a Von der Leyen que os gastos decorrentes da crise energética fiquem de fora do Pacto de Estabilidade. É um pedido razoável e aceitável para a Comissão?
É explicável e fácil de perceber. Do ponto de vista técnico, claro que devem entrar. Mas a Europa é feita de criatividade política e jurídica, e o que a Meloni está a dizer é: estamos todos com falta de capacidade orçamental – vamos fazer de conta que temos. Deixem-nos gerir o impacto energético fora dos documentos que espelham essa incapacidade, e assim continuamos todos a dizer que gerimos bem as nossas finanças, ainda que estejamos a resolver este problema. Isto não é uma questão técnica, é uma questão política. O que é mais importante: o rigor das finanças públicas ou a reputação da nossa capacidade política de gerir este problema?
Deixe-me fazer-lhe uma pergunta especulativa: se estivesse no lugar de Von der Leyen, que resposta daria?
Acho que a Comissão dirá que não – e se fosse eu, eventualmente daria alguma margem aqui ou ali, mas também diria que não. Porquê? Porque este é um bom momento para mudarmos as nossas dependências energéticas. Se facilitarmos demasiado o impacto desta crise, não vamos ter o efeito transformador que uma crise deve ter. Mas, se não tivermos cuidado, esse efeito transformador também pode ser político. Não queremos acordar com a Europa cheia de coletes amarelos – de gente enfurecida disponível a votar em tudo o que seja mais radical. Podemos ter feito a política mais certa do mundo e acordar com os eleitores a votar nos partidos que a grande maioria não quer.
Mas essa já é uma tendência inevitável.
Como construímos uma pertença europeia a ponto de tolerarmos certos custos? A resposta passa por duas coisas: primeiro, os custos têm de ser calibrados, equilibrados e dar resultados; segundo, voltamos à pergunta – quem lidera? Não temos solução para ter um líder da Europa, porque continuam a ser 27 Estados-membros. A alternativa é termos 27 líderes – ou tantos quanto for possível – que olhem para a mesma realidade e digam mais ou menos a mesma coisa. A França tem o Presidente mais europeísta e mais influente na UE das últimas décadas, 60% a 70% do discurso europeu de hoje é uma repetição do que Macron tem dito: soberania europeia, autonomia estratégica, gramática de poder...
Mas...?
É um líder fraquíssimo internamente. Não temos liderança, não temos co-liderança francesa, e a liderança alemã parece ter mais ou menos esta ideia na cabeça: o que for preciso fazer, faz-se; se o resto dos europeus alinharem, ótimo; se não alinharem, fazemos com quem quiser participar, que se traduz na lógica das cooperações reforçadas – os Estados-membros que alinharem, alinham; quem não quiser, não vamos ficar anos a discutir soluções em que não estamos de acordo.
O Presidente da República defendeu isso mesmo, recentemente, em Florença...
Sim. E acho que esse é o caminho – não isento de problemas, mas é o caminho. E mais: devemos fazê-lo com alguns países que não estão na UE. Temos o exemplo de Schengen – tem alguns países da UE, não tem todos, e inclui países que não são da UE. Não podemos pensar a defesa sem a pensar com o Reino Unido, com a Noruega, talvez com a Turquia.
Voltando à Alemanha e à sua liderança mais sensata...
Mas sem um pingo de inspiração. Não temos um líder alemão capaz de dizer algo que dê vontade aos outros de o seguir. Não gosto de líderes arrebatadores – historicamente, os líderes que arrebatam têm tudo para correr mal. Mas algum entusiasmo não fazia mal, um entusiasmo que transmitisse uma visão.
Qual é a importância, neste contexto, de Pedro Sánchez?
Sánchez arrebata o coração da esquerda europeia, que gostava de encontrar uma fonte de inspiração. Preenche um vazio à esquerda – e só à esquerda e de não haver mais nenhum líder socialista europeu a quem a esquerda se possa agarrar... de grandes países temos a Dinamarca, e a maior parte dos socialistas europeus não adoram Mette Frederiksen.
Quem vê o mundo a partir de Bruxelas diria que Sánchez é um líder credível?
Não. Não acho que consiga agregar os socialistas europeus à sua volta. Mas há um problema maior: quando Sánchez cair – e a Espanha pode tornar-se um problema complicadíssimo se o PSOE implodir –, na política europeia fica outro problema: não há neste momento líderes de centro-esquerda que ajudem a que isto seja um processo equilibrado. Quando dizemos que o PPE tem de falar com o centro-esquerda – e acho que tem –, a pergunta é: fala com quem? Neste momento há três governos socialistas na Europa: Espanha, Malta e Dinamarca, que tem uma líder de que os socialistas não gostam. Tínhamos não só o motor franco-alemão, mas também o motor democrata-cristão e o motor social-democrata-socialista. Neste momento, o motor social-democrata-socialista está gripado.
Está a dizer que a Europa está definitivamente a virar à direita?
É movimento pendular, mas neste momento é o que temos. Havia uma tese que considerava que a direita radical era um problema da direita. Estamos a perceber que é um problema da esquerda, porque está a destruir a sua base eleitoral. A resposta parece ser que a esquerda tem de recuperar eleitores, porque a direita está claramente a mudar a sua agenda...
Para assumir a agenda da direita radical? E chegámos a Portugal, em que medida o que se passa atualmente reflete essa realidade europeia?
Portugal não é um exemplo fora deste movimento, com a vantagem de ainda ter um PS forte e uma base social que o sustenta. Tem-se falado muito dos moderados e do grande centro, mas o grande centro funcionou porque eram alternativos – e não se acusavam mutuamente de estarem confundidos com o radical do outro lado. Um dos maiores erros dos últimos anos foi a direita e o centro-direita acusarem a esquerda de serem iguais à extrema-esquerda, e a esquerda acusar a direita de ser igual à extrema-direita. Cada vez que alguém faz isso, está a fazer um favor aos respetivos extremos – está a dizer: é tudo a mesma coisa; ou passarmos por uma fase de fusão do grande centro – o que me parece uma confusão, porque são demasiado diferentes –, e pode acontecer o que aconteceu em França: de repente, o grande centro entalado entre duas alas radicais. Acho que é o pior cenário. O que precisávamos era que as alternativas políticas voltassem a ser entre partidos do grande centro, dispostos a ceder, a negociar, mas que são as alternativas – e que não vivem de se insultar acusando-se de serem iguais aos respetivos extremos. E há outro problema de que nos temos esquecido no meio de tudo isto: como é que esperávamos que uma transformação tecnológica brutal – que começa com o digital e agora vai pela inteligência artificial – não tivesse tradução política? Historicamente não há grandes transformações que não a tenham.
E qual é a resposta europeia?
Por ora, a resposta dos europeus é que não somos dominantes na tecnologia. Porquê? Porque o nosso ambiente económico, cultural, de inovação, de risco e de financiamento não permitiu que as empresas tecnológicas que fizeram explodir a inteligência artificial nascessem e crescessem na Europa. O que tivemos nas últimas décadas foi os Estados Unidos a tratar da nossa segurança, a beneficiarmos dos seus desenvolvimentos tecnológicos sem os temermos, e sem um concorrente que nos criasse angústia. Agora, temos a angústia de ver o mundo ocidental a ser desafiado pela China e destruído pelos Estados Unidos. E de repente descobrimos que não somos uma potência. A China, que é manifestamente uma potência, não gosta da guerra – mas não pode fazer nada contra isso, mesmo as potências têm limitações. Somos 27 Estados-membros, com 27 histórias diferentes, 27 fronteiras diferentes, 27 prioridades diferentes. Não somos uma potência – nem estamos disponíveis pa ra ser uma potência centralizada.