Cresceu e viveu na Covilhã. Acha que isso é uma mais-valia ou um handicap?
Eu diria que é mais do que uma mais-valia, é um privilégio único e um orgulho imenso. Nasci numa terra moldada pela beleza e encanto da Serra da Estrela e pela força, coragem e garra das suas gentes. Nasci numa terra com história, onde os operários marcaram a luta pelos seus direitos, pela liberdade e pela democracia, onde a capacidade empreendedora das suas gentes fez desta cidade um dos principais polos industriais do país, que ainda contribui de forma expressiva para as exportações nacionais e deste território num lugar de oportunidades que sabe adaptar-se aos tempos, vencer as adversidades e afirmar-se como motor de uma região, que consegue conquistar relevância dentro e fora de portas.
Ser herdeiro deste legado, ter esta identidade, é motivo de grande regozijo e aumenta-nos a responsabilidade de contribuir positivamente com a nossa ação e o nosso trabalho para continuar a trilhar o caminho do desenvolvimento e afirmação da Covilhã.
Fundou uma empresa de energias renováveis. A Covilhã poderá dar cartas nessa matéria?
Quero no meu mandato reforçar o compromisso da Covilhã com a sustentabilidade, a transição energética e o desenvolvimento sustentável. A transição global para uma economia assente nas tecnologias verdes e no digital é irreversível e a Covilhã tem infraestrutura tecnológica, acesso a energias renováveis, e o ecossistema industrial e de talento necessários para atrair indústrias de alto valor para a economia português. Não nos podemos esquecer que a Covilhã alberga dos maiores data centers da Europa, um ativo critico nas mudanças que estamos a assistir na economia global e tem das universidades portuguesas que promove investigação de ponta. E tudo isto num contexto de excelente qualidade de vida.
É importante também assegurar que esta transição energética não é feita à custa da degradação do património natural do território e que o Estado reconheça e recompense esse esforço dos territórios, atribuindo as compensações financeiras, por exemplo à instalação de parques solares, que até já estão previstas, mas que neste momento estão inacessíveis uma vez que o orçamento para o efeito está esgotado.
Qual é a marca que quer deixar como presidente da autarquia?
Acima de tudo uma marca de inovação, de dinamismo, de serviço e do contributo. O contributo que honre a história gloriosa de 840 anos deste território e acrescente, a essa mesma história, concretizações e realizações que permitam aos covilhanenses - de nascença ou adopção - ter uma vida melhor. Que afirmem a Covilhã como um polo de atração de talento, que gere oportunidades e opções, nomeadamente a de poderem decidir se ficam no território e dar-lhes motivos para ficar.
Dispomos já hoje de oferta diferenciada e muito valiosa, por exemplo, no setor da saúde dispondo de serviços de excelência no SNS, como sejam a Cardiologia de Intervenção, a Ortopedia ou a Medicina Reprodutiva. A ULS Cova da Beira e o Hospital Pêro da Covilhã dispõem - e é talvez dos únicos hospitais públicos - da certificação internacional da Joint Commission International que certifica a qualidade dos cuidados de saúde aqui prestados.
Estou muito empenhado em alimentar um modelo de desenvolvimento que devolva o espaço urbano às pessoas e à construção de comunidade. Que valorize o conhecimento, a sustentabilidade, a inovação, a iniciativa, a criação de valor e a promoção de talento!
Promover a construção de um Concelho que dê a oportunidade aos habitantes disporem para si, para a sua família, para os seus filhos, para os seus amigos, para os seus hobbies, de um dos bens mais preciosos: o tempo.
Quero um Concelho multigeracional, que aposta na qualidade das infraestruturas que permitam ter uma vida confortável em qualquer fase do seu projeto familiar e profissional. Com habitação acessível, com boas creches e escolas, com serviços de saúde de proximidade e uma oferta cultural e desportiva robusta, com um envelhecimento ativo e feliz e uma natureza em estado puro que permita repor as energias que a vida do dia a dia nos vai retirando.
Na Covilhã, o tempo tem outro valor e queremos que os que cá estão possam tirar partido disso, possam aproveitar para si, para os seus e para o que gostam, o tempo que poupam em filas de trânsito.
José Sócrates também foi líder da concelhia (ERRATA: Federação de Castelo Branco) de Castelo Branco do PS. Acredita que poderá ter outros voos a nível nacional, e não estou a dizer idênticos ao que se sabe do antigo primeiro-ministro? Isto é, acha que poderá ter cargos nacionais?
Fala de José Sócrates, mas a região já deu ao país outros governantes e figuras maiores da nossa nação, que marcaram pelo exemplo e pelo serviço e dedicação à causa pública. Temos o caso do antigo primeiro-ministro António Guterres, que sendo nascido em Lisboa, sempre se afirmou como beirão. O antigo Presidente da República António Ramalho Eanes, que é natural de Alcains e é uma referência na consolidação da democracia portuguesa. O recém-eleito Presidente da República, António José Seguro. Já para não falar de outras personalidades que são deste território e que também serviram exemplarmente o país em diferentes cargos, áreas e funções.
Quanto a mim, tenho apenas a felicidade de partilhar a mesma origem regional de todas estas figuras e a única coisa que lhe posso dizer é que estou completamente focado, concentrado e empenhado na Covilhã. Quero respeitar a missão para a qual os Covilhanenses me elegeram, que muito me honra e orgulha e sempre estive, sempre estarei, e agora ainda mais, focado em defender e promover o progresso e o desenvolvimento da minha terra e da minha região.
O compromisso que assumi com os Covilhanenses é claro, é neles que penso acima de tudo.
O que pensa do desenrolar da Operação Marquês? Acha correta esta estratégia de ir substituindo advogados atrás de advogados?
Estas funções são muito exigentes e deixam-nos pouco tempo para acompanhar todos os pormenores. Vivemos num Estado de Direito e é fundamental respeitar o trabalho da justiça e a presunção de inocência. Acho fundamental que se faça justiça e tenho confiança que tal ocorrerá.
É presidente de uma câmara onde o rural convive com o turismo de elite. Quais são os grandes desafios dessa convivência?
O grande desafio é garantir equilíbrio. A Serra da Estrela e as nossas aldeias têm uma identidade muito forte que deve ser preservada. O turismo pode ser um motor de desenvolvimento, mas tem de respeitar o território, as comunidades locais e o ambiente. O objetivo é valorizar o rural, criar rendimento para quem cá vive e oferecer experiências autênticas a quem nos visita.
O nosso desafio passa por preservar a genuinidade das nossas raízes, das nossas tradições e da nossa identidade e possibilitar exatamente que esse turismo de elite desfrute da experiência valiosa de viver momentos únicos no nosso território que, exatamente por ser marcadamente rural e genuíno, tem um encanto ainda maior e permite vivências ainda mais profundas.
Felizmente temos uma oferta diferenciada e com muitas opções, que permitem garantir e oferecer um nível de qualidade em que o fator preço não seja restritivo, seja em termos de alojamentos, seja em termos de restauração e programas.
Somos um destino para todos, em qualquer época do ano. É certo que temos a neve, mas também temos a natureza, a gastronomia, o património edificado cultural e industrial e a genuinidade de cada uma das nossas aldeias. E depois temos ainda a região, numa oferta muito diversa e complementar para oferecer emoções e experiências verdadeiramente únicas e marcantes, ao ritmo de cada um e com “tempo para ti”.
A burocracia de Bruxelas colocou em causa a riqueza do queijo da Serra da Estrela, impedindo a sua feitura em determinadas matérias como a madeira? O que acha que deve ser feito para preservar a essência do queijo da Serra e o uso de cardo?
O queijo Serra da Estrela é um património cultural e gastronómico de enorme valor, hoje salvaguardado através da certificação DOP - Denominação de Origem Protegida que assegura a sua essência e as condições de origem e produção desta iguaria. O melhor contributo que podemos dar para a sua preservação é o seu consumo e a sua valorização como o melhor queijo do mundo!
Quais são as grandes riquezas da Covilhã, além das iguarias já faladas? Acha que pode fazer alguma coisa para um reconhecimento internacional?
A Covilhã tem um conjunto de ativos muito fortes: a Serra da Estrela, a Universidade da Beira Interior, o património ligado à indústria dos lanifícios e uma crescente dinâmica tecnológica e científica. O reconhecimento internacional também já chegou por parte da UNESCO atribuindo a distinção - a primeira em Portugal - de Cidade Criativa na categoria de Design. Para além desta distinção, vamos trabalhar para um reconhecimento na área ambiental e da sustentabilidade, da juventude e da inovação.
Em termos gastronómicos, temos uma oferta riquíssima e única. Temos a Cherovia da Covilhã, uma raiz que pode ser usada em mil e uma receitas. Temos o Pastel de Molho da Covilhã, confeccionado à base de massa folhada e recheado com carne, que é servido com molho de açafrão. Temos também a Panela do Forno da Covilhã, um prato à base de arroz e enchidos. O famoso “Bacalhau à Assis” receita criada há 82 anos por Henrique Assis na antiga Pensão "O Skiador", nas Penhas da Saúde, durante um nevão, onde perante a necessidade de alimentar hóspedes com os últimos recursos disponíveis, criou esta famosa e saborosíssima receita de bacalhau. Temos a Broa de Milho, um pão de farinha de milho ou a “Pica com Cebola e Bacalhau” confeccionado também com farinha de milho e uma saborosa mistura de cebola e bacalhau.
Temos o Brulhão, iguaria histórica, que consiste num enchido feito com bucho de cabra ou ovelha, recheado com uma mistura de arroz, carnes de porco picadas, chouriço e ervas aromáticas, com especial destaque para o serpão (tomilho-serpão), que lhe confere um aroma único.
Na doçaria temos a deliciosa Garganta de Freira, que é um doce conventual típico da Covilhã, que consistente num canudo de hóstia recheado com fios de ovos, mergulhados em calda de açúcar e o Bolo Nevão, que nos últimos anos tem abrilhantado o arranque das celebrações de Natal na Covilhã e que consiste num saboroso bolo, coberto por um manto de açúcar em pó que lembra, precisamente um manto de neve.
Na fruta temos o melhor pêssego do mundo, o Pêssego da Covilhã e uma grande produção - em quantidade e qualidade - de cereja da Cova da Beira.
Por dificuldade, economia de espaço não é possível fazer referência a todas as iguarias e o melhor mesmo é vir experimentar e conhecer no local.
A resposta é óbvia, calculo que prefira o presunto da Serra ao pata negra. Mas quando vai a Espanha não lhe sabe bem degustar uma pata negra?
Aprecio conhecer a gastronomia local, seja onde for. A gastronomia é uma das grandes expressões da cultura de cada país e de cada região. Temos enorme orgulho nos nossos produtos da Covilhã e da Serra da Estrela, mas também sabemos apreciar aquilo que de melhor se faz noutros territórios. O importante é valorizar a autenticidade e a qualidade e é isso que procuramos fazer na Covilhã.
Algum dia a Serra da Estrela terá pistas de gelo abertas o ano inteiro, com o recurso a neve artificial?
Tenho as maiores dúvidas até porque no verão os termómetros sobem a temperaturas elevadíssimas e porventura a única forma de ter neve artificial seria numa estrutura frigorífica e climatizada que permitisse garantir condições para o efeito. De todo o modo penso que a Serra da Estrela vale todo o ano, sobretudo para lá da neve que representa uma pequena parte do período anual. A Serra da Estrela é um ecossistema sensível e único e que tem uma oferta de turismo de natureza, durante todo o ano, ao nível de outros destinos na Europa ou nos Estados Unidos, já para não falar de todo o seu património histórico e agenda cultural.
E qual a razão para o cume da Serra estar fechado tantas vezes, por causa do vento?
Por causa da segurança das pessoas. A segurança tem de estar sempre em primeiro lugar. As condições meteorológicas na Serra da Estrela podem mudar muito rapidamente e o vento forte pode tornar a circulação perigosa. As decisões de encerramento são tomadas pelas autoridades competentes com base em critérios técnicos e de segurança. De todo o modo este constrangimento reforça a necessidade de encontrar meios alternativos de transporte de pessoas, por exemplo através de meios mecânicos, como se faz noutros pontos da Europa e também seria uma solução para os problemas de trânsito e estacionamento no planalto central, especialmente quando neva.
Quantas nacionalidades vivem na Covilhã? E, já agora, qual a percentagem de estrangeiros na Universidade da Beira Interior?
A Covilhã é hoje uma cidade cada vez mais internacional e parte do seu dinamismo resulta deste encontro de culturas. Creio que temos, neste momento, mais de 70 nacionalidades que estão extremamente bem integradas e contribuem para o dinamismo da cidade.
Uma parte relevante da população estrangeira integra o nosso ecossistema de inovação e investigação. Chegam para estudar e investigar na UBI que tem, de acordo com os últimos dados de que disponho, de aproximadamente 20% de alunos estrangeiros nos vários graus de ensino e investigação.
A Covilhã tem espaço para todos e é hoje um ponto de encontro de culturas, de religiões, e de diferentes origens - onde todos vivem e convivem com respeito e encontram espaço de felicidade - e isso é uma grande riqueza que nos torna uma Cidade muito cosmopolita e mais rica!