quarta-feira, 22 jul. 2026

Guerras no Chega ao rubro com eleições para distritais

As eleições marcadas para 28 de junho e 5 de julho expõem as maiores divisões internas da breve história do Chega. Com disputas renhidas em vários distritos e múltiplas candidaturas em Lisboa ou Porto, Braga ou Santarém. André Ventura reserva-se.
Guerras no Chega ao rubro com eleições para distritais

As eleições para as comissões políticas distritais do Chega - que depois têm o ‘poder’ de nomear as direções das concelhias - estão agendadas para os dias 28 de junho e 5 de julho, mas já se apresentam como as mais disputadas e fraturantes da história interna do partido. E, se o apoio dos militantes ao seu líder nacional, André Ventura, é inquestionável, o mesmo já não se verifica, de forma alguma, neste ato eleitoral para escolher quem vai fazer a ligação entre a direção nacional e os militantes de base, e cujo processo tem sido sucessivamente adiado não só pela direção nacional, mas também pelos repetidos chumbos e revisões estatutárias impostas pelo Tribunal Constitucional (TC).

É certo que a direção nacional do partido tem-se mantido à margem das disputas, mas também é verdade que existe uma preferência informal pela continuidade das lideranças em funções, com vista a que o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido nos últimos anos não seja posto em causa. Ainda assim, André Ventura, numa diretiva emitida nesta semana, proibiu os deputados do partido na Assembleia da República de participarem na campanha para as distritais do partido, a menos que sejam candidatos. E aqueles que violarem estas ordens serão alvo de sanções.

Uma das disputas mais acesas é na capital, Lisboa, onde a atual líder e deputada Patrícia Almeida volta a entrar na corrida com a promessa de «unir, mobilizar e reforçar a presença do Chega em todo o distrito de Lisboa» e cuja candidatura «assenta também numa visão clara para o distrito de Lisboa: uma Lisboa mais segura, onde o crime não seja normalizado e onde as forças de segurança sejam respeitadas e apoiadas».

A deputada vai enfrentar a concorrência de António Pinto Pereira, antigo deputado do Chega e candidato independente à Câmara de Cascais, que aposta numa candidatura independente de «compromisso de mudança e serviço ao país». Não falta quem questione como é possível que Pinto Pereira seja candidato à distrital tendo concorrido nas últimas autárquicas contra as listas oficiais do partido, encabeçadas por João Rodrigues dos Santos.

O mesmo cenário repete-se no Porto, em que o deputado e vereador em Gondomar Rui Afonso tem como objetivo renovar mandato à frente da distrital que no início deste ano se viu envolvido em polémica, após acusações por parte de antigos militantes de alegadas irregularidades e de uma suposta ‘compra de votos’ - envolvendo elementos ligados ao grupo 1143 - nas últimas eleições distritais (2023). Uma situação que foi negada pelo próprio. Rui Afonso enfrenta agora a concorrência de Luís Couraceiro, antigo vice-presidente da estrutura, que defende uma distrital mais focada no trabalho local, considerando que aquela estrutura distrital «não pode ser um trampolim para a Assembleia», mas um órgão dedicado a fortalecer o partido no distrito.

Também em Setúbal, o atual líder da Comissão Política Distrital do Chega, Nuno Gabriel, é recandidato, com uma campanha focada na estabilidade, continuidade e no compromisso com o partido e com André Ventura. Apesar de rejeitar divisões internas, enfrenta a concorrência de Nuno Valente, que promete centrar o seu projeto nas bases e nos militantes do partido. E já veio referir que a sua campanha não se dirige contra ninguém dentro do partido, mas contra os desafios externos.

Recorde-se que, nas eleições legislativas, o Chega obteve uma vitória assinalável em Setúbal, sendo o partido mais votado no distrito, um território historicamente ligado à esquerda, obtendo 26,38% dos votos. Daí Nuno Gabriel defender que «não é tempo de aventuras nem de instabilidades», alertando que a prioridade «deve passar pela consolidação dos resultados obtidos e pelo reforço da presença política do partido no distrito».

Forte divisão

Em Braga, a liderança do atual presidente da distrital, o deputado e secretário da Mesa da Assembleia da República Filipe Melo, enfrenta forte contestação. E o argumento de manter a continuidade do seu mandato, destacando o crescimento eleitoral e a consolidação do partido no distrito ao longo dos últimos, não é suficiente para acalmar os ânimos internos, vendo-se a braços com a concorrência de mais duas candidaturas.

Por um lado, Paulo Ralha - deputado na Assembleia Municipal de Barcelos -, que denuncia uma alegada «crise de credibilidade» na região, marcada por polémicas internas e pelo afastamento de vários quadros e eleitos locais, acusando a atual liderança de ter contribuído para a perda de confiança dos militantes e eleitores e, por outro, por Carlos Barbosa, também deputado e presidente da mesa da distrital, que acusa a atual direção de falta de proximidade com os militantes e de ausência de dinâmica interna.

Em Santarém, assiste-se igualmente a uma forte divisão e confrontos internos, numas eleições que contam com quatro candidatos à liderança - o que reflete bem a fragmentação deste concelho. O atual presidente e deputado à Assembleia da República, José Dotti, enfrenta a concorrência da empresária Manuela Estêvão, presidente da concelhia de Santarém, que o acusa de ter usado o cargo como trampolim para chegar à Assembleia da República. A candidata apela a uma renovação na liderança regional, procurando captar o descontentamento de fações internas que exigem maior democratização e transparência na estrutura. A estas duas candidaturas somam-se ainda a de José Luís Albuquerque, que acena com a ideia de restaurar a união interna no distrito e em recuperar os militantes de base que se desvincularam ou que se afastaram do partido nos últimos anos devido a divergências com a atual liderança, assim como a de Sónia Pereira, que nas últimas eleições autárquicas concorreu como cabeça de Lisboa à Câmara de Ferreira do Zêzere, onde ganhou maior projeção interna.

Disputas em outros distritos de relevo

Já em Aveiro, Pedro Alves recandidata-se, apostando na ideia de «continuidade e na afirmação que o partido conseguiu consolidar na região de Aveiro» sob o seu mandato. No entanto, Manuel Almeida apresenta-se como alternativa, defendendo «um novo ciclo e uma comissão distrital mais transparente, próxima e participativa, focada em dar maior relevância às comissões concelhias e aos autarcas locais».

O episódio repete-se em Beja, com Mário Cavaco, que avançou com a sua recandidatura com o objetivo «consolidar o trabalho realizado e fortalecer a presença territorial» do partido na região do Baixo Alentejo, a enfrentar a oposição de António Carneiro, que apresenta uma estratégia alternativa com vista a unificar as concelhias do distrito, aproveitando a dinâmica de crescimento que o partido tem registado na região, onde se tem posicionado como uma das principais forças políticas.

Ao contrário do que se verifica nestes distritos, há outros em que o processo eleitoral está a ser feito de forma mais pacífica, apostando em processos de continuidade sem listas alternativas organizadas. É o caso de Faro, Évora e Portalegre. Também em regiões como Viseu, Guarda, Castelo Branco, Vila Real e Bragança assiste-se a estabilidade interna, sem oposição às atuais lideranças.