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O partido de André Ventura está mesmo a ferro e fogo. Os resultados das distritais no último domingo não vieram acalmar a vida interna do Chega, que já estava em sobressalto com os atos eleitorais da semana anterior. Estas eleições para as estruturas locais ficaram marcadas por uma fortíssima disputa interna, com os apelos à unidade por parte da direção nacional a caírem em saco roto, expondo divisões e dinâmicas de quase cisão num partido ainda tão recente. Aliás, evidência disso mesmo foi a eleição de dez caras novas, tendo apenas outros 10 sido reconduzidos.
Nesta lista há que contar com quatro derrotados de peso, já que quatro deputados perderam a liderança distrital: Rui Afonso no Porto, Nuno Gabriel em Setúbal, João Graça em Faro e João Tilly em Viseu.
A perda mais recente ocorreu em Viseu, do deputado João Tilly, tendo saído vitorioso Rui Miguel Pereira com 54,9% dos votos. Nas redes sociais, o vencedor chama a atenção para o facto de conseguido alcançar uma equipa alargada, incluindo pessoas que colaboraram sem procurar cargos ou benefícios pessoais. E apelou à união interna, recordando que «as equipas devem discutir ideias e respeitar opiniões diferentes em vez de se atacarem mutuamente», referindo que «o principal propósito passa por fortalecer a distrital de Viseu e servir os militantes e o distrito».
Já em Braga, que era apontado como um caso problemático, a escolha recaiu na continuidade. Filipe Melo conseguiu alcançar 56,5% dos votos . Para trás ficaram as candidaturas de Carlos Barbosa – o principal opositor e também deputado à Assembleia da República pelo círculo de Braga – e de Paulo Ralha. Além da comissão política, a lista vencedora de Filipe Melo conseguiu eleger a maioria dos representantes para a Mesa da Assembleia Distrital e para o Conselho de Jurisdição Distrital. «A confiança dos militantes permite-nos iniciar um novo ciclo com uma equipa preparada para responder aos desafios que temos pela frente», prometendo trabalhar para que que o partido se torne a primeira força política no distrito.
O mesmo cenário repetiu-se em Beja. Também aqui assistiu-se a uma mudança de liderança com a vitória do deputado à Assembleia da República António Carneiro, que derrotou o líder histórico Mário Cavaco, que alcançou apenas 37,5% dos votos. A lista vencedora garantiu também o controlo dos restantes órgãos locais, elegendo os representantes para o Conselho de Jurisdição Distrital e para a Mesa da Assembleia Distrital. No entanto, após a confirmação dos resultados, António Carneiro afirmou que «o momento é agora de união», de forma a preparar o partido para as frentes eleitorais externas. E deixou um recado interno ao defender que os interesses dos militantes e da região estão «acima de qualquer divergência».
Também em Leiria havia dúvidas em relação à continuidade, mas Luís Paulo Fernandes continuou à frente ao conquistar 57,9% dos votos dos militantes. Com este resultado conseguiu consolidar o seu peso político na região, onde já acumula as funções de deputado na Assembleia da República e vereador na Câmara Municipal de Leiria. «Começa agora novo um novo trabalho, um trabalho que tem de ser feito pelo Chega e pelo presidente André Ventura, até que o Chega seja governo de Portugal», afirmou o dirigente.
Em Santarém, o ambiente era igualmente de forte divisão e de confrontos internos, numas eleições que contavam com quatro candidatos à liderança, o que reflete bem a fragmentação deste concelho. O atual presidente e deputado à Assembleia da República, José Dotti, conseguiu ser reeleito mas à tangente. Mas a sua principal opositora, Manuela Estêvão, presidente da concelhia de Santarém, ficou muito próxima, arrecadando 35,5% dos votos.
Face à margem curta que separou as duas listas mais votadas, a candidata avançou com um pedido de impugnação das eleições, contestando formalmente o desfecho por defender que o processo eleitoral não decorreu com a transparência desejável. Ainda antes do ato eleitoral tinha-o acusado de ter usado o cargo como trampolim para chegar à Assembleia da República e apontava o dedo à sua liderança no sentido de afastar mais de 200 militantes das decisões do partido.
Também em Bragança, as eleições ditaram uma mudança na liderança com a vitória de Paulo Matos, atual vereador do Chega no município de Carrazeda de Ansiães, num ato eleitoral que também ficou marcado pela ameaça de contestação judicial. A candidata derrotada, Marisa Aranda, manifestou publicamente estar a ponderar avançar com um pedido de impugnação do ato eleitoral devido a alegadas irregularidades verificadas ao longo do processo. Por outro lado, o ato eleitoral contou com uma participação muito baixa, registando apenas 62 votantes no total do distrito.
Aliás, em Setúbal, cujo resultado já tinha sido conhecido com a vitória de Nuno Valente e a derrota do deputado e até então líder distrital, Nuno Gabriel, assistiu-se ao movimento de um grupo de militantes que impugnou oficialmente o escrutínio devido a quebras de imparcialidade.
Ao contrário do que aconteceu em outras distritais, em Lisboa, as eleições internas do Chega assinalaram uma transição pacífica e na linha de continuidade com a eleição da deputada à Assembleia da República Patrícia Almeida para a presidência da comissão política distrital, tornando-se assim numa das caras novas na presidência, mantendo o bastião lisboeta sob a influência da anterior equipa de gestão, uma vez que assumiu o topo da estrutura após a decisão do anterior líder e deputado, Pedro Pessanha, de não se recandidatar ao cargo.
Também em Coimbra assistiu-se a um cenário de continuidade, com o deputado Paulo Seco a garantir a reeleição para a liderança da comissão política distrital com mais de 60% dos votos, assim como em Aveiro com a reeleição de Pedro Alves. Ainda assim, o líder em funções enfrentou uma candidatura alternativa liderada por Manuel Almeida, atual vereador e líder da concelhia de Oliveira de Azeméis. Já em Évora, César Silva liderou a única candidatura.
Braço de ferro
Apesar de a direção nacional do partido ter querido manter-se à margem das disputas, existia uma preferência informal pela continuidade das lideranças em funções para que o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido nos últimos anos não seja posto em causa. Agora, perante os resultados, André Ventura disse que a existência de vários candidatos em cada distrito «mostra como há vida e democracia e pluralismo dentro do Chega», referindo que o resultado de cada eleição «foi a escolha dos militantes» e que cabe «ao presidente do partido cabe com isso».
Já em relação ao facto de haver menos deputados a liderar as distritais do Chega, disse apenas que reflete «o dinamismo e a vida interna do partido, mostra democracia e mostra pluralismo». E aos recém-eleitos deixa uma garantia: «Enquanto for presidente do partido, vou trabalhar com todos os distritos de maior dimensão, de menor dimensão, se sejam deputados ou não sejam», referindo que «ao presidente do partido cabe respeitar isso e trabalhar com lealdade e com harmonia com estes distritos».
A verdade é que o Chega está dividido ao meio – como o provam os resultados destas eleições distritais – ganhando peso a fação do deputado na Assembleia da República e vereador em Loures Bruno Nunes, que vem arregimentando contestatários nos corredores e é apontado como estando por detrás de várias candidaturas vencedoras que destronaram deputados incumbentes. E a mensagem que publicou nas redes sociais – ‘Sai de cena quem não é de cena’ – é vista internamente como uma provocação à direção nacional.
O certo é que o líder do partido se sentiu na necessidade de vir a terreiro afirmar que a liderança nacional permanece incontestada e que o partido se mantém «francamente unido» em torno do projeto comum.