O Grande Oriente Lusitano (GOL) acusa a loja maçónica liderada por Eurico Castro Alves, ex-coordenador do plano de emergência da Saúde do Governo de Luís Montenegro, de ter uma dívida superior a 9 mil euros à obediência. Cerca de 40 maçons que compunham essa loja – chamada ‘União Portucalense’ – saíram do GOL, em setembro de 2025, em rota de colisão com os dirigentes da obediência por discordarem de várias medidas, em especial a de terem autorizado, pela primeira vez na história, a admissão de mulheres. Agora, são acusados de terem ficado com o dinheiro das quotas de maçon – valor que, segundo o grão-mestre, pertence ao GOL. O mal estar entre maçons está instalado, com um braço de ferro que parece não ter fim à vista.
Num decreto maçónico a que o SOL teve acesso, o grão-mestre, Fernando Cabecinha, alega que os maçons da Loja ‘União Portucalense’ não saldaram o «débito ao Grande Tesouro no valor de 9.219, 00 euros» e avisa que, enquanto não pagarem, serão considerados «irregularizados».
Em causa está o valor das quotas mensais que são pagas pelos maçons e que representam um dos grandes rendimentos da maçonaria. Em 2025, segundo o Relatório de Contas da organização maçónica, as quotas pagas pelos membros geraram receitas ao GOL que ultrapassaram os 600 mil euros.
Além das quotas, os maçons pagam também uma joia de entrada na maçonaria e sempre que sobem de grau e ganham importância é-lhes cobrado um valor específico em dinheiro.
No documento interno a que o SOL teve acesso é explicado que Eurico Castro Alves e os outros maçons não entregaram ao Grande Tesouro, órgão ao qual as lojas têm de prestar contas, os valores totais em dívida. De acordo com o documento do GOL, a divida inicial era de 11.655,00 euros, tendo, porém, sido pagos cerca de 2.400 euros.
No entanto, fontes desse grupo de maçons que é agora acusado garantem que essa «dívida não existe», considerando que está «tudo regularizado». «Eles fizeram mal as contas e vão perceber isso daqui a uns tempos», diz um outro maçon do grupo, sublinhando que nem quer acreditar que o decreto foi feito apenas por vingança da saída.
Entrada de mulheres gera polémica
O mal estar está instalado, até porque a grande maioria dos maçons que faziam parte da loja do GOL foram integrados numa outra obediência, vista como a grande rival nos recrutamentos: a Grande Loja Legal de Portugal (GLLP).
Segundo apurou o SOL, nesta obediência, que tem como grão-mestre Paulo Rola, foi constituída uma nova loja, em tudo igual aquela que havia no GOL. Funciona no mesmo sítio em Vila Nova de Gaia e tem exatamente o mesmo nome: ‘União Portucalense’. Fontes da GLLP contam que a loja foi criada em outubro e, aos poucos, os elementos que abandonaram a obediência liderada por Fernando Cabecinhas foram sendo integrados. Ou seja, Eurico Castro Alves trocou o GOL pela GLLP – as duas obediências que têm disputado protagonismo em Portugal nos últimos anos.
A decisão de abandonar o GOL foi tomada depois de ter sido aceite a entrada de mulheres. O parlamento maçónico aprovou a medida em maio de 2025 e em junho do mesmo ano foi promulgada pelo grão-mestre Fernando Cabecinha. A 25 de novembro, e pela primeira vez na história, foi feita dentro do palácio maçónico uma iniciação a duas mulheres.
A iniciação é um ritual maçónico em que os novos membros são apresentados e decorreu no templo José Estevão, na sede, no Bairro Alto, em Lisboa. Durante esta cerimónia, as duas mulheres fizeram um juramento de fidelidade pondo a mão sob a Constituição da República que se encontrava numa mesa junto a um altar que está sempre montado no templo.
As duas mulheres maçons do GOL passaram a pertencer à Loja Delta, liderada por Leonel Gonçalves, que se tornou na primeira a deixar de ser exclusiva para homens. Em breve, outros maçons do sexo feminino irão ser integradas, pois já outras lojas iniciaram o processo interno para esse fim. Neste momento, as lojas podem ser mistas ou apenas masculinas.
Aliás, o grão-mestre Fernando Cabecinha elaborou um decreto com as regras que as lojas têm de seguir para começarem a iniciar mulheres. O documento indica que, desde logo, tem de ser apresentada «uma proposta escrita de mudança de natureza, devidamente assinada, pelo menos por sete membros ativos». Esta passagem de uma loja masculina para mista tem depois de ser aprovada por uma ‘maioria absoluta’ dos membros, diz o decreto, onde é também deixado claro que só as lojas que têm as contas regularizadas podem fazer esta alteração.
A ‘União Portucalense’ não foi a única que se opôs à entrada de mulheres. Outras também contestaram, havendo mesmo mais maçons a sair do GOL, como sucedeu com os elementos da Loja ‘Estado da Arte’.