quinta-feira, 05 mar. 2026

Governo quer datas fixas para pagamento do IUC e aponta cinco milhões de contraordenações em cinco anos

Ministro sustentou que o novo modelo replica “as mesmas regras” aplicadas ao IMI e que o objetivo é simplificar o sistema.
Governo quer datas fixas para pagamento do IUC e aponta cinco milhões de contraordenações em cinco anos

A alteração ao calendário do Imposto Único de Circulação (IUC) proposta pelo Governo pretende criar datas fixas de pagamento, à semelhança do que já acontece “há décadas” com o Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI), e reduzir o número de contraordenações, defendeu esta terça-feira o ministro das Finanças.

Durante o debate na Assembleia da República, Joaquim Miranda Sarmento justificou a mudança com a necessidade de dar maior previsibilidade aos contribuintes e diminuir incumprimentos involuntários.

“O modelo atual, disperso por diversas datas ao longo do ano, gera entropia administrativa e agrava o risco de incumprimentos não intencionais”, afirmou, referindo que, nos últimos cinco anos, foram instaurados mais de cinco milhões de processos de contraordenação relacionados com o imposto, num total de 103 milhões de euros pagos em coimas.

Como passa a funcionar o novo calendário

De acordo com a proposta de lei:

  • IUC até 100 euros: pagamento único até ao final de abril;

  • Entre 100 e 500 euros: duas prestações, em abril e outubro;

  • Superior a 500 euros: três prestações, em abril, julho e outubro.

Atualmente, o imposto é pago no mês da matrícula do veículo.

O ministro sustentou que o novo modelo replica “as mesmas regras” aplicadas ao IMI e que o objetivo é simplificar o sistema.

Oposição apoia simplificação, mas levanta reservas

Vários partidos manifestaram concordância com a fixação de datas certas, embora tenham apresentado críticas.

O deputado do PS Miguel Costa Matos considerou a medida “uma boa ideia”, mas questionou a escolha de abril para a primeira prestação e para o pagamento único, sugerindo uma possível ligação com a necessidade de liquidez do Estado numa altura em que são processados reembolsos de IRS.

Miranda Sarmento rejeitou essa interpretação, garantindo que Portugal “não tem problemas de liquidez” e apontando a elevada procura dos investidores nas emissões de dívida pública.

Do Chega, Rui Afonso manifestou receio de que a definição de pagamento em prestações possa abrir caminho, no futuro, a um agravamento da tributação. Alberto Fonseca respondeu que a proposta não prevê qualquer aumento, nem atualização à taxa de inflação em 2026.

A Iniciativa Liberal, pela voz de João Ambrósio, alertou para o possível impacto nas empresas com grandes frotas, devido à concentração dos pagamentos em três meses do ano. O ministro contrapôs que a previsibilidade beneficia também o tecido empresarial.

Paulo Núncio, do CDS-PP, destacou a vantagem de os proprietários saberem que existe “um mês certo” para cumprir a obrigação.

A deputada única do PAN, Inês Sousa Real, defendeu a realização de uma campanha nacional de esclarecimento e medidas de prevenção de fraude, nomeadamente contra tentativas de ‘phishing’.

Também o PCP sublinhou a importância de garantir que nenhum contribuinte incorre em incumprimento por desconhecimento das novas regras e pediu atenção à tesouraria das pequenas e médias empresas.

O Livre considerou que o diagnóstico do Governo sobre o incumprimento é correto, mas criticou o facto de o modelo não responder aos desafios ambientais, defendendo uma tributação que sinalize comportamentos a incentivar.

O BE apoiou a simplificação, mas apontou igualmente a necessidade de adaptar o imposto à atual realidade automóvel. Já o deputado único do JPP classificou a alteração como positiva, embora recordando que não implica qualquer redução do imposto.

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