No único debate antes da segunda volta das eleições presidenciais as diferenças entre os candidatos ficaram vincadas em temas como a saúde, a emigração ou a economia. Alguma crispação e várias picardias marcaram uma discussão em que António José Seguro e André Ventura espelharam as suas visões de Portugal e do mundo e do papel do Presidente da República.
O minuto final de cada um patenteou as diferenças, com António José Seguro a dizer que ambiciona ser “presidente de todos os portugueses” e que tem oferecer “experiência, moderação” e “ambição” de “através do diálogo e do compromisso e da lealdade institucional com o Governo, fazer de Portugal um país moderno e um país justo”, acrescentando que “valoriza todos os seres humanos e a dignidade humana”.
Já André Ventura usou o minuto final para dizer que "ser a voz de quem não tem voz", dirigindo-se a quem “deixou de ter o país” que “passou a pertencer a um conjunto de elites, que ficaram com a maior parte do poder, que absorveram a maior parte dos recursos, do dinheiro, que distribuíram pelos amigos, por aqueles que queriam, e deixaram-vos, a vocês, na pobreza, com salários baixos, pensões baixas”.
Segundo Ventura, “estas eleições não são sobre se queremos manter tudo na mesma com um candidato que não fará absolutamente nada e se manterá absolutamente refém de todos os interesses do sistema ou se vamos conseguir dar o abanão que a nossa democracia merece.”
Antes, em relação à emigração, Seguro defende que é preciso “controlar e regular a entrada de imigrantes”e fazê-lo “também ao nível do acolhimento e da integração”, questionando se o país não precisa de alterar o perfil de desenvolvimento económico para que possa “produzir mais riqueza sem necessitar de tanta mão de obra” mas que no atual modelo o país “precisa de imigração” e que sem emigrantes “o país parava”.
Num registo que usou durante o debate, Ventura acusou Seguro de querer "bandalheira" em que PS "deixou o país, afirmando que não se pode “regularizar” pessoas que entrarem “em catadupa” de forma ilegal. “Devemos fazer que as pessoas entram e cumpram regras, venham por um processo”, acrescentando que Portugal precisa de mão de obra porque paga "miseravelmente" e que tem um “problema de acesso a creches e habitação que enchente de pessoas a entrar de forma descontrolada ia agravar”.
“Não quero fechar Portugal, quero que quem vem tem de cumprir regras”, afirmou Ventura, a quem Seguro acusa de falar “para criar medo e divisão na sociedade, mas não tem soluções" para economia sem imigrantes.
Sobre a saúde, André Ventura cola António José Seguro a resultados da Saúde nos últimos anos, considerando que a o estado da Saúde é “o resultado de PSD e PSD, nomeadamente em terem permitido que imigração se tenha descontrolado” afirmando que “nunca aceitaria nenhuma promulgação de lei para criar direção executiva do SNS, querem mais boys nos jobs, é uma inutilidade”.
Já Seguro disse que diz que vai “exigir solução de compromisso que seja duradoura”, que o objetivo e fala na necessidade de “pagar melhor aos médicos”, defendendo um “sistema único nacional” e que o Presidente “deve criar as condições para que partidos se sentem à volta da mesa” em busca de “soluções concretas”.
Ventura responde ter ficado “claro como Seguro não tem plano nenhum para nada” uma vez que “a carreira dos médicos e enfermeiros está definida na lei” o que mostra “como Seguro está a pensar nestas coisas pela primeira vez” acrescentando que diz “generalidades que podem soar bem”, mas não têm respaldo.
A reforma laboral esteve também em discussão com Seguro a repetir o que tem dito sobre o veto político: "Se chegar o decreto inicial do governo eu vetarei politicamente, porque não resolve nenhum problema”. No entanto, tem “expectativa que haja evolução e diálogo”, que tem conhecimento “de reuniões nesse sentido” e que como “Presidente gostaria que o debate que ocorresse na concertação social tivesse a ver com o futuro da economia”. Se houver um acordo só com a UGT, Seguro assume que promulgaria a reforma laboral.
Já André Ventura explica que tal como está, não melhora qualificações, não melhora ideia de melhores “salários em vez de subsídios” e a questão de diferenças salariais entre homens e mulheres tem de ser resolvida afirmando que Portugal precisa de “economia forte, legislação laboral moderna, mas não pode significa bar aberto de despedimentos e precariedade”, diz, apontando que é preciso “uma lei laboral que não seja sovietizada”.
O debate arrancou com André Ventura a considerar que personalidades que têm manifestado apoio a António José Seguro não o fazem pelo candidato, mas para “cancelarem-me a mim e cancelarem o projeto de mudança e de rutura com o sistema", alegando que "este rodopio de supostos apoios a António José Seguro levanta sérias dúvidas sobre se não ficará capturado por estes interesses".
Na resposta, o antigo secretário-geral do PS garantiu que não é capturável e que se sente “muito feliz, percebo que é um embaraço porque o senhor deputado André Ventura apelou a que toda a direita se juntasse a si e eles responderam dizendo-lhe: 'preferimos o António José Seguro'", salientou.
Por seu turno, Ventura questionou como é que Seguro irá conseguir unir o país "se nem o Partido Socialista conseguiu unir e agregar" quando foi secretário-geral, questionando: "Porque é que o Governo quer tanto que António José Seguro seja eleito? Porque é que estão a acender velas, como eu li na imprensa, para que António José Seguro seja eleito? Porque sabem que António José Seguro não vai fazer exigência nenhuma, não vai ser exigente de forma nenhuma com o Governo, e por isso querem um Presidente que seja uma espécie de rainha de Inglaterra. E nós não precisamos de rainhas de Inglaterra, nós precisamos de um Presidente que defenda o povo português".